É difícil acreditar na eficácia do recall ‘do tapete’ que a Toyota iniciou nesta segunda-feira, 3 de maio, por meio de suas concessionárias. A empresa, apesar de indícios em contrário detectados pelo Procon, continua afirmando acreditar firmemente que o Corolla produzido no Brasil não apresenta qualquer vício ou defeito que possa colocar a saúde e segurança dos consumidores em risco.
Garante a empresa que o carro aqui é diferente do produzido lá fora. No entanto, com a proibição da venda do carro em território mineiro e pressões somadas do Procon e do Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor, a montadora capitulou e decidiu evitar os mesmos erros cometidos nos Estados Unidos e outros países, onde demorou a responder os questionamentos de clientes, da comunidade e da justiça.
Com a iniciativa do recall, que denomina apenas de ‘campanha de chamamento preventivo do Corolla Nova Geração’, a montadora aparentemente escapa da uma posição de arrogância que também caracterizou a atuação no exterior.
Mas há razões de sobra para um descrédito na condução do ‘chamamento’.
O primeiro motivo vem da própria Toyota. A empresa já admitiu publicamente, por meio de press release, que apenas seis proprietários de cada dez atendem um recall. Há quem alerte para o fato da média das resposta às convocações de segurança ser ainda mais baixa, por diversos motivos: muda o proprietário do veículo; alteram-se os endereços de correspondência, que se perde; o dono do carro não fica sensibilizado com o problema.
Outro motivo de descrédito na eficácia do ‘recall do tapete’ está na própria comunicação do ‘chamamento’, que envolve duas fases — uma para checar o tapete e sua fixação e assegurar que o interessado não está utilizando tapete comprado no mercado paralelo. A segunda, a ser anunciada, deve colocar nos veículos avisos de segurança sobre uso e fixação de tapetes genuínos; entregar e explicar o encarte especial do manual do proprietário relativo ao uso e à fixação dos tapetes genuínos; e substituir tapete não genuíno por originais de fábrica.
A ideia completa da ação parece indicar que a estratégia é garantir que só sejam utilizados tapetes da própria Toyota e que o proprietário do veículo fique atento para que ele esteja bem colocado. Isso obrigaria as pessoas a uma vigilância permanente para não correr risco de vida com o deslocamento do tapete.
Só mesmo um fanático por Toyota e Corolla aceitará essa condição, que coloca o carro como um produto vulnerável a mau uso do tapete. Um novo usuário do carro vai ler o aviso de advertência? Ler o manual?
Na verdade, a Toyota deve acreditar mesmo firmemente que o Corolla produzido no Brasil não apresenta qualquer vício ou defeito que possa colocar a saúde e segurança dos consumidores em risco.
Não seria muito mais razoável e verdadeiro fazer um ação de verdade, fixando ou eliminando o tapete para sempre?
Com a palavra, a Toyota.
* Paulo Ricardo Braga é editor de Automotive Business.