
Os R$ 130 bilhões que as montadoras instaladas no país anunciaram em investimentos, na esteira do Programa Mover e seus carros verdes, que garantiu isenção fiscal de R$ 19 bilhões ao setor ao longo de cinco anos, devem resultar em uma redução de até 8% nas emissões de CO² dos veículos até 2040.
Um estudo conduzido pela Anfavea, em parceria com a Boston Consulting Group (BCG), mostrou que, no melhor dos cenários, os veículos automotores deixarão de emitir 242 milhões de toneladas do poluente por ano, reduzindo o nível de emissão para cerca de 223 milhões de toneladas.
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Vale salientar que muitas medidas que estão sendo adotadas no país, como a transição gradual da frota para motores mais limpos e eletrificados, além da intensificação do uso de biocombustíveis, precisam ser bem-sucedidas até lá.
“Se compararmos a redução projetada com as metas europeias de zerar as emissões, por exemplo, ainda é um valor muito abaixo do ideal”, disse o diretor técnico da Anfavea, Henry Joseph Jr, na sexta-feira, 27. “De qualquer forma, é uma redução importante.”
O estudo aponta quatro cenários que correlacionam as medidas tomadas pela indústria e pelo governo com os possíveis resultados.
No caso de ocorrer apenas uma transição gradual e natural da frota rumo à eletrificação, as emissões podem, inclusive, aumentar em 5% até 2040, uma vez que serão adicionados mais veículos à frota circulante, aumentando o volume de motores em funcionamento que utilizam algum tipo de combustível fóssil.
Combinação de medidas podem reduzir mais as emissões
No segundo cenário, com uma transição acelerada, até 2040 o volume de emissões de CO² deverá ser semelhante ao que temos hoje, cerca de 243 milhões de toneladas por ano.
Já no terceiro cenário, com políticas eficazes que incentivem o uso de biocombustíveis, as emissões poderão cair 2% em comparação ao volume atual emitido pelos veículos em circulação.
O quarto cenário, portanto, ocorreria por meio da combinação do êxito de todos esses fatores.
Para que esse percentual aumente ainda mais, a indústria afirma que as propostas de redução de emissões devem ir além do produto, envolvendo esforços de todo um ecossistema, formado por elas mesmas, por seus fornecedores e pelo poder público.
A indústria se apoia nos resultados da pesquisa, que ouviu CEOs, consumidores e analistas internacionais, para concluir que será necessário mais do que investimento subsidiado em pesquisa e desenvolvimento para que os veículos em circulação no país poluam menos a longo prazo.
Para as montadoras, a redução de emissões além dos 8% pode ocorrer se movimentos adicionais forem incorporados às políticas públicas já propostas, como o Programa Mover.
O estudo cita o aumento da oferta de energia elétrica na rede, sendo necessário um volume adicional de 50 mil GWh por ano ao que as concessionárias atualmente oferecem.
A demanda por etanol também precisa aumentar. O estudo aponta uma necessidade de mais 15 bilhões de litros no mercado, assim como mais 9 bilhões de litros de biodiesel e HVO. A demanda por gás também precisa crescer, para 11 mil metros cúbicos por dia, para abastecimento veicular.
Se tudo isso funcionar, o estudo conclui que a redução de emissões em 2040 poderá chegar a 13%.
“Para enfrentar o desafio da descarbonização no setor, o Brasil pode combinar dois caminhos complementares: a transição de motorização e uma maior adoção de biocombustíveis na frota”, indica o estudo.
Não será fácil construir esse ambiente perfeito, e a indústria sabe disso. A falta de infraestrutura na Europa, com o déficit de postos de recarga, por exemplo, mostra que a questão é global, atingindo até mesmo mercados mais desenvolvidos em países ricos.
Renovação de frota ainda é um pleito das montadoras
Além disso, há uma questão mercadológica. Com a retirada dos incentivos na região, o consumidor passou a reconsiderar a compra de modelos eletrificados devido ao aumento dos preços, o que impactou significativamente as pretensões das fabricantes de veículos que já vinham investindo fortemente na eletrificação de suas ofertas.
O cenário ficou ainda mais complicado com a entrada das montadoras chinesas, que passaram a exportar mais para a Europa. O veículo elétrico chinês, mais barato que o europeu, começou a desestabilizar as estruturas produtivas europeias, levando o governo local a recorrer ao protecionismo.
O problema é que o veículo elétrico europeu também perdeu espaço na China, o maior mercado automotivo do mundo. A queda nas vendas na Europa e na Ásia aumentou as pressões sobre montadoras ocidentais, como o recente caso da Volkswagen, que cogita fechar fábricas.
Esse panorama, de certa forma, acendeu um alerta no Brasil, onde a produção local de veículos eletrificados ainda é incipiente.
Isso ocorre porque o mercado atual não consegue crescer para patamares maiores devido a questões como o cenário de consumo, com crédito mais caro e taxa de juros elevada, entre outros complicadores.
Assim, a indústria quer produzir mais, está investindo para tal, mas não há garantias no momento de que as vendas aumentarão na esteira dos lançamentos de modelos eletrificados que estão por vir.
O estudo indica que haverá uma mudança na oferta das montadoras nos próximos anos, com foco em veículos mais caros, os chamados premium, o que poderá afastar ainda mais a base de consumo da compra de modelos zero quilômetro. Dessa forma, é provável que o volume de produção das fábricas não cresça como o esperado.
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Segundo a indústria, isso também afeta a descarbonização: com mais veículos seminovos ou usados em circulação, maiores são as chances de que o volume de emissões gerado pela frota no país permaneça no patamar atual, apesar do Programa Mover.
Assim, a indústria segue com o mantra de que é necessário criar um programa de renovação de frota no país, para retirar de circulação os modelos que mais poluem. A questão é que nem as fabricantes nem o governo parecem saber como transformar essa ideia em algo viável.
