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De saída da Fenabrave, Assumpção Jr revela como viveu os piores anos do setor automotivo

Representante foi presidente da entidade por sete anos e será sucedido em janeiro por Andretta Junior
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Bruno de Oliveira

22 dez 2021

5 minutos de leitura

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Alarico Assumpção Junior deixará de ser o presidente da Fenabrave a partir de janeiro, cargo representativo que ocupou nos últimos sete anos. Parte agora para a tranquilidade do lar em Uberlândia (MG), e para os negócios da família no ramo automotivo, na região. A Automotive Business, falou sobre passado, futuro da entidade sob o comando de Andretta Jr e, também, traçou um resumo da sua gestão: “Enfrentei os piores anos da história do setor”.

O atual presidente da Fenabrave chegou ao número 1967 da Avenida Indianópolis, em São Paulo (SP), há treze anos, como um dos vice-presidentes que compõem a estrutura da federação que representa os interesses dos concessionários no País. Ele alega que o período foi marcado por aprendizado com os presidentes da época, sem citar nomes, o que acabou lhe servindo de base para assumir em 2014 a cadeira máxima da entidade.

“Trago desta época a valorização do diálogo. Nunca precisei abrir uma porta com os pés, sempre com as mãos, para negociar algo de interesse para o setor”, disse Alarico à reportagem na terça-feira , 21. E o expediente da negociação foi algo que requisitou muitas horas do representante ao longo dos últimos anos, considerando eventos importantes no período como a queda dos volumes de vendas de caminhões em 2015-2016, o crescimento das vendas diretas feitas pelas fabricantes de veículos a grandes frotistas, a criação do Rota 2030, conjunto de regras para o setor automotivo, e, mais grave, a pandemia de covid-19, que fechou as concessionárias.

“No caso da crise das vendas, o maior problema que enfrentamos no período foi o de manter os pontos de rede abertos com o auxílio das montadoras. Do dia para a noite perdemos mais de 1,7 mil concessionárias junto de 70 mil empregos”, foi um período muito difícil, de muita transformação dentro do segmento”, contou o representante da Fenabrave.

Neste caso específico, ele alega que o quadro poderia ter sido pior não fossem as conversas mantidas com as montadoras, que estenderam suas mãos – e seus cofres – para salvar alguns grupos econômicos da falência. De acordo com os dados da Anfavea, as vendas de caminhões vinham caindo gradualmente desde 2012, quando somaram 139 mil unidades. Em 2015 o volume caiu para 71 mil unidades. Em 2016, 50,5 mil unidades.

“Nos anos seguintes, com um PIB um pouco maior, e com a chegada da DAF, por exemplo, conseguimos recuperar parte dos números que perdemos no setor em termos de concessionárias e empregos. Mas afora o contexto econômico, o diálogo conduzido pela nossa entidade, na minha visão, foi determinante para que o cenário não fosse outro ainda pior”, conta Alarico.

O que fazer quando as vendas não passam pelas concessionárias?

Já no caso das vendas diretas, que também foi um dos tópicos que movimentaram os debates entre concessionárias e montadoras nos últimos anos, ele disse que sua gestão ficou marcada pela luta por isonomia, uma vez que considera díspares as relações comerciais que as fabricantes mantêm com concessionárias e locadoras de veículos, grupos que, em alguns pontos, passaram a rivalizar as vendas de veículos no País.

As vendas feitas diretamente pelas montadoras a frotistas, como locadoras, ganharam força a partir de 2018, conquistando mais importância dentro no mix de licenciamentos: de 20% de participação a modalidade alcançou recorde histórico de quase 50% do total emplacado no país. Neste período, não foram poucas as vezes em que Alarico veio a público, por meio da tradicional coletiva mensal de resultados, alertar que o patamar estava se elevando e não envolvia mais apenas vendas para taxistas e pessoas com deficiência (PcD), e que o quadro era nocivo ao negócio das concessionárias.

“Eu não inventei a venda direta, eu a herdei. Acho que o governo deveria pensar um pouco diferente a respeito deste assunto. Não podemos ter um preço diferenciado, fomos nomeados como representantes oficiais das montadoras. Teria ficado muito contente se tivesse melhorado este ambiente dentro do setor”, reconhece Alarico.

O impacto da pandemia

Na sequência dos acontecimentos mais marcantes da sua gestão está a pandemia de coronavírus e seus reflexos na distribuição de veículos no Brasil. Em função das necessárias medidas sanitárias adotadas para conter naquele momento o avanço do vírus, as concessionárias tiveram de fechar parcialmente suas portas, o que afetou sobremaneira as vendas a partir de março de 2020.

“Mais uma vez nos deparamos com uma situação de diálogo com as montadoras e com o governo no sentido de manter a liquidez dos grupos concessionários no momento mais grave da pandemia, quando apenas podíamos oferecer serviço de pós-venda na maioria dos municípios. Sobre este período acredito que fizemos tudo aquilo que estava ao nosso alcance enquanto Fenabrave”, disse Alarico.

Dentre as medidas tomadas pela entidade, de acordo com o presidente em final de exercício, estão os incentivos e treinamentos a respeito das vendas digitais. O assunto, inclusive, é mencionado por ele como o principal desafio da nova gestão a partir do ano que vem. “O mundo digital irá nortear a próxima gestão, que deverá assumir um setor em transformação rumo ao digital. A concessionária não vai sumir, mas sofrerá modificações.”

Outros desafios antevistos por ele são as novas modalidades de uso do veículo, como as assinaturas, e o ano eleitoral que, por si só, impõe uma série de tensões no mercado de veículos: “O novo concessionário terá de ser mais atento às oportunidades de serviços, e acho que isso será muito gerido pela nova equipe da Fenabrave, que assume o posto em um ano bastante complicado”.

Alarico Assumpção Junior deixa a presidência, mas segue na entidade por mais três anos no conselho da Fenacodiv, braço que representa sindicalmente o setor da distribuição de veículos. “Agora terei tempo de buscar meus netos na escola”, finaliza.