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Dólar em queda, concorrência e margens menores baixam preços dos carros

Redução nos valores não se apoia só no câmbio e beneficia veículos elétricos e outros modelos importados e nacionais
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Mario Curcio

21 jul 2023

4 minutos de leitura

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A queda na cotação do dólar em cerca de 10% desde o início do ano, a pressão da concorrência e a diminuição nas margens de lucro já permitiram reduções de preço nos automóveis. E não estamos falando apenas do pacote de incentivos do governo à venda de carros de até R$ 120 mil. O recuo foi notado, por exemplo, em modelos elétricos a partir do lançamento do BYD Dolphin no fim de junho por R$ 149.800.

O estreante provocou uma resposta rápida da JAC Motors, que baixou os preços do seu pequeno E-JS1. A versão mais acessível do modelo custava R$ 145.900 e passou para R$ 139.900. A Caoa Chery também reduziu o valor de seu elétrico iCar, de R$ 149.990 para R$ 139.990. O modelo é importado da China, mas a montadora diminuiu ainda os valores dos carros montados em Anápolis (GO) em até 11,1%.

BYD Dolphin mexeu na concorrência, mas ninguém admite

A direção da JAC Motors admite apenas que a moderação do preço foi consequência da redução do dólar e de renegociações com a matriz, mas fontes confirmam que a pressão criada pelo Dolphin puxou mesmo os preços do E-JS1 para baixo.

A Caoa Chery também nega a influência do Dolphin e atribui o movimento apenas à queda do dólar: “É importante reforçar que esta ação [redução dos preços] não tem relação com a chegada de novos concorrentes, uma vez que a Caoa Chery tem estratégia própria para atuar no mercado”, informa a companhia. “A marca reduziu os valores de tabela, repassando para o cliente as vantagens proporcionadas pela melhoria do ambiente econômico do país, notadamente com a valorização do real ante o dólar, o que reduz os custos de importação da indústria”, informa a empresa. Mas o que se vê na prática é que o iCar tinha preço ligeiramente maior que o Dolphin e custa agora quase R$ 10 mil a menos que o novo BYD.


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Para Cássio Pagliarini, sócio da Bright Consulting, os motivos para as reduções de preço não estão apenas na valorização do real. “A história é mais ampla que apenas o dólar. Muitas vezes, quem importa põe os preços no alto, com a margem [de lucro] cheia. A insegurança gerada pelo período da pandemia, por exemplo, impôs baixos volumes com margens altas”, afirma.

“A própria BYD trouxe carros na faixa dos R$ 500 mil. O que se pode ver neste momento é a redução nas margens e as empresas buscando produtos mais simples lá fora”, afirma o consultor.

A exemplo do BYD Dolphin, a concorrente GWM também terá um modelo na faixa dos R$ 150 mil, o Ora GT.

Essa redução nas margens citada por Pagliarini também explica os novos preços divulgados pela Caoa Hyundai para as versões do SUV Kona, uma vez que a valorização do real sozinha não permitiria quedas até quase 25% como as que ocorreram para o importado sul-coreano.

No início do ano, a empresa havia definido R$ 209.990 para o Kona híbrido e desanimadores R$ 289.990 para a opção elétrica do importado. No começo de julho, porém, em apresentação à imprensa, o Kona híbrido baixou para R$ 169.990 (-19%) e o elétrico, para R$ 219.990 (-24%).

Dólar e produção local podem puxar preço do carro para baixo

Já se pode esperar um efeito positivo da valorização do real nas linhas de montagem, mas com algum atraso. Segundo Milad Kalume Neto, diretor de desenvolvimento de negócios da consultoria Jato do Brasil, os reflexos da queda do dólar ocorrem em prazo mais longo, já que os insumos tiveram seus processos de compra realizados com a moeda estrangeira ainda em alta.

“A tendência é termos custos de produção menores, pois grande parte de um veículo é vinculada à moeda estrangeira por se tratar de commodities [borracha, alumínio, aço] ou por ser importada [semicondutores, powertrain]. Para apoiar a queda nos custos de produção, taxas de juros menores e inflação controlada também têm de ser observadas, preferentemente em conjunto”, recorda Kalume Neto.

Recentemente, a Citroën divulgou novos preços para o C4 Cactus. A linha 2024 teve reduções entre 1,8% e 15,3%. O menor desconto ocorreu para a versão de entrada, Live 1.6 automática, agora por R$ 106.990 (R$ 2 mil a menos). Já a intermediária Feel automática recuou de R$ 130.990 para R$ 110.990.


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A Citroën não comentou os motivos para redução. Disse apenas que se trata de “uma estratégia comercial embasada em diferentes fatores”. A marca faz parte do Grupo Stellantis, que produz outros modelos nessa faixa de preço, como Peugeot 2008 e Fiat Pulse, todos fabricados no Brasil como o C4 Cactus. O Peugeot 2008 é feito na mesma fábrica que o C4 Cactus (em Porto Real, RJ).

Considerando os argumentos de Kalume Neto, os novos preços do Citroën teriam mais a ver com o posicionamento do modelo ante a concorrência, mas é provável que a valorização do real também tenha encorajado a empresa a reduzir os valores sugeridos para o C4 Cactus.