logo

De office boy a CEO: Ricardo Leptich, da Osram, mostra que tempo de casa faz, sim, a diferença

Executivo, há quase três décadas na empresa de origem alemã, passa a acumular o posto tanto para a América Latina quanto para a Península Ibérica
Author image

Marcus Celestino

29 ago 2023

7 minutos de leitura

Imagem de Destaque

Ricardo Leptich, CEO da ams Osram para a América Latina e, agora, também para a Península Ibérica, faz parte da Geração X. Do finzinho da Geração X, no caso, já que tem seus 44 anos de idade. E, dependendo do analista, poderia se encaixar como um millennial de “primeira leva”.

O repórter promete que não está fazendo rodeios, ou, no jargão jornalístico, um nariz de cera. Há quase três décadas na empresa, Leptich é uma raridade no mercado – um, digamos, unicórnio. É notório que millennials e, especialmente, zoomers (nascidos em meados da década de 1990) têm a predileção por pularem de empresa para empresa em pouquíssimo tempo.

Evidentemente não se pode generalizar, mas a guinada cultural fez com que mais jovens olhassem primeiro para as suas escolhas e preferências em detrimento dos anseios das companhias. Todavia, Ricardo Leptich mostra que tempo de casa faz, sim, a diferença. Isso, claro, permeado por talento e competência.

“A experiência que tive no início da minha carreira, de observar todas as áreas, de identificar oportunidades, é mais difícil de se fazer hoje. Especialmente por conta do modelo híbrido de trabalho. Você não consegue ter uma visão macro da organização, esse contato humano para aprender por espelho”, comentou o executivo em entrevista à Automotive Business.


Faça a sua inscrição no Automotive Business Experience | #ABX23


Leptich deu início ao seu ciclo na Osram aos 16 anos, como office boy. Na função, serviu muitos cafezinhos, distribuía as malas diretas e, inclusive, passeava com cachorros. Mas não foi só isso. O posto lhe deu um vislumbre de várias áreas da companhia.

Acabou vertendo para o marketing. Graduou-se e fez MBA nessa seara e também ocupou inúmeras posições dentro do segmento na empresa austro-alemã – uma das líderes globais em soluções ópticas. Chegou ao cargo de CEO em 2016 e, desde julho passado, acumula a mesma função para a Península Ibérica. 

O executivo salientou que sentiu certa dificuldade, ao menos no caso dos mais jovens, quanto ao modelo híbrido não somente pela ausência da supracitada visão macro. “Embora seja a preferência dessa geração por uma questão de comodidade, há uma questão que muitos deles deixam escapar. Além de tudo que já mencionei, como você cresce na organização? Como você mostra seu trabalho aos seus pares? Temos de ver como esses profissionais vão se comportar de forma a pleitear posições dentro da estrutura”.

Engana-se, porém, quem acredita que Ricardo Leptich é avesso aos profissionais mais jovens. Ledo engano. O executivo crê que, para que as engrenages organizacionais funcionem adequadamente, se faz necessário um equilíbrio entre colaboradores de gerações distintas.

“Você traz ideias diferentes, conceitos diferentes, uma pluralidade fundamental para que a empresa possa evoluir. Isso tanto no quesito idade quanto no de gênero e de experiências distintas”, ressaltou Leptich, que, na juventude, fez parte de banda de metal que chegou a abrir para os hard rockers do Dr. Sin. 

 

Your browser doesn’t support this video format.

Ricardo Leptich e os novos desafios na Península Ibérica

O heavy metal foi deixado de lado faz algum tempo, justamente por conta da ascensão na Osram. O gosto pela música, claro, segue. Proativo, Leptich sempre foi visto na empresa como figura interessada em resolver problemas que, muitas das vezes, sequer estavam em seu escopo. Não à toa, conduziu a empresa durante o processo de aquisição feito pelo grupo austríaco ams e, com a confiança da matriz, assume o desafio de liderar as operações na Península Ibérica.

“Estou assumindo uma filial voltada basicamente para o mercado automotivo. É uma estrutura um pouco menor, focada em um dos segmentos em que a empresa atua. Temos outra vertente em Portugal com foco em semicondutores, mas que atua como uma operação independente”, frisou o executivo.


LEIA MAIS:

– O que 6 países podem ensinar ao Brasil sobre incentivos à indústria de autopeças
– Para Sindipeças, setor de autopeças está preparado para atender demandas locais das montadoras


“Certamente, será uma grande oportunidade para aprender um pouco mais sobre como esses mercados, mais maduros que o sul-americano, se comportam. Principalmente em reposição e montadoras, que estão, como sabemos, um passo à frente”, completou.

Leptich crê que há a possibilidade de um intercâmbio de “boas práticas”, que poderão ser implementadas tanto no Brasil quanto nos países europeus. No entanto, ressaltou que as chances de se copiar uma fórmula que funcione em uma outra região são ínfimas.

“Replicar a estratégia do Brasil para outros países, até mesmo da América do Sul, não funciona muito bem em nosso setor. Comportamento do consumidor, estruturação do mercado de reposição e outros fatores em todas as camadas de distribuição são diferentes. As estratégias acabam sendo customizadas, mas isso não impede que façamos pilotos a fim de saber se teremos aderência ou não”, disse Leptich.

ams Osram quer crescer ainda mais no Brasil

Em vez de se mudar para a Europa, o executivo tocará as operações da Península Ibérica remotamente, daqui do Brasil. Terá, evidentemente, de viajar para a região com maior frequência, especialmente no início da gestão. Contudo, em decisão tomada em conjunto com a matriz, optou por tocar os negócios do nosso país.

“Foi algo muito pensado, estudado. Essa estruturação ocorre porque hoje, como disse, temos um modelo híbrido e mais moderno. Lá atrás, seria difícil ver alguém responsável por uma área na Europa vivendo no Brasil. O modelo torna isso possível”, comentou Ricardo Leptich. 

“Tenho um time muito maduro na Península Ibérica. Em Portugal, tenho pessoas com mais de 20 anos de empresa. Na Espanha temos uma equipe mais mista, porém muito comprometida. Por isso também é possível manter a atuação remota”, complementou.

Além disso, o executivo remonta à questão de maturidade dos mercados. Tanto ele quanto a matriz enxergaram a necessidade de sua permanência no Brasil justamente para desenvolver a estrutura na região.

“Brasil, e a América do Sul como um todo, têm muito mais complexidades. Aqui no Brasil, por exemplo, temos um depósito local. Fazemos toda a parte de importação, gestão de estoque, alcance, para atender o país inteiro. E eu tenho a operação logística junto. Na Argentina o modelo é similar. Portugal e Espanha não têm operação logística. Basicamente tenho filiais, onde tenho o staff comercial, mas toda a mercadoria segue diretamente da Alemanha para os países. Ou seja, são operações mais simples em mercados mais maduros”, ressaltou Leptich.

O executivo pretende seguir desenhando a fórmula para o mercado brasileiro e sul-americano, enquanto os países ibéricos já têm, segundo ele, estratégias muito bem delineadas. “Temos muito espaço para melhorar aqui no nosso continente. Embora tenhamos crescido dois dígitos nos últimos anos, temos muita coisa a fazer”, disparou.

Vale ressaltar que, em nossa região, a oms Osram não atua com todas as suas unidades de negócio. O foco fica nas montadoras de veículos e no mercado de reposição, além da comercialização de produtos para a seara cinematográfica. Todavia, de acordo com Ricardo Leptich, os braços automotivo e de reposição representam 75% a 80% do faturamento da empresa no Brasil.

“A performance aqui no país vem sendo excepcional”, celebrou Leptich. “Temos números extremamente positivos no acumulado. Surpreendentemente, no mercado OEM faturamos 45% a mais em julho deste ano que no mesmo período do ano passado”, destacou.

“A Osram fornece para todas as montadoras no Brasil, sem exceção. Nós somos líderes de mercado no segmento, com uma participação por volta de 60%. Em reposição também temos share relevante, e aí atuamos com distribuidores de autopeças, os grandes atacadistas que atendem os auto elétricos, centro automotivos, mecânicas e o mercado de forma geral”, explicou o CEO da companhia de origem austro-alemã.


VEJA MAIS:

– Por que o setor de autopeças depende da reindustrialização do Brasil?
– Eletrificação impacta setor de autopeças e força reinvenção nas empresas


Leptich disse ainda que tamanha folga na liderança do mercado OEM se dá por conta da ausência da GE, outro grande player da seara de iluminação automotiva que deixou o segmento por conta de problemas referentes ao conflito Ucrânia-Rússia. “Esse competidor ficou sem condições de fornecer produtos no mercado global, fechou cinco fábricas, e nós ocupamos este espaço. Algo similar ocorreu em reposição, onde a GE também tinha presença”.

A ams Osram divulga números por região, e a América do Sul compõe uma delas com a América do Norte compõem uma delas. No primeiro semestre deste ano, as Américas tiveram receita de € 260 milhões em iluminação e outros sistemas, acima de EMEA (Europa, Oriente Médio e África) e Ásia/ Pacífico.

Todavia, quando falamos de semicondutores, a maior fonte de receitas da ams Osram, a região fica em terceiro plano. Mesmo assim, é importantíssima para a estratégia da companhia. Por isso se faz necessário CEO capaz, que tenha conhecimento dos mercados e, além disso, anos de casa. Ricardo Leptich preenche todas as lacunas. É, como mencionamos, uma raridade. Um unicórnio.