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COP30 termina com combustíveis fósseis fora do “Pacote de Belém”

Brasil não consegue levar adiante plano de redução de emissões, mas COP30 mostra que nações estão de alguma forma unidas para acabar com o uso desses combustíveis
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Natália Scarabotto

24 nov 2025

5 minutos de leitura

A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, a COP30, avançou em diversos temas, mas os combustíveis fósseis ficaram de fora do “Pacote de Belém”, grupo de textos discutidos no evento sobre financiamento climático, transição justa, comércio, gênero e tecnologia.

Ao todo, a presidência brasileira aprovou 29 documentos do pacote com 195 países. Mas nenhum faz menção aos combustíveis fósseis.

O Brasil queria criar uma proposta para definir planos de ação e metas concretas para a redução do uso de combustíveis em todo o mundo. O tema, que era prioridade para o governo, foi debatido com diversos países e esteve nos discursos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas nada se concretizou.

A inclusão dos combustíveis fósseis no Pacote de Belém foi barrada por países como Arábia Saudita, Rússia e Índia, que se recusaram a negociar o tema. Na COP30, os temas precisam ser aprovados por unanimidade, mas o Brasil não teve o apoio de todos os países representados no evento.

Para o embaixador da COP30, André Corrêa do Lago, e a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, o planejamento envolvendo a redução do uso de combustíveis fósseis não foi descartado e fará parte da discussão entre os países nos próximos meses, enquanto o Brasil é presidente do evento até novembro de 2026.

Na sexta-feira, 21, Lula foi à África do Sul para a Cúpula do G20 e trouxe o tema em seu discurso. “Só haverá transição justa se o G20 liderar o caminho. É do G20 que um novo modelo de economia deve emergir. O grupo é ator-chave na elaboração de um road map para afastar o mundo dos combustíveis fósseis.”

COP30 cria movimento por fim de combustíveis fósseis

Dezenas de países saíram frustrados da COP30 com a falta de um plano claro para a eliminação dos combustíveis fósseis. As nações pressionaram fortemente por um plano de ação que define como os países devem cumprir a promessa feita na COP28, em Dubai, para abandonar a dependência do petróleo, do gás e do carvão.

Com isso, a Colômbia anunciou que sediará em abril sua primeira conferência internacional sobre a eliminação de combustíveis fósseis. O evento já conta com a adesão de 40 países, incluindo nações europeias como Itália e Reino Unido.

Em um dos dias durante a COP, a ministra colombiana chegou a dizer que o evento “não pode terminar sem um roadmap claro, justo e equitativo para a eliminação gradual global dos combustíveis fósseis”.

Ambientalistas criticam texto final da COP30

O Greenpeace disse que “lamenta” que a COP30, que havia começado com grande esperança em criar soluções para longe dos combustíveis fósseis, não tenha incluído o tema no texto final.

“A COP da Verdade revelou as verdades que, infelizmente, já sabemos: o lobby dos fósseis, dos gigantes do agro e de outros setores que seguem lucrando com a nossa destruição, tem sido bem sucedido em segurar avanços e embaralhar o jogo. Alguns países seguem não tratando urgência como urgência, ou crise como crise”, disse a diretora executiva do Greenpeace Brasil, Carolina Pasquali.

O Observatório do Clima avaliou que a COP30 foi importante para avançar em temas que vão de indicadores de adaptação à transição justa e gênero. Um dos maiores avanços foi a decisão de criar um mecanismo institucional para a transição justa chamado pela sociedade civil de BAM (Mecanismo de Ação de Belém, na sigla em inglês).

Em relação aos combustíveis fósseis, o Observatório reconhece que houve “crescente apoio de países ao chamado do Presidente Lula para a construção de mapas do caminho para acabar com o desmatamento e se afastar dos combustíveis fósseis”, mas não foi possível chegar ao consenso exigido.

“No ano de 2026, veremos o processo para esses mapas a partir do chamado independente da presidência da COP30, teremos a conferência na Colômbia e haverá um relatório para a COP31, onde colocaremos mais uma vez o multilateralismo em teste e lutaremos para que enfrente as causas da crise climática e seja capaz de limitar o aquecimento a 1,5 graus celsius”, afirmou a especialista em política climática do Observatório do Clima, Stela Herschmann.

Para cientistas, deixar de fora os combustíveis fósseis é traição

Na sexta-feira, um grupo de cientistas disse que deixar de fora os combustíveis fósseis dos acordos era uma “traição” contra a meta do Acordo de Paris de limitar o aquecimento global em 1,5°C.

“Apesar de um grande número de países se unirem em torno de roteiros para acabar com a dependência de combustíveis fósseis e com o desmatamento — e do impulso dado pelo presidente do Brasil — as palavras ‘combustíveis fósseis’ estão completamente ausentes do texto mais recente”, dizem os cientistas em nota.

O grupo é formado por Thelma Krug, presidente do Conselho Cientifico da COP30; Marina Hirota, do Instituto Serrapilheira; Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP); Carlos Nobre, da Science Panel of the Amazon; Fatima Denton, da United Nations University; Johan Rockström, da Potsdam Institute for Climate Impact Research; e Piers Forster, da University of Leeds.

“Isso é uma traição à ciência e às pessoas, especialmente os mais vulneráveis, além de totalmente incoerente com os objetivos reafirmados de limitar o aquecimento a 1,5°C e com o quase esgotamento do orçamento de carbono. É impossível limitar o aquecimento a níveis que protejam as pessoas e a vida sem eliminar gradualmente os combustíveis fósseis e acabar com o desmatamento”, finalizou o grupo, em nota.