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Conforto e segurança não bastam: você quer se conectar

O tsunami de eletrônica embarcada prometido nos salões do automóvel recentes começa a se tornar realidade em mercados avançados para criar ambientes de alta tecnologia e conforto nos veículos. A densidade de inovação em lançamentos como o plug-in Volt, símbolo da renovação na GM, ou no Ford Taurus 2011, quase pronto para chegar às ruas, é arrasadora.
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Redação AB

31 mar 2010

6 minutos de leitura

A inovação é decisiva para manter em alta o interesse pelas novas gerações de veículos e fica em primeiro plano nos programas de investimento dos fabricantes. Projetos arquitetados antes da crise internacional de 2008 escaparam à escassez de recursos e avançaram firme em direção a novas fórmulas de aplicar a eletrônica no automóvel.

A conectividade promete tornar a vida mais agradável no tráfego desgastante, integrando o usuário ao seu carro, ao carro ao lado, ao ambiente de trabalho e ao próprio sistema de informações do planeta – uma ideia que você viu no filme Avatar.

Começam a desaparecer os tradicionais ponteiros e botões mecânicos: telas de LCD e painéis reconfiguráveis, sensíveis ao toque, elevam às alturas o infotainment, exibindo informações de toda natureza com um acervo de gráficos coloridos em 3D. Tudo isso tem preço ainda distante da realidade brasileira, mas o custo dos produtos eletrônicos está despencando com a disseminação de microprocessadores poderosos.

Em considerável grau de defasagem para o primeiro mundo, o Brasil vence degraus no difícil caminho para dominar tecnologias avançadas que caracterizam os pacotes de eletrônica veicular embarcada reservados a powertrain, segurança, infotainment, conforto e carroceria. Em cada uma dessas áreas ocorrem avanços extraordinários no exterior, profetizados já nos anos 80.

A eletrônica ganha importância exponencial no desenvolvimento do powertrain híbrido ou puramente elétrico, que deve ganhar representatividade em uma década. Da mesma forma que viabilizaram a operação dos sistemas flex, gerenciando a injeção de diferentes combustíveis e reduzindo emissões, os microprocessadores incorporam a lógica complexa para colocar em harmonia dispositivos como baterias, motores elétricos e a combustão, mecanismos de tração.

Por aqui as conquistas chegam a bordo dos carros estrangeiros. Os veículos nacionais da fase pós-Collor nem de longe lembram carroças, mas a eletrônica aparece acanhada como acessório nos veículos de entrada e em alguma medida em carros intermediários. Fornecedores de componentes e sistemas, em coro com os representantes das montadoras, concordam em gênero e grau: o País ficou para trás.

Há um punhado de explicações para nossa fragilidade no desenvolvimento de produtos avançados que caracterizam a eletrônica incorporada aos veículos. Uma delas reside no fato de haver no exterior farta disponibilidade, quase a pronta entrega. Tecnologias e hardware já na prateleira podem dispensar investimentos bilionários no Brasil. A Ásia tornou-se um dos celeiros – a China de hardware, a Índia de serviços e softwares. Europa e Estados Unidos oferecem o portfólio completo.


CONTEÚDO

O Brasil sequer produz microprocessadores, os componentes básicos para abrigar a inteligência das arquiteturas eletroeletrônicas. Tudo nessa área é trazido de fora, junto com os demais dispositivos responsáveis pelo sistema nervoso que organiza funções simples, como acender luzes na abertura das portas, e viabiliza as mais complexas, como gerenciar o funcionamento do motor e sistemas que melhoram o conforto, conectividade, estabilidade do veículo e segurança das pessoas.

César Manieri, gerente de contas sênior da Infineon Technologies South America, calcula que um carro brasileiro traz o equivalente a US$ 164 em semicondutores, uma especialidade de sua empresa. O número pode subir para US$ 270 em 2014, mas é preciso levar em conta que a Europa já está nos US$ 370.

O engenheiro lembra que a tecnologia eletrônica chegou ao automóvel de forma incipiente nos anos 80, com microprocessadores de baixa capacidade de processamento. “Hoje a operação do veículo está totalmente nas mãos da eletrônica, à qual 90% das inovações no setor automotivo estão relacionados” – enfatiza. Ele projeta que o mundo caminha para a produção de 73 milhões de veículos leves/ano, com conteúdo médio de 35% em eletrônica, 22% hardware e 13% software.

Nos bastidores comenta-se que essa seria a percentagem de eletrônicos nos materiais adquiridos para construir o novo Focus, que exibe um arsenal de funções para tornar confortável e segura a vida a bordo. O motorista dispensa a chave para abrir a porta com o recurso key less, literalmente conversa com o veículo, liga um sonzão como o do home theater e descobre as vantagens de estar conectado com o mundo.

Plínio Cabral Jr., diretor de engenharia elétrica na General Motors do Brasil, estima que nossos veículos mais simples, equivalentes ao Celta, têm 10% a 15% do custo correspondente a sistemas elétricos e eletrônicos. Em escala crescente, na direção de SUVs e veículos de luxo do mercado internacional, é possível chegar a 45%.


INOVAÇÃO

A possibilidade de interagir com o carro e com o mundo externo passou a ser um diferencial importante para certas categorias de veículos produzidos em escala. Sistemas com LCDs, telas reconfiguráveis que reagem ao toque, bluetooth e conexão para iPod e MP3 são considerados básicos e já estão disponíveis no Brasil, em geral como opcionais, ao lado do clássico ‘trio elétrico’, para vidros, espelhos e travas de portas. Chegarão agora sistemas de diagnóstico do funcionamento do veículo (OBD – On Board Diagnostic) e estão na fila ABS e airbag, por força da legislação.

“A capacidade de adicionar funcionalidades e atualizar sistemas para trabalhar com novos dispositivos é indispensável na indústria, garantindo que os equipamentos não fiquem ultrapassados” – assinalou Derrick Kuzak, vice-presidente de grupo de Desenvolvimento do Produto Global da Ford.

Transportar para o ambiente veicular as aplicações da eletrônica, no entanto, é uma tarefa que traz desafios adicionais em relação ao mercado de consumo, no qual a escala de produção costuma ser elevada. Nem todas as plataformas automotivas alcançam níveis de montagem expressivos e há um agravante: é preciso que a maioria das tecnologias, criadas originalmente para escritórios e salas de visita, sejam adequadas para operar em ambientes hostis como ruas e estradas esburacadas, sujeitas a altas temperaturas, vibrações e trancos.

Com o carro em movimento, existe um desafio extra: os sistemas devem ser suficientemente intuitivos e práticos para evitar a distração do motorista, que deve manter a atenção na condução do veículo. Para manter o piloto alerta os projetistas aperfeiçoaram os comandos de voz, para interagir com o carro, telefonar, sintonizar a estação preferida, saber a previsão do tempo, o andamento do tráfego, o posto de combustível mais próximo.

A interface entre usuário e carro pode ser feita também por meio de dispositivos no volante ou displays sensíveis ao toque – tudo simples e à mão, para garantir um final feliz à viagem.

31 de março de 2010