
A projeção da Anfavea de que o Brasil bateria um novo recorde nas exportações de veículos em 2018 foi definitivamente por água abaixo: os volumes tiveram nova queda com o fechamento de agosto. Dados da entidade divulgados na quinta-feira, 6, apontam que em oito meses os embarques diminuíram 4,6% na comparação com igual período do ano passado, para um total de 486,4 mil unidades. A queda foi maior do que o a retração de 3% verificada no acumulado até julho, o primeiro resultado negativo do ano.
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Com isso, a entidade vai rever mais uma vez sua projeção de exportações para o ano. No início de agosto, após constatar a primeira queda das exportações, a Anfavea havia revisado para baixo o volume total previsto para o ano.
“Acreditávamos que esse ano iria superar a meta com um novo recorde. No mês passado, revisamos a previsão e zeramos o índice de crescimento. Estamos reavaliando esse número e no próximo mês [outubro] faremos ajustes, com viés negativo para as exportações. Eu diria, é um movimento que não será positivo. A princípio, não vamos conseguir repetir o número do ano passado [recorde]”, disse o presidente da Anfavea, Antonio Megale.
CRISE ARGENTINA
O arrefecimento das exportações se deve em parte pelo efeito da crise na Argentina, cujo mercado também começa a sentir os primeiros impactos das medidas emergenciais anunciadas pelo governo do presidente argentino Maurício Macri. Embora a produção e as exportações de veículos do país vizinho tenham aumentado no acumulado do ano até agosto, as vendas ao mercado local vão na via contrária, com quedas registradas em julho e também em agosto.
Para Megale, o aumento da taxa de juros de 45% para 60%, outra medida anunciada recentemente pelo país vizinho, deverá afetar ainda mais a confiança já em baixa e por consequência o desempenho do mercado interno argentino.
“Obviamente vai encarecer os financiamentos, resultar no aumento de preço e isso vai refletir no mercado interno argentino”, disse o presidente da Anfavea.
Em sua análise, a associação indica que tal pressão poderá acarretar no aumento do preço FOB dos carros em algo em torno dos 8%.
“Vemos com preocupação, porque é uma situação complexa: o país tem dificuldade de recurso e entendemos que são medidas extremas, de cunho emergencial. Nos preocupa porque encarece o produto lá e também encarece as exportações. Com certeza, terá impacto no comércio bilateral”, comenta Megale.
O executivo defende que as negociações da Argentina com o FMI (Fundo Monetário Internacional) que estão em andamento podem acarretar em uma possível solução. “A antecipação de recursos de forma adequada poderá acalmar o cenário”, disse. “No entanto, temos confiança na capacidade do governo Macri em tomar medidas acertadas para sair dessa difícil situação.”
QUEDA GENRALIZADA
Embora a Argentina seja a principal responsável pela piora das exportações brasileiras de veículos – em um ano, o país vizinho passou de uma participação de 70% para 75% do volume exportado pelo Brasil – ela não é a única. Dados da Anfavea mostram que houve queda generalizada dos embarques para outros mercados da América Latina.
O México também vem interferindo de forma importante nos embarques de veículos feitos no Brasil. De janeiro a agosto, as exportações para lá caíram 50% no comparativo anual, passando de 61,5 mil para 31 mil neste ano. Isso fez cair a participação do pais de 12% para 6% nas exportações de veículos a partir do Brasil.
Para o Uruguai, as vendas caíram 18% na mesma base de comparação, para 17,7 mil unidades, embora o país tenha mantido sua participação de 4%. Colômbia e Peru também mantiveram suas fatias, de 3% e 2%, respectivamente, embora os volumes tenham diminuído 6,4% para o mercado colombiano e 0,9% para o peruano.
Apenas as exportações para o Chile, que consome 6% de veículos brasileiros, aumentaram neste ano, passando de 23,8 mil para 26,5 mil, sempre considerando o acumulado de janeiro a agosto na comparação anual.