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Economia deteriora e pode estragar festa no camarote automotivo

Quadro político-econômico embaça luz no fim do túnel e deve limitar vendas de veículos
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Pedro Kutney

23 set 2021

7 minutos de leitura

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A festa no camarote automotivo nacional, que começou a ficar quente já em 2020 com a súbita alta da demanda de festivos consumidores logo após o primeiro pico da pandemia de coronavírus no País, está restrita a convidados VIPs de um mercado cada vez mais concentrado na minúscula camada de alta renda da população. Por isso, ainda não foram sentidos nesse cercadinho os efeitos da desastrosa crise econômica em curso no Brasil. 

Abalada muito mais pela falta global de semicondutores do que pela pandemia ou crise econômica, a indústria ainda não deu conta de produzir o suficiente para atender todos os pedidos. Por este motivo as vendas de carros zero-quilômetro estão andando de lado, não há como crescer se faltam produtos para vender. Assim, até que o problema da escassez de chips seja resolvido e que toda a demanda represada seja atendida, ainda não se sabe qual é o impacto real do cenário político-econômico adverso sobre esse seleto mercado.

Mas poucos têm dúvidas que nem mesmo o cercadinho da alta renda nacional ficará totalmente imune aos efeitos da economia cada vez mais retraída. Em uma licença figurativa, por mais energéticos que tomem, os VIPs dessa celebração ao consumo pós-pandemia não terão fôlego para continuar festejando (e comprando) para sempre. Esses consumidores que vivem à margem da pobreza bruta nacional não formam contingente suficiente para sustentar um mercado de 2 milhões de veículos por ano, por mais que queiram muito gastar o seu dinheiro em automóveis cada vez mais caros. 

Lembrando ainda que a porta de entrada nessa “festa” pela via dos financiamentos também está ficando cara e afunilada, bem guardada pelo leão-de-chácara incorporado pelo Banco Central, que por falta de qualquer outra ferramenta mais eficiente, promove a alta dos juros para conter um tipo de inflação que não pode ser contida por eles – já que juros altos não combatem as principais causas da atual elevação dos preços, pois não calam a boca de políticos, nem recuperam a confiança de investidores (ao contrário, até pioram), portanto não freiam a desvalorização cambial, muito menos resolvem a crise energética que se avizinha, mas servem muito bem para aumentar o desemprego, frear investimentos produtivos e reduzir o consumo (especialmente dos mais pobres) e assim derrubar o PIB, como já começou a acontecer. 

Com isso, o crédito ao consumo que sempre foi caro no Brasil está encarecendo ainda mais (a taxa do CDC para compra de veículos novos já encosta em 25% ao ano), inibindo a compra de bens mais caros. Em nada ajuda o mais recente tapa-buraco fiscal do governo para criar um programa social eleitoreiro para 2022, que aumentou o imposto sobre operações financeiras (IOF) de 3% para 4,08% ao ano no caso de financiamentos de pessoas físicas e de 1,5% para 2,04% para as empresas. Como resultado da elevação da carga tributária, um financiamento de R$ 80 mil para comprar um carro, por exemplo, pode ficar cerca de R$ 3 mil mais caro em um plano de 24 parcelas, dependendo da taxa de juro aplicada.

Estagnação ou recessão à vista

A pergunta não é mais se, mas quando e quanto o prognóstico de estagnação ou recessão econômica vai atrasar a recuperação do mercado automotivo, ainda muito longe de seus melhores momentos de vendas anuais superiores a 3 milhões de unidades. No cenário de crise econômica, as empresas protegem seus caixas (como dizem os administradores, em tempos de retração, “o caixa é rei”). 

A tradução desse dogma para a indústria automobilística é a troca de volumes pela preservação da rentabilidade, o que está sendo feito já há alguns anos com produtos cada vez mais caros – no caso brasileiro, com o menor custo e maior preço possíveis, o que explica lançamentos de carros acima dos R$ 100 mil pobres em acabamento e ricos no valor de venda. É uma estratégia correta para o caixa, mas limita o crescimento de volumes no mercado brasileiro.

O fato é que a luz no fim do túnel acendida no início deste ano com a vacinação – ainda que tardia – contra a Covid-19 está sendo embaçada pela rápida deterioração do quadro político-econômico do País, que tende a frear a recuperação em todos os setores dos efeitos trágicos deixados pela pandemia de coronavírus. Em um cenário que piora a cada dia, parece que tudo conspira contra o crescimento, com indicadores e acontecimentos que se retroalimentam para o lado negativo, esvaindo as esperanças de que o avanço da imunização traria a economia de volta aos trilhos pela via da expansão dos empregos e aumento do consumo. 

Muitos fatores jogam contra essa expectativa, a começar pela inflação que foge do controle, corrói a renda e o poder de compra da população, obrigando o Banco Central a adotar política contracionista quando o País mais precisa crescer, com elevação de juros que torna o crédito mais caro, inibe consumo e investimentos, ao mesmo tempo em que aumenta o desemprego já em níveis estratosféricos. 

Indicadores econômicos assustadores

O IPCA, que mede a inflação ao consumidor, encosta nos 10% nos 12 meses terminados em agosto, tende fechar 2021 acima de 8% segundo as mais recentes estimativas do mercado expressada no Boletim Focus do Banco Central. Ainda assim, o índice nem assimilou todos os aumentos de preços no atacado, o IPA, que no mesmo intervalo subiu 36%, o que prenuncia mais reajustes. Os aumentos dos valores dos automóveis em um ano, próximos de 10% na média, comprovam que as altas nos custos de produção ainda não foram repassadas integralmente aos produtos.

O País já tem mais de 20 milhões de desempregados e desalentados (aqueles que desistem de procurar emprego), um nefasto recorde histórico. O contingente de subempregados também nunca foi tão alto, supera 33 milhões de pessoas ocupadas parcialmente, tentando sobreviver com remunerações baixas e instáveis. Isso significa que atualmente mais de um quarto da população brasileira consome pouco ou nada.

O desastre inflacionário autoriza o Banco Central a usar sua única (e pouco eficiente neste caso) ferramenta para tentar conter a inflação já fora de controle, com a volta da política de elevação juros, indicando ao mercado que a taxa básica (Selic) deve terminar 2021 na casa dos 8,25% ao ano, também segundo o mais recente Boletim Focus (já está em 6,25%, depois de ter descido a 2% no segundo semestre de 2020).

Ou seja, já está rodando o círculo vicioso de queda da renda e do consumo que coloca o País no rumo da estagnação econômica. A estimativa de crescimento do PIB de 5% este ano – se a situação não piorar ainda mais – é insuficiente para compensar a queda de 4,1% em 2020 e os resultados pífios acumulados desde a crise econômica de 2015. Para 2022, a expectativa baixa de expansão de 2% já caiu para 1,63%, na média das projeções do Focus. 

Parte importante da alta dos preços não pode ser contida pelos juros, pois está na expressiva desvalorização cambial de mais de 35% só este ano, que encarece commodities e insumos importados necessários à produção, retroalimentando a inflação. Exemplo mais concreto disso já está nas bombas de combustíveis, onde a gasolina encosta nos R$ 7,00 e o diesel passa de R$ 5,00, espalhando a inflação para toda a economia pelo encarecimento dos custos de transporte. 

A elevação da cotação do dólar para além dos R$ 5,30, no nível mais alto da história de quase três décadas do real, não se explica por fatores puramente econômicos internacionais, mas pela falta de confiança no País que causa retração de investimentos externos e faz exportadores deixarem seus dólares no exterior. Essa insegurança é exacerbada quase todos os dias pela instabilidade política alimentada pelos arroubos autoritários do próprio mandatário da República. 

Se o cenário econômico já era muito ruim, ficou pior com a crise hídrica subestimada pelo governo, causada pela pior seca dos últimos 91 anos, que provoca quebra de safras agrícolas – justamente o único setor que vai bem no Brasil – e reduz a capacidade de geração das usinas hidrelétricas, desembocando em crise energética, com consequente alta nos preços da energia (mais inflação!) e risco de apagões – que se de fato consumados têm potencial de jogar o País em recessão. 

A estimativa é que um quadro de falta ou racionamento de energia poderá tirar um ponto porcentual do PIB de 2022, ano de eleição presidencial, cujo crescimento estimado pelos analistas já é de apenas 1,63% no último Boletim Focus. Ou seja, a expansão, se acontecer, ficaria restrita a menos de 1%. É um cenário preocupante, assustador. Por certo nem mesmo os VIPs do camarote automotivo nacional vão conseguir continuar imunes ao desastre. 

* Este texto traz a opinião do autor e não reflete, necessariamente, o posicionamento editorial de Automotive Business