
A Argentina passou por um turbilhão neste primeiro semestre. Com o novo governo e as medidas econômicas implantadas, o setor automotivo local também sofreu neste período.
Segundo dados da Adefa, associação das montadoras argentinas, de janeiro a junho a produção de veículos recuou mais de 26%, os licenciamentos mais de 21% e as exportações, quase 17%.
“As políticas de austeridade fiscal que estão sendo tomadas pelo governo também têm freado o mercado automotivo. Como, por exemplo, a redução da diferença entre o dólar oficial e o dólar blue (câmbio não regulado). Essa medida tem impactado bastante a compra de bens duráveis, como o automóvel”, analisa Fernando Trujillo, da S&P Global.
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Nesta segunda-feira,15, o governo de Javier Milei, anunciou medidas econômicas que devem interferir no câmbio e na inflação. Uma delas é a venda de dólares nos mercados paralelos de câmbio pelo Banco Central. A outra é a suspensão de emissões de pesos.
A primeira medida visa a conter a diferença entre a taxa de câmbio oficial do país e as taxas não oficiais, como o dólar blue, vendido nas chamadas cuevas. Já com a suspensão da emissão de pesos, a quantidade de moeda argentina em circulação não aumentará mais quando o Banco Central comprar dólares para acumular reservas internacionais.
“A Argentina está passando por um momento muito complicado, com muitas incertezas com o novo governo”, ressaltou Trujillo.
Falta de reservas prejudica compra de insumos
Para o executivo, a falta de reservas cambiais na Argentina, que ocorre desde o antigo governo, impacta a indústria de forma geral. Em especial as montadoras e os fornecedores instalados no país.
“Essas empresas têm restrições na compra de insumos, impactando a produção local e, também, importação de veículos. Então, são uma série de fatores que estão afetando o mercado e a indústria automotiva na Argentina”, disse.
A projeção da S&P Global para a produção de veículos argentina é de uma queda de 15,5%, alcançando um volume de 528 mil unidades. Até junho, foram produzidos 216,36 mil veículos.
Para o mercado, a expectativa da consultoria é de vendas em torno de 310 mil carros, recuo de 26,7%. No primeiro semestre, foram 170,3 mil emplacamentos, entre importações e produção nacional.
Falta de investimentos em capacidade
A Argentina é conhecida por ser um polo produtor e exportador de picapes no mundo e na América Latina. O país detém mais de 50% das vendas desta categoria na região, segundo Eduardo Reilly, presidente da APTA, associação de fornecedores da Toyota na Argentina – a marca produz a linha Hilux por lá.
Reilly acrescentou que a estimativa da produção de picapes é de 290 mil a 300 mil unidades este ano, queda de 5% a 7% em relação ao ano passado. Para 2025, a projeção é de 315 mil picapes fabricadas. A capacidade instalada, por sua vez, é de em torno de 350 mil a 400 mil unidades em dois turnos de produção.
“Investir no aumento do parque fabril, ainda não é momento na Argentina. Essa decisão passa pela demanda mundial e as matrizes sempre irão avaliar em qual parte do mundo poderá aumentar a produção de determinado modelo. Para chegar mais recursos à Argentina o país precisa ser mais competitivo, o que é mais difícil neste momento”, disse Reilly.
Diante do baixo investimento em capacidade instalada e para aumentar a produção, a solução encontrada pelas montadoras na Argentina foi melhorar a eficiência na operação.
“O ano de 2024 será de austeridade e no ano que vem será o da prosperidade. As empresas estão baixando o volume atualmente e fazendo melhorias na produção, para ganhar em custo e competitividade, sem fazer grandes investimentos. Esse é o trabalho que todo mundo está fazendo este ano”, diz o executivo.
“Devemos nos preocupar no que podemos fazer e o que está dentro do nosso controle é melhorar a fábrica. É o conceito de melhoria contínua”, acredita Eduardo Reilly.
