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Cristina Burrola, vice-presidente da Cummins na AL: ‘Questões de gênero não iriam me parar’

À frente de 11 mil colaboradores e de companhia com receita bilionária, executiva explica como ela e a empresa encaram o tópico diversidade
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Marcus Celestino

01 fev 2024

7 minutos de leitura

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Cristina Burrola, vice-presidente e líder da Cummins para a América Latina, é contundente ao afirmar que “questões de gênero” não iriam impedir sua escalada na pirâmide corporativa. A força vem, muito, do background. Abandonada pelo pai e criada, ao lado de seus irmãos, pela mãe solteira, lutou (muito) para chegar onde chegou.

Não à toa, a executiva fomenta políticas de diversidade e inclusão na Cummins que vão além do tópico gênero. Crê que a pluralidade, ideias distintas, numa empresa serve para acelerar os processos de inovação. Servem para perpetuar a companhia. Mesmo assim, é enfática ao dizer que talento, evidentemente, é algo que também se faz necessário.

Automotive Business conversou Cristina Burrola e, nessa parte da entrevista, falamos sobre o que já foi supracitado e sobre seu estilo de gestão. 


A primeira parte da entrevista, que aborda como a executiva enxerga o desempenho da Cummins no Brasil em 2024 e além, você pode conferir aqui:

– Cummins espera 2024 forte no Brasil e quer mais diálogo com poder público para fomentar novas fontes de energia no país


Sem mais delongas, vamos ao papo.

Gostaria de falar sobre liderança. Quais estratégias você adota, como líder, em uma indústria dominada por homens brancos heterossexuais? Como promove e fomenta diversidade e inclusão na Cummins?

Eu nasci no México e, como você sabe, o México tem uma cultura extremamente machista.

O mesmo por aqui…

De fato. Países latino-americanos têm essa tendência, mas isso não se restringe apenas a nossa região. A indústria é dominada, sim, por homens. 

Então, como dizia, nasci no México, na região Norte. Fui a primeira filha mulher dos meus pais, vim depois de três filhos homens. Ou seja, desde pequena eu já tinha de encarar alguns desafios. “Existem coisas que meninas não podem fazer”, falavam. Mesmo assim, encarava tais desafios.

Para mim, sempre esteve muito claro desde o início que essas coisas não iriam afetar ou definir as minhas escolhas, quem eu seria no futuro. A questão de gênero não iria me parar.

Meu pai abandonou a família quando eu tinha nove anos. Minha mãe teve de me criar, assim como meus outros irmãos, sozinha. Isso foi fundamental, importantíssimo para criar e moldar o caráter que tenho hoje.

E sobre a Cummins?

Utilizei todo esse background de forma a incentivar, a fomentar diversidade e inclusão na empresa. Além disso, sou muito, digamos, sortuda, pois a Cummins é uma companhia que sempre teve uma preocupação muito grande com esse aspecto. Nós acreditamos que o talento não vem de um único gênero, ou raça.

Além disso, a cultura, o mesmo talento, não são influenciadas por preferências sexuais. Aqui nós aceitamos a todos, bem como aceitamos suas perspectivas e insights únicos, de seus backgrounds, para inovar e garantir o sucesso da nossa empresa.

Quanto às estratégias de liderança, me empenho ao máximo para conhecer as pessoas. Compreender suas necessidade e tratar essas pessoas com dignidade, independentemente de suas origens ou preferência, são minhas prioridades – assim como também são prioridades da Cummins. Valorizamos tal política. 

Um líder tem de tratar a todos com respeito e também garantir que todos entendam seus papéis dentro da estrutura organizacional. Assim, construímos um ambiente saudável, repleto de dignidade e capaz de atender às expectativas das pessoas. 

Dada a sua extensa experiência em inúmeras funções, incluindo gestão de cadeia de suprimentos e estratégia corporativa, como tais influenciaram na sua abordagem, agora como liderança?

Essa é uma pergunta importante. Quando você chega a uma posição de liderança, é fundamental que conheça diferentes áreas da empresa pela qual é responsável. Não chega a ser microgerenciamento, mas você é capaz de entender minúcias e enxergar coisas distintas, de forma diferente, por conta desse conhecimento.

Atuei em várias unidades de negócio de Cummins, bem como na seara de incorporações. Participei de diversos grupos e pude ver como as pessoas trabalham em suas áreas e nas mais diferentes camadas da estrutura organizacional. 

Iniciei minha carreira na Cummins em 2001, em Juárez (México), como engenheira de qualidade. Depois passei a atuar como engenheira de produto, para o mercado, focada em resolver problemas aplicando conceitos de engenharia a fim de resolvê-los e lançar nossos produtos com primor para que atendessem aos anseios dos nossos clientes. Foi aí que aprendi que podem ocorrer atrasos, solavancos no processo.

Isso tudo me ajudou muito a priorizar o que tem de ser cumprido e, claro, fazer com que essas coisas aconteçam. A execução é crucial.

Fui ainda a primeira gerente de fábrica mulher no México e, como você sabe, há um caráter altamente operacional intrínseco ao cargo. Essa foi minha primeira exposição à liderança multifuncional. Mesmo assim, queria melhorar. Justamente por isso me mudei para os Estados Unidos para fazer um MBA. Daí passei para a área de fusões e aquisições, algo importantíssimo a fim de aumentar nossa capilaridade.

Tive ainda que lidar, já como líder da cadeia de suprimentos, com a pandemia. Entramos em um “modo de sobrevivência” que me deu nova bagagem. Nem todo mundo, felizmente, terá de lidar com aqueles momentos tão difíceis.

Como você mencionou anteriormente, a Cummins é uma empresa que valoriza diversidade e inclusão. Como você encoraja e apoia mulheres em posições de liderança e também para que elas cheguem a esses postos? 

Hoje, na América Latina, temos 41% de mulheres nos quadros dos países da América Latina. Nem todas, claro, em posições de liderança, mas esse é um benchmark incrível. Aspiramos, inclusive, ter ainda mais colaboradoras do sexo feminino, mas, para obter esses talentos, temos de continuar a construir um ambiente seguro para que elas venham e façam seus trabalhos sem quaisquer problemas.

Por isso temos nossos programas e estamos alinhados com o WEPs, da ONU, para empoderar mulheres e ter ainda melhores práticas para que todas possam praticar seu trabalho perfeitamente. No Brasil, inclusive, recebemos medalha de ouro por nossas práticas, garantindo que mulheres atuem em ambientes seguros e inclusivos.

Além disso, vale dizer que sou uma das apoiadoras desde 2018, embaixadoras, na América Latina do nosso programa voltado para empoderar as mulheres, o Cummins Women’s Empowerment Network, um grupo de recursos para funcionários (ERG).

Por meio desses grupos, somos capazes de ouvir as diferentes vozes presentes na nossa empresa. Também trabalhamos com análise de dados de forma a checar constantemente se estamos estruturando o organograma de modo diverso.

E também temos os programas voltados para educar nossos funcionários. Temos de mostrar a todas e todos que preconceitos existem e eles podem ser explícitos ou velados. Às vezes, podemos tomar decisões de modo inconsciente com base nesse conceito previamente formado. Temos de reconhecer tudo isso antes de trabalhar e resolver tais questões.

Acho que há muitos, mas quais são os principais desafios e também oportunidades para uma mulher como líder nesta indústria e como você superou esses desafios e como você enfrenta essas oportunidades?

O principal desafio, no geral, é ter um pool de candidatas sempre ingressando em nossos quadros, para criar um ambiente mais igualitário em termos de gênero. Porém, é importante lembrar que somos uma empresa extremamente focada em engenharia, e, infelizmente, ainda não há tantos talentos mulheres deixando as universidades atualmente.

Por isso focamos na atração, na criação de um ambiente seguro, e nas oportunidades que essas mulheres terão em nossa companhia. Temos também iniciativas nas quais trabalhamos com moças mais jovens, ainda no ensino médio, de forma a influenciá-las a escolher essa carreira. Mostramos para elas que as oportunidades, sim, existem.

Por fim, como seu background educacional e profissional, aliados ao pessoal, influenciam em sua liderança e em suas tomadas de decisão?

Me considero uma líder em constante desenvolvimento. Aprendi muito ao decorrer dessa jornada, ao longo da vida, mas ainda estou aprendendo. Encaro isso com muita humildade. Tenho muito a ensinar, mas também tenho muito a aprender com o meu time.

Tive uma vida que, conforme disse, me moldou de determinada maneira. Tenho valores sólidos e uma mãe trabalhadora, que me ensinou a ser essa pessoa obstinada. Minha mãe também me ensinou a focar na educação. 

Evidentemente, durante toda essa minha vida como liderança, tive também de adaptar inúmeras coisas que não funcionavam do jeito que achava que estivessem funcionando. Pensava, por exemplo, que todas e todos tinham de ter o mesmo estilo que o meu: priorizar o trabalho acima de tudo, acima de suas vidas pessoais. E as coisas não são bem assim.

Hoje, continuo aprendendo. E sou muito feliz assim. Muito do que está por vir me tornará uma líder melhor do que sou hoje. Na verdade, um ser humano melhor. Tudo pode melhorar, e acredito que estamos aqui para fazer as coisas de outro modo, tornando este mundo diferente de uma forma positiva.