
Esse despertar acontece tarde, depois de 64 anos fazendo carros no País. Em 1958, a Toyota instalou em São Paulo, no bairro do Ipiranga, sua primeira unidade industrial fora do Japão, que em 1962 mudou-se para São Bernardo do Campo (SP), onde produziu por quase 40 anos o valente 4×4 Bandeirantes e desde o fim de 2001 ainda continua fabricando peças.
“O Brasil é uma potência e nós queremos crescer junto com o País”, afirmou o presidente da Toyota Motor Corporation, Akio Toyoda, em seu discurso durante a cerimônia de inauguração da planta de Sorocaba. “Quando chegamos queríamos fazer do Brasil nossa segunda casa. Foi trazida do Japão para cá uma prensa de 700 toneladas que na época representava a mais moderna tecnologia. Pois essa prensa continua até hoje fabricando peças de qualidade em São Bernardo, assim como muitos dos Bandeitantes que fizemos lá ainda rodam pelas estradas brasileiras, mostrando nossa presença forte no País”, lembrou Toyoda.
Contudo, depois do Bandeirantes a Toyota ainda levou mais 40 anos para produzir o seu segundo produto no Brasil, o Corolla, na unidade de Idaiatuba (SP), inaugurada em 1998. Para os japoneses, essa lentidão foi benéfica. “Temos consciência desse pequeno atraso de 60 anos”, brincou Hisayuki Inoue, diretor da Toyota Motor Company responsável pelas regiões da América, África e Oriente Médio, que veio ao Brasil acompanhar a inauguração da nova fábrica. “Encaramos essa aparente desvantagem como uma vantagem, pois durante esse tempo todo pudemos observar o exemplo dos outros fabricantes e aprender com isso. Hoje sabemos o que agrada aos brasileiros”, justificou.
“Quem faz o veículo é a pista que ele roda. Por isso é preciso conhecer bem os caminhos do País, que aqui nós já conhecemos muito bem. Por isso tenho certeza que o Etios será muito bem aceito pelos brasileiros”, afirmou Toyoda em seu discurso. “Só nós que conhecemos tão bem o Brasil podemos produzir um carro assim, para brasileiros e feito por brasileiros.”
O FATOR ETIOS
Com a linha Etios, a Toyota calcula que passa a participar de 87% dos segmentos do mercado brasileiro de veículos, incluindo nessa conta também o sedã médio Corolla produzido em Indaiatuba e a picape Hilux feita na Argentina. O efeito do portfólio ampliado na base do mercado faz a fabricante apostar em dobrar suas vendas no Brasil das atuais 100 mil unidades/ano para 200 mil em 2014. Para isso, outros produtos e a expansão da produção já estão planejados para Sorocaba. “Com esta fábrica de baixo custo de produção a Toyota se torna muito mais competitiva no Brasil, onde queremos estar entre os grandes fabricantes”, garantiu Shunishi Nakanishi, presidente da empresa no Mercosul.
Em 2006 a Toyota revelou pela primeira vez que pretendia desenvolver um modelo para ser fabricado e vendido nos mercados emergentes do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China). Em 2008 anunciou que construiria uma nova planta no Brasil para produzir o carro compacto, mas com a crise financeira mundial daquele ano os planos foram atrasados e só em 2010 o projeto de Sorocaba foi retomado, no mesmo ano que a produção do Etios começou na Índia, dois anos antes do Brasil, porque lá a fábrica já existia. A Toyota reforça, contudo, que o carro indiano é diferente – ainda mais simples, com preço em torno de R$ 18 mil, segundo jornalistas que conheceram o veículo.
“O desenvolvimento do Etios começou na Índia, mas em paralelo no Brasil também. Por isso dizemos que é um carro para brasileiros feito por brasileiros”, diz Inoue. Entre os aperfeiçoamentos feitos no Etios feito em Sorocaba, segundo antecipou a Toyota, estão a rigidez estrutural 15% maior, isolamento acústico melhorado, assentos mais confortáveis e suspensão reforçada.
ESTRATÉGIA
O Etios e Sorocaba estão inseridos na estratégia mundial da Toyota de expansão em mercados emergentes, que aumentaram a participação nas vendas da marca japonesa de 36% em 2008 para 45% em 2011, com expectativa de atingir 50% até 2015. Com um modelo mais barato projetado especificamente para os emergentes, a direção da Toyota espera começar a jogar mais seriamente nesses países.
“No Brasil o Corolla lidera entre os sedãs com 27% do segmento, entre as picapes a Hilux é líder com 30%. Mas temos menos de 3% do mercado local porque são produtos de abrangência limitada, para as classes A e B. Agora temos um carro para a classe C e o horizonte cresce”, lembrou Inoue. No caso, com o Etios a Toyota mira a porção de 102 milhões de brasileiros que hoje forma a chamada classe média do País, que dobrou de tamanho nos últimos 10 anos.
O Etios “made in Brazil” será vendido primeiro aos brasileiros, garante Inoue, mas depois também será exportado para países da América Latina. O índice de nacionalização do modelo começa em 65%, mas o conteúdo local chegará a 85% quando os motores 1.3 e 1.5, com bloco e cabeçote de alumínio, começarem a ser produzidos em 2015, em nova fábrica que a Toyota construirá em Porto Feliz (SP).
Para ajudar a garantir o índice de nacionalização maior desde o início da produção, a Toyota estimulou a vinda de fornecedores para o complexo industrial de Sorocaba. Doze fabricantes de peças e sistemas investiram juntos R$ 356 milhões para instalar unidades bem ao lado da planta de veículos (leia aqui). São eles Boshoku, Faurecia, Formtap, Inergy, Kanjico, Pilkington, Pirelli, Scórpios, Sanoh, TT Steel, Tsuho Scrap e KTL, que apesar de serem vizinhos não são exclusivos, poderão fornecer para outras montadoras. Mesmo antes da chegada da Toyota, já estavam instalados em Sorocaba e região fornecedores importantes da indústria, como os grupos Schaeffler e ZF.
PREÇOS PODEM BAIXAR
“Fizemos pesquisas com consumidores brasileiros e 60% deles nos disseram que querem comprar carros por preços mais baixos”, disse Inoue, colocando dessa forma em dúvida a estratégia da própria Toyota, que na semana passada revelou que as quatro versões do Etios seriam vendidas na faixa que vai de R$ 35 mil a R$ 45 mil, acima da maioria do concorrentes, como Volkswagen Gol e Fiat Palio. “O preço ainda não está fixado, demos só uma ideia para sentir o mercado”, justificou Luiz Carlos Andrade Jr., vice-presidente comercial da Toyota Mercosul.
Andrade revelou ainda que o valor foi calculado considerando o IPI cheio, sem o desconto atual que o governo concede para aquecer o consumo até 31 de agosto. Como o Etios só começa a ser vendido no fim de setembro, não teria o abatimento de imposto, mas caso o governo decida estender o incentivo, como aposta a maioria dos analistas, os preços já divulgados sem considerar o benefício podem de fato cair.
Independentemente de desconto de imposto, o mercado também poderá fazer sua parte, rejeitando o valor alto de um carro com acabamento bastante simples e de baixo conteúdo tecnológico. Aí a Toyota poderá ser obrigada a baixar o preço naturalmente.
Mesmo com a chegada de um modelo mais barato ao seu portfólio, a Toyota não tem intenção de aumentar o número de pontos de venda agora. “Participar do maior segmento do mercado abre uma grande oportunidade para nós, mas também é um grande desafio. Por isso os concessionários estão sendo preparados há três anos para receber o Etios. A rede de 133 concessionárias no País atualmente não deve crescer muito. Acreditamos que é o suficiente no momento para continuar a atender com qualidade e preservar a rentabilidade dos distribuidores”, garante Andrade. “Mas deveremos ter mais oficinas de assistência técnica”, acrescentou.