logo

dia bruxas carros

Dia das Bruxas: por que os carros elétricos aterrorizam as montadoras?

Os carros elétricos são uma realidade em todo o mundo, mas o panorama de hoje já não é o mesmo de alguns anos atrás. Em 2022, as montadoras investiam valores vultosos para expandir sua oferta de modelos elétricos, os governos apostavam bilhões em redes de recarga e havia previsões ultraotimistas sobre o mercado de wallboxes domésticos.
Author image

victor

31 out 2024

7 minutos de leitura

CarrosEletricosAterrorizamMontadoras.jpg

Corta para dois anos depois e as coisas não estão tão bem, com um aparente desaquecimento do mercado. Além de várias companhias reportando aumentos menores do que o previsto nas vendas, muitas fabricantes estão assustadas com a mudança no segmento e reveem suas projeções de lucro.


SAIBA MAIS:
– Empresas vivem realidades diferentes no mercado de veículos elétricos
– Vendas de carros elétricos na Europa atingem o menor nível em três anos


A situação não é de todo ruim. Em 2023, segundo a Fenabrave, os emplacamentos de elétricos no Brasil cresceram 91% em relação a 2022, com 93.927 unidades. O número representa cerca de 5% do total de vendas no país. E a International Energy Agency ainda acredita que as vendas globais em 2025 vão dobrar em relação a 2023, pulando de 1,1 milhão para 2,5 milhões.

Ainda assim, a empolgação diminuiu bastante. E é fato que o assunto já apavora montadoras tradicionais. No Dia das Bruxas, explicamos o 7 motivos que fazem os veículos elétricos (VEs) aterrorizarem a indústria. 

1. Desinteresse pós-early adopters

As pessoas que tinham interesse em elétricos por motivos socioambientais já compraram seus veículos. Agora, é preciso convencer o consumidor comum, que ainda não vê vantagem em comprar um carro mais caro que a média e que tem a inconveniência de não poder ser carregado em qualquer posto. 

Ivan Drury, diretor de insights da consultoria Edmunds, afirma que existe um “ceticismo” desse tipo de consumidor ligado a vários fatores, como pouca infraestrutura de recarga, vida útil da bateria e custo de seguro. 

 2. Competição chinesa

Em 2011, quando perguntado em uma entrevista ao vivo sobre a competição chinesa no mercado de elétricos, Elon Musk deu risada. “Você já viu os carros deles? Não dá para enxergá-los como competidores. Não acho que eles tenham um bom produto”, declarou.

Pois bem, em 2024 as vendas da Tesla caíram e quem é que está ganhando mercado? Isso mesmo, a China, de onde vêm 60% dos VEs vendidos mundialmente. A China é também o país da BYD, a maior fabricante de elétricos do mundo.

Por meio de subsídios fortes ao setor (só para a BYD, foram US$ 3,7 bilhões este ano), o governo chinês permite que suas montadoras sejam competitivas no quesito mais importante para o consumidor: preço. De fato, no Brasil, um Nissan Leaf (R$ 235 mil) ou um Chevrolet Bolt (R$ 280 mil) não conseguem competir com um BYD Dolphin Mini (R$ 115 mil).

Para lutar contra a onda chinesa, a União Europeia (UE) acaba de aumentar o imposto sobre os carros elétricos vindos da China. E os EUA quadruplicaram este ano (de 25% para 100%) as tarifas de importação sobre os VEs chineses importados.

“A capacidade da China distorce os preços globais e os padrões de produção e ferem as empresas e trabalhadores americanos, assim como empresas e trabalhadores de todo o mundo”, declarou, em março, a Secretária do Tesouro dos EUA, Janet Yellen.

3. Custo das baterias

A União Europeia deseja ter pelo menos 30 milhões de carros elétricos nas ruas até 2030, ou 12% da frota. Mas produzir baterias é caro demais (uma bateria custa € 15 mil para ser produzida na Europa), o que significa que, para atingir a meta de descarbonização, será preciso importar baterias da China, responsável por 76% da produção mundial. E aí, entra-se num conflito: como atingir essa meta sem prejudicar a indústria local? 

Além disso, a produção de baterias envolve outros problemas, como a escassez de matérias-primas (metais de terras raras). Cada pacote de bateria da nova geração do Toyota Prius (híbrido plug-in), por exemplo, usa de 10 kg a 15 kg de lantânio em seu banco de baterias com 13,6 kWh de capacidade. 

4. Quedas nas vendas

Nos EUA, as vendas de elétricos subiram apenas 7% no primeiro semestre deste ano – em 2023, no mesmo período, haviam subido 46%. Montadoras como General Motors, Kia, Stellantis e, principalmente, Tesla, reportaram queda nas vendas. A Ford cancelou seu SUV elétrico e tomou prejuízo de US$ 400 milhões.

É uma tendência generalizada e a causa vem de múltiplos fatores, como a alta da inflação em vários mercados e as altas taxas de juros. Até porque a boa performance dos elétricos até aqui não teve a ver só com demanda, mas também com os altos subsídios oferecidos por alguns governos (como o norte-americano) para fomentar essa indústria.

Apesar disso, o consenso entre especialistas é que essa queda é temporária. Os resultados do segundo trimestre nos EUA já demonstram isso: recorde de mais de 320 mil unidades vendidas, 11% a mais que no mesmo período de 2023. 

“Ainda estamos vendo aumento na demanda, só não no mesmo ritmo para todas as marcas”, diagnosticou a chefe de insights para a indústria da Cox Automotive, Stephanie Valdez-Streaty.

5. Dependência de fornecedores estrangeiros

A falta de peças para os carros elétricos se tornou um problema. “Atualmente, tudo é importado, e a falta de peças é uma das três principais preocupações do brasileiro em relação aos elétricos. Ninguém quer ficar dois ou três meses com o carro parado esperando manutenção”, afirmou ao jornal “O Globo” Cristiano Doria, sócio da consultoria Roland Berger. Segundo reportagem do jornal, a reposição de peças fora de estoque demora entre 10 e 15 dias.

Um estudo feito pela empresa mostra que estas são as principais preocupações dos brasileiros em relação aos carros elétricos:

  • Oferta de baterias e componentes (54%)
  • Garantia de fornecimento de energia limpa (42%)
  • Localização de fornecedores e peças (38%)
  • Oferta de insumos e matérias-primas (27%)
  • Segurança jurídica e regulamentação de serviços (19%)

6. Falta de infraestrutura de recarga

O mesmo estudo citado anteriormente apresenta que 78% dos brasileiros consideram a falta de infraestrutura de recarga o “problema mais urgente” relacionado aos elétricos. Em abril, a startup Tupinambá Energia, em parceria com a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), estimou em 4.300 o número de estações de recarga no Brasil. Já em outubro, a CNN apontou que esse número estava em 10 mil.

Como muitos prédios e condomínios residenciais no Brasil ainda não oferecem pontos de recarga (e essa evolução anda a passos lentíssimos), os donos de carros elétricos precisam recorrer a shoppings, supermercados e afins. Nesses lugares, enfrentam filas e equipamentos inoperantes.

No Brasil, esse problema ainda é diretamente afetado pela falta de políticas públicas que incentivem a instalação dos carregadores em espaços públicos. Se os consumidores forem esperar a boa vontade das empresas, a rede pode demorar décadas para se tornar realmente adequada.

A falta de estações se soma a outros problemas: concentração de pontos no Sul e Sudeste, cobrança pelo serviço (que antes era gratuito), equipamentos quebrados ou vandalizados e profissionais sem qualificação para o atendimento aos consumidores.

7. As locadoras perderam interesse

Neste ano, foi notícia a desistência da Hertz, uma das maiores locadoras de veículos do país, em adquirir 100 mil carros da Tesla. O motivo: a rápida desvalorização dos seminovos.

Esse caso escancarou uma crise que vai muito além dos EUA. Para as locadoras, a revenda dos veículos após alguns anos de uso faz parte do negócio: se o carro dá prejuízo ao ser vendido, não vale comprar mais modelos iguais.

Os motivos para essa desvalorização são vários, como as já citadas falta de peças de reposição e falta de infraestrutura. Mas também há o despreparo dos consumidores para dirigir carros elétricos (que aceleram mais rapidamente que os a combustível, levando a mais sinistros e mais custos com seguro).

Por aqui, as locadoras brasileiras têm 4,3 mil elétricos e 6,8 mil híbridos em suas frotas, segundo dados da Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis (Abla). Segundo Paulo Junior, vice-presidente da entidade, as primeiras unidades de elétricos adquiridas pelo setor, há cerca de três anos, tiveram de ser vendidas por preços até 45% abaixo do mercado.

Com essa depreciação, as locadoras ficam desestimuladas a aumentar a quantidade de elétricos em sua frota, o que diminui o número de brasileiros tendo acesso à nova tecnologia e, possivelmente, se interessando por ela.