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Empresas automotivas podem ser sustentáveis, mas será que são éticas?

Há indícios de que as empresas do setor concentram muitos esforços em descarbonização, enquanto deixam de lado a governança corporativa
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Giovanna Riato

06 fev 2024

6 minutos de leitura

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Com tantas preocupações na mesa, as empresas automotivas parece deixar em segundo plano um pilar de sustentação: o da ética. Em outras palavras, a governança corporativa está fora das prioridades de boa parte das empresas e lideranças. 

O nome burocrático quer dizer nada mais do que garantir que as organizações joguem o jogo dentro das regras. Isso significa seguir as legislações vigentes, atuar no mercado com integridade, transparência e, claro, sem corrupção. 

Pois é. A extensa operação Lava Jato, da Polícia Federal, nos mostrou que os movimentos escusos não acontecem só no setor público e há empresas privadas com muita roupa suja para colocar na máquina.

A questão é que criar estruturas para evitar que problemas éticos aconteçam e, caso ocorram, sejam penalizados, não é exatamente foco do setor automotivo nesse momento. É o que descobri com a pesquisa ESG no Setor Automotivo, que conduzimos em Automotive Business em 2023 para entender como as organizações trabalham a agenda de governança ambiental, social e corporativa.

Empresas automotivas, ética e transparência: nem sempre

Diante da preocupação de descarbonizar a mobilidade, fazer a transição energética para veículos eletrificados e garantir a produção de carros em fábricas que usem energia limpa, as 89 empresas respondentes deixaram claro que a pauta ambiental é a maior preocupação.

A maioria, 73% das organizações, dizem estar em estágio avançado dentro da agenda ESG, com objetivos estratégicos e metas. É o famoso “até aí, tudo bem”.

A questão é que, quando questionadas sobre governança corporativa, poucas empresas demonstraram maturidade nessa frente. Só 11% das organizações elencaram como desafios da pauta ESG a implementação de mais transparência e o combate à corrupção – e apenas 9% destacaram o combate ao assédio.


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Por fim, 10%, parcela mínima, destacam ética e compliance entre os temas mais urgentes dentro da pauta. Ou seja, a maioria das organizações entende estar em estágio avançado na agenda ESG, mas governança corporativa, que é alvo de menos regulamentações e, também, não rende lá muita visibilidade às empresas, acaba como o patinho feio dessa conversa, deixada mais de lado.

Toyota mostra como é que não se faz

Temos, infelizmente, exemplo prático e atual de escorregada ética no setor automotivo. A Toyota, maior fabricante de veículos do mundo, começou a ser investigada no Japão pela possibilidade de fraude nas emissões de poluentes de caminhões e ônibus da Hino Motors vendidos no país desde 2001, além de modelos da marca Toyota como Hilux e SW4. 


Clique aqui para baixar o relatório ESG no Setor Automotivo


A história ainda deve render muito debate, mas, de cara, já impressiona por se tratar da empresa que é referência pelo sistema de produção eficiente e pela seriedade e consistência que são parte da cultura japonesa da empresa. Além disso, a Toyota está no topo de listas de marcas com maior valor de mercado do setor automotivo e de valorização das ações e, portanto, atração de investimentos.

Na era em que o mercado defende que só sobreviverão as empresas que cumprirem regras ESG, uma fraude desse tamanho depõe não só contra a montadora, mas contra a credibilidade de todo o segmento.

O Dieselgate está de volta

Se confirmada, a manobra da Toyota seria um novo Dieselgate – bafafá que começou em 2015, quando órgãos reguladores dos Estados Unidos descobriram que a Volkswagen fraudava o nível de emissões de seus veículos a diesel. Na prática, a fabricante dava um jeito de enganar o governo e vender carros mais poluentes do que a legislação permitia. 

O escândalo cresceu, com a prática descoberta em vários países, incluindo o Brasil. Mais de 11 milhões de veículos da montadora circulavam mundo afora com o cambalacho. Foi um escarcéu. Caíram lideranças importantes do Grupo Volkswagen, como o próprio CEO da época, Herbert Diess, a empresa pagou bilhões de euros em multas e, claro, precisou de um rebranding – aquela repaginada na imagem pública.

Com esse histórico, é irresistível se questionar se o setor automotivo não aprendeu nada com o vexame da VW. Afinal, quem praticava alguma irregularidade na época do Dieselgate da VW teve nove longos anos para colocar ordem na casa. Como isso, aparentemente, não aconteceu, sou levada a concluir que práticas nada exemplares são tão institucionalizadas em algumas empresas e situações que ninguém pensa em rever.

E no Brasil, o setor automotivo é ético, não é?

Nesse exemplo o auê foi grande, mas há uma série de questões menores que rondam o dia a dia das organizações. É clássica, por exemplo, a preocupação com corrupção na área de compras das empresas. Pense comigo: molhar a mão de um profissional para que ele dê preferência a determinado fornecedor na hora de fechar um contrato de compra de componentes para um novo carro não faz mal a ninguém. Ou faz?

Também não é pecado manter aquele gestor levemente assediador, que constrange alguns membros da equipe vez ou outra, mas entrega grandes resultados. E – outra tradição – se posicionar na mídia como empresa sustentável, falar de compromisso com o meio ambiente, enquanto, internamente, a cultura corporativa é tóxica e diversidade e inclusão passam longe de ser prioridade.

Pois bem. A verdade é que cada movimento desses indica que a ética não caminha ao lado do mundo dos negócios. Precisamos nos esforçar para que ela esteja presente ou a coisa degringola. E aí entra a necessidade de investir em governança corporativa.

Na Anfavea, governança corporativa também é desafio

Nos últimos anos, questionamentos sobre governança corporativa rondaram até mesmo a principal associação do setor automotivo. A Anfavea, que representa as montadoras de veículos instaladas no Brasil, parece ter expressado o que muitas empresas automotivas enfrentam internamente.

A organização concentra os interesses dessas empresas, faz negociações com os governos por políticas públicas adequadas e responde por uma indústria que emprega 1,2 milhão de pessoas no Brasil, entre trabalhadores diretos e indiretos. É muita gente e impacto na sociedade.

A presidência da instituição muda a cada triênio e vai para as mãos de um executivo (sim, são sempre homens) de uma montadora. São 23 empresas associadas, mas a oportunidade de presidir a instituição gira em torno de quatro ou cinco delas. Não há transparência sobre a lógica que rege a decisão de quem ficará no comando, a não ser a diplomacia interna.

Recentemente, algumas fontes próximas da entidade apontaram que, se a busca é por ter no comando da Anfavea uma pessoa isenta, que não penda para o interesse de uma ou outra montadora, o mais adequado seria contratar um (ou, quem sabe, uma) profissional do mercado.

Ainda que a organização conte com um diretor executivo que desempenha grande parte das funções estratégicas, um presidente que não tivesse como fonte de renda o salário pago por uma das associadas seria crucial para assegurar a imparcialidade.

É como o ditado sobre a mulher de Julio César, o ditador romano: “não basta ser honesta, deve parecer honesta”. Mais de 2.070 anos depois, a lição de governança corporativa do líder do império segue relevante. Que o setor automotivo saiba aproveitar.


Giovanna Riato é jornalista, editora-chefe de Automotive Business e, para tornar as empresas de mobilidade mais plurais, cofundou o Movimento AB Diversidade. Acompanhe mais no LinkedIn e no Instagram.*Este texto traz a opinião do autor e não reflete, necessariamente, o posicionamento editorial de Automotive Business.