
Natalia Gómez
O baixo nível de competitividade da indústria brasileira tem sido tratado de forma equivocada pelo governo e pelos empresários brasileiros: a questão vai muito além da valorização do real e tem origens mais profundas. O alerta foi feito por Letícia Costa (foto), sócia-diretora da Prada Consultoria, durante o III Fórum da Indústria Automobilística, realizado nesta segunda-feira, 9, por Automotive Business no Golden Hall do WTC, em São Paulo.
“A discussão tem sido centrada em fatores exógenos como a taxa de câmbio, mas isto não é suficiente para explicar 30 anos de queda de produtividade”, disse. Com custo relativo de produção 60% superior ao chinês e também maior que o de outros países emergentes, o País padece com a baixa produtividade do trabalhador brasileiro. Em 1980, o PIB por trabalhador era de US$ 21 mil por ano, mas caiu para US$ 17,8 mil por ano em 2008.
As verdadeiras causas dessa baixa competitividade são a questão tributária, a infraestrutura e o baixo nível de educação no País. De acordo com Letícia, o governo tem tratado a questão com paliativos e não com estratégias de competitividade. Os gastos excessivos do governo e a dificuldade de executar investimentos são outros pontos críticos. “O custeio do governo não para de crescer.”
O Diretor da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Clayton Campanhola, afirmou durante o fórum que o governo quer fazer mudanças estruturais que deem “rumo estratégico” para a indústria brasileira. “Isso não se faz por meio de medidas emergenciais, temos consciência disso, embora seja importante para ajudar a indústria a enfrentar os desafios de curto prazo”, afirmou.
Ele destacou que o novo regime automotivo dará redução adicional de até 2 pontos porcentuais no Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para empresas que cumprirem metas de investimento em pesquisa e desenvolvimento e engenharia, o que deve fortalecer a competitividade da indústria nacional.
De acordo com Campanhola, o governo tem diretrizes estratégicas para o setor automotivo, como o fortalecimento da cadeia de autopeças, o aumento das exportações de veículos e componentes, além do aumento da inovação, do conteúdo local tecnológico, da segurança e da eficiência energética dos veículos produzidos no Brasil. Outras prioridades são o aumento da capacidade produtiva e a formação e qualificação de mão de obra.
O vice-presidente da Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Moan Yabiku, concordou com a crítica de Letícia Costa sobre a falta de competitividade, mas disse que não se deve subestimar a relevância da questão cambial. Ele destacou ainda que muitas empresas brasileiras têm o DNA da inovação e deu como exemplo o desenvolvimento do sistema flex, que é único no mundo.
Em sua visão, o novo regime automotivo ajudará o setor na busca pela competitividade, o que será especialmente benéfico para o segmento de autopeças. “Não existe montadora forte se não houver uma indústria de autopeças forte”, declarou Yabiku.