A entrada dos automóveis chineses no mercado nacional, marcada sobretudo por anúncios de investimentos em fábricas da JAC Motors e da Chery no Brasil que começam a operar em 2013, ampliou a oferta de modelos disponíveis aos consumidores brasileiros, mas com um diferencial que sempre pautou as aquisições de automóveis no País: a relação preço/benefício.
Apesar da paixão do brasileiro por carros, o poder aquisitivo ainda dita as escolhas feitas nas concessionárias. Diante dessas novas opções, a primeira diferença percebida foi no bolso (ou nas parcelas das prestações do financiamento). Nos veículos chineses, especialmente nos modelos populares, há itens de série até então exclusivos no mercado local para quem se dispunha pagar mais por benefícios como freios com ABS, airbags, ar-condicionado, direção hidráulica, sistemas de áudio, trava central, vidros elétricos, entre outros.
Essa oferta de conteúdo maior por preço menor acontece no momento em que a ascensão da classe média sustenta crescimento recorde de vendas de carros no mercado brasileiro, em especial no último ano. É neste mercado que as montadoras asiáticas estão de olho e, diante das oportunidades, têm se movimentado para conseguir competitividade no Brasil.
Os modelos das principais montadoras em operação na China, e que começaram a ser vendidos no País nos últimos anos, aos poucos vão perdendo o estigma de falta de qualidade. Hoje grande parte dos automóveis é equipada pelas mesmas fornecedoras de componentes globais das tradicionais montadoras ocidentais.
A tendência, portanto, é que o consumidor do veículo popular escolha um carro melhor e mais sofisticado, pois ele já pode pagar por isso. Essa conjuntura começa a influenciar as expectativas desses novos consumidores, que passam a mudar a percepção que têm dos carros brasileiros. E o que o consumidor passará a exigir? Veículos com mais conteúdo embarcado, sem ter de pagar muito mais por isso.
Nesse contexto, com custos produtivos bem menores, a produção dos carros chineses se posiciona de forma desigual ante os nacionais – e esta não é uma discussão que começa a tomar forma agora, apenas se torna mais evidente. Ao discutir a competitividade da cadeia automotiva nacional e a desigualdade em comparação com a Ásia e outras regiões produtivas, um dos pontos cruciais que precisam ser analisados são as questões cambiais. Com o real valorizado, temos o primeiro impasse. Mas este não é o único aspecto conjuntural a ser considerado diante desse novo paradigma: a ineficiência tributária e fiscal, associada a uma infraestrutura deficiente, são questões que precisam ser revistas. Os encargos sociais e a escassez de mão de obra qualificada são outros fatores que pesam nesse cenário.
A soma dessa equação resulta em altos custos ao longo do processo produtivo brasileiro. A falta de competitividade da produção automotiva nacional chega a elevar duas vezes o preço final de um automóvel quando comparado aos comercializados na China.
De qualquer forma, já dispomos de tecnologias capazes de abrir espaço para essa batalha competitiva. A própria evolução da indústria automotiva nacional já sinalizou o potencial do segmento, com a reação ao início das importações nos anos 90. Empresas globais em atuação no País apresentam um padrão tecnológico de ponta, não só no que diz respeito a equipamentos e inovação tecnológica, mas nos processos produtivos em si. Essa é uma questão de sobrevivência.
Ainda não existe uma definição certa sobre qual caminho deve ser trilhado, mas é preciso buscar alternativas para nos situarmos diante de uma nova via. Há necessidade de a cadeia produtiva começar a estabelecer um diálogo para esboçar esse novo caminho.
O mercado nacional já dispõe de novas tecnologias, capazes de proporcionar mais conforto, personalização e benefícios ao motorista. O desafio é como oferecer tudo isso sem que o consumidor tenha que pagar muito mais.
* Alfeu Doria é diretor geral das operações Brasil e do Grupo de Interiores Visteon América do Sul