
A quarta-feira, 3, é o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência e a inclusão dessas pessoas na indústria automotiva ainda é um desafio: apenas 3% do quadro de trabalhadores do setor tem alguma deficiência. As empresas, contudo, se engajam para tentar mudar essa realidade.
Segundo a pesquisa Diversidade no Setor Automotivo 2025, realizada por Automotive Business, em parceria com a MHD Consultoria, as empresas estão mais maduras em diversidade, com metas, ações e programas consolidados.
Os dados mostram que 52% das empresas do setor tem programas estruturados no eixo de pessoas com deficiência (PcDs), enquanto 33% tem metas definidas para aumentar a participação.
Amparado pela Lei de Cotas (Lei 8213/1991), PcDs é o segundo eixo que mais recebe atenção do setor automotivo, atrás do eixo de gênero.
Falta conscientização para incluir mais pessoas com deficiência
Para Cris Kerr, CEO da consultoria CKZ Diversidade, ainda falta conscientização do setor. “O que eu percebo é que ainda as empresas estão fazendo pela obrigação da cota, não é por aquele motivo que eu quero trazer pessoas com deficiência porque eu entendo que isso vai gerar algo positivo, mas muito mais realmente porque eu tenho uma cota legal e eu preciso cumprir essa cota”, disse a consultora.
Por causa disso, as empresas têm dificuldade em lidar com o colaborador PcD e não conseguem desenvolver aquele talento sem dar a acessibilidade que ele precisa. O resultado disso é o fato das pessoas com deficiência ocuparem mais cargos de entrada, e apenas 3% em posições de liderança.
A solução, afirma Cris Kerr, é a união de três coisas: promover a conscientização geral, ter um plano de carreira para atração e desenvolvimento de talentos PcDs, e trabalhar o tema com as lideranças, principalmente gestores que têm contato direto com esse grupo.
Ela afirma também que é essencial perguntar ao colaborador como tornar aquele ambiente ou tarefa mais acessível para ele poder realizá-la.
“Mas o mais importante é o diálogo, é entender o que que é importante pra aquela pessoa. Não ter os nossos pressupostos do que vai ser melhor, mas aprender a dialogar com as pessoas com deficiência”, disse Cris. “Se ela precisa de um software, como é que é melhor pra ela? Sem decidir por ela, deixar que a pessoa com deficiência diga o que ela precisa para ter mais acessibilidade.”
VWCO abre portas para trabalho e estudo de pessoas com deficiência
Apesar dos desafios, o setor automotivo tem avançado no tema e conta com bons exemplos de programas estruturados para inclusão e desenvolvimento de pessoas com deficiência.
Um deles é o programa Novos Horizontes, da Volkswagen Caminhões e Ônibus (VWCO). É um programa afirmativo que contrata talentos PcDs e subsidia sua formação universitária, além de desenvolver diferentes capacidades e soft skills.
Em 13 anos, o programa formou 80 pessoas com diferentes tipos de deficiência, física, auditiva ou visual, e neurodivergentes, como autistas e deficiência intelectual.
Os cursos subsidiados são atrelados às áreas de negócios da VWCO, como engenharia, administração, ciências contábeis, áreas de humanas e correlatas.
Enquanto cursa a faculdade, a pessoa é contratada para um cargo de assistente e participa de todos os programas da empresa, um programa de formação interna, acompanhamento interno, e também desenvolvimento na área de trabalho.
Atualmente, a VWCO tem cerca de 100 colaboradores com deficiência, o que representa 6,4% da empresa, e o objetivo é chegar em 9% até 2029.
“Identificamos oportunidades pra que a gente possa direcionar esse colaborador pra uma área que ele possa desempenhar as suas atividades, explicou Letícia Santos, supervisora de Pessoas e Cultura e Sustentabilidade da VWCO. “Essa é uma iniciativa que visa contribuir para a formação deste profissional em muitas áreas, a gente contribui para o desenvolvimento, a formação e a continuidade da carreira da Volkswagen.”
O programa conta também com formação de desenvolvimento de competências e softskills. “O profissional dentro da sua área de atuação, ele também terá uma grande fonte de desenvolvimento e aprendizado, porém, uma parte importante também é que ele participa de todo o programa de avaliação de desempenho, as avaliações do ciclo de avaliação de performance, carreira e trilhas de desenvolvimento.”
Valeo inclui colaboradores surdos com tradução em LIBRAS
Outro bom exemplo é a Valeo. Desde 2005 a empresa tem uma intérprete de Libras (Linguagem Brasileira de Sinais) que trabalha todos os dias presente em reuniões, treinamentos, eventos internos e apoiando a comunicação das equipes. A tradução quebra barreiras de comunicação para pessoas surdas e permite a inclusão no cotidiano da empresa.
Para a Valeo, os resultados da iniciativa incluem maior clareza operacional, participação ampliada em treinamentos, integração mais ágil com lideranças e uma redução expressiva de ruídos na comunicação interna.
O principal desafio agora está na escalabilidade: ampliar a preparação das lideranças para equipes cada vez mais diversas e garantir que a estrutura interna acompanhe novas demandas de inclusão.
Conheça outros programas para pessoas com deficiência
Cummins: tem uma iniciativa parecida de tradução em Libras mas que funciona online através de um QR Code para ajudar pessoas surdas na participação de reuniões e eventos. O projeto foi implementado em 2023, e em 18 meses de uso teve aumento de 250% no uso da plataforma.
Phinia: emprega 45 pessoas surdas na sua planta em Piracicaba (SP). Para garantir a comunicação e integração deles à equipe, a empresa oferece um curso de Libras, que é obrigatório para profissionais que têm contato direto com pessoas com deficiência no dia a dia, como líderes da linha de produção, RH, ambulatório médico, e segurança, mas é opcional para os demais funcionários.
Além disso, a Phinia tem cursos e palestras técnicas para a formação de mecânicos surdos. Já participaram 250 pessoas presencialmente, além dos participantes online.