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Empresas brasileiras não temem invasão chinesa na Automechanika 2024

A Automechanika volta aos seus dias de glória, e ocupa 12 pavilhões da Messe Frankfurt. Destes, nove têm a presença de empresas chinesas. É isso mesmo: nove. Cerca de 900 companhias do país asiático marcam presença na maior feira de autopeças do mundo. Elas retornam com força total após ausência em 2022 por conta de questões sanitárias.
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Marcus Celestino

13 set 2024

14 minutos de leitura

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Espaço das fabricantes brasileiras na Messe Frankfurt durante a Automechanika 2024 – Foto: Marcus Celestino/AB

Na edição passada, a ausência das chinesas na Automechanika Frankfurt favoreceu as empresas brasileiras. Donas de portfólios variados e de qualidade, conseguiram cooptar novos clientes e reforçaram relações com parceiros de longa data. Mas e agora, em 2024, com o retorno de “rival” de peso?


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A presença maciça da China, de fato, atrapalha um bocado, admite boa parte das empresas do Brasil. No entanto, nossas companhias não temem as concorrentes asiáticas. Creem numa competição saudável e nos predicados de seus produtos para se dar bem na batalha.

Não à toa, há expectativa entre as empresas que compõem o estande coletivo do Brasil Auto Parts (BAP), projeto do Sindipeças em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), de que mais oportunidades sejam seladas este ano.

Na edição 2022, as companhias fecharam negócios que totalizaram US$ 4,6 milhões durante a feira. Nos 12 meses subsequentes adicionaram mais US$ 26,3 milhões à conta.

Até braço brasileiro de empresa alemã marcou território

Ocupam o espaço de 496 m² com 48 expositores. Recorde expressivo. A título de comparação, a edição 2022 da Automechanika reuniu 33 empresas nacionais no espaço do BAP. Tamanho é o sucesso da área que até mesmo o tentáculo brasileiro da Thyssenkrupp resolveu participar mesmo jogando, de certo modo, em casa por se tratar de companhia de origem alemã.

“Esta é a maior prova de que o projeto dá resultado. O boca a boca vem fazendo que cada vez mais empresas participem e isso é, evidentemente, uma vitória do Sindipeças e do belo trabalho time do Brasil Auto Parts. Nosso relacionamento com a ApexBrasil é muito importante e já estamos renovando o convênio com eles por mais dois anos. A vocação do Sindipeças é ajudar o associado e aproveitamos este evento aqui para mostrar tudo o que podemos prover”, diz George Rugitsky, diretor de economia e mercados do Sindipeças.

A fim de incentivar, principalmente, a ida de pequenas e médias empresas a eventos do porte da Automechanika Frankfurt, e também a outras feiras estratégicas espalhadas pelo mundo, o projeto demanda investimento, renovado a cada biênio. No período 2023-2024 houve aporte de R$ 7,5 milhões, com contrapartida de R$ 6 milhões do Sindipeças – totalizando R$ 13,5 milhões.

Segundo Fernanda Garavello, coordenadora da área de fomento e exportação do Sindipeças, o investimento para o biênio 2025-2026 já está sendo negociado.

“Já fizemos uma pesquisa de interesse das empresas para eventos em mercados específicos de desenhamos uma proposta de calendário que iremos apresentar à Apex e aí, dentro dessa proposta, chegaremos aos valores”, adianta.

O objetivo para o próximo biênio é o de aumentar a contrapartida a fim de atingir todos os mercados considerados importantes. Desse modo, a delegação brasileira poderá estar, além de outros territórios estratégicos, na Argentina, na Nigéria, na África do Sul e nos Emirados Árabes. E, claro, de volta à Frankfurt em 2026.

Investimento das empresas brasileiras

O Brasil, vale frisar, melhorou a localização de seu estande coletivo na Automechanika. Há anos o BAP pleiteava por espaço em área mais nobre da Messe Frankfurt. Para a edição deste ano, enfim, logrou êxito, e garantiu posição de destaque no pavilhão 5.1.

Para estar no estande coletivo do Brasil Autoparts, empresas com faturamento até R$ 20 milhões gastaram R$ 6 mil, cada. Aquelas com ganhos até R$ 60 milhões ao ano pagaram taxa de participação de R$ 7 mil, e as que passam desses valores aplicaram R$ 8 mil. 


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Este ano, apenas uma não-associada participou do projeto, e despendeu R$ 20 mil reais. Há ainda um rateio de montagem, que custou US$ 1.200. Já o traslado é custeado pelas próprias companhias. Em termos de espaço, pé de igualdade: cada uma tem 9 m² para expor.

O projeto pagou € 200,9 mil pelo espaço. Além disso, teve de gastar mais R$ 100 mil em comunicação (parte do investimento pode ser visto por meio de inúmeros pôsteres, triedros e totens espalhados pela Messe Frankfurt) e custeou o pacote de mídia de cada uma das 48 empresas presentes. Teve, nesse caso, de aplicar € 900 – quase o dobro da edição 2022. 

Estandes próprios das brasileiras na Automechanika Frankfurt 2024

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Frasle Mobility aproveita feira para consolidar suas marcas na Europa – Foto: Marcus Celestino/AB

Já faz alguns anos que empresas do Brasil são figurinhas carimbadas na Automechanika Frankfurt e têm estande próprio na maior feira de autopeças do mundo. São companhias com presença expressiva no mercado internacional e que utilizam o evento para se aproximar ainda mais de seus clientes.

A Frasle Mobility, integrante da Randoncorp, por exemplo, há décadas marca presença na feira. No entanto, esta é a primeira participação da empresa após processo de rebranding. A mudança ocorreu em 2023, justamente com o objetivo de reforçar imagem de atuação global.

“A gente introduz oficialmente na Europa a Frasle Mobility como o nosso grande guarda-chuva corporativo. Precisamos [aqui na Automechanika], não digo educar, que é uma palavra forte, mas introduzir e construir isso para os clientes. A gente vem fazendo isso no Brasil desde o ano passado e lá o entendimento já está mais solidificado. Então, a feira para nós é uma grande oportunidade para apresentar essa nova Frasle, com um portfólio muito mais diverso”, destaca Guilherme Adami, diretor da divisão de breaking da Frasle Mobility.

O portfólio diverso é reflexo das aquisições feitas pela empresa nos últimos anos. Na edição 2024 da Automechanika, bom dizer, a Frasle Mobility apresenta a Nakata ao exterior. Ademais, mostra pela primeira vez sob o seu guarda-chuva a Juratek, empresa forte no mercado de reposição na Europa, especialmente no Reino Unido.

Se contarmos ainda a absorção da KUO Refacciones, hoje a Frasle Mobility tem plantas no Brasil, Argentina, China, Índia, México e Estados Unidos. Isso sem contar sua operação técnica e comercial na Alemanha, bem como os centros de distribuição no Reino Unidos e na Holanda.

De acordo com Adami, a Frasle Mobility tenta equilibrar a balança entre mercado interno e exportações. No entanto, conforme a companhia expande suas atividades, a tendência é de que o segundo sobreponha o desempenho do primeiro. Vale frisar, contudo, que a empresa ainda considera o Brasil absolutamente relevante.

A receita da Frasle Mobility no mercado externo, que engloba exportações a partir do nosso país ao desempenho das operações em outros países, somou R$ 1,2 bilhão. O montante representa alta de 4,8% em comparação com 2022. A empresa atribui tal desempenho às vendas na América do Norte e a maior participação na Europa, muito em decorrência da aquisição da Juratek.

Sobre presença chinesa na Automechanika, Adami deixa claro que isso não é um problema para a sua companhia.

“A Frasle Mobility é uma empresa que há mais de 50 anos faz negócios internacionais e a gente entendeu como se posicionar e, acima de tudo, confiamos muito na nossa tecnologia e em como posicionamos as nossas marcas. Não podemos reclamar de uma competição global se também somos uma empresa global. Temos um planejamento de médio e longo prazo bastante sólido para jogar o jogo do mercado automotivo, seja onde ele for jogado”, enfatiza o executivo.

O posicionamento da ZM, que tem sede em Brusque (SC), é algo similar.

“Tínhamos uma visão, que ficou para trás, de que todos os produtos chineses eram de má qualidade. Eles, evidentemente, evoluíram muito nesse aspecto. Mesmo assim, dentro do nicho de clientes que atendementos, conseguimos nos destacar. Isso porque estes clientes querem produtos de qualidade superior, com força de marca e toda uma história por trás”, comenta Poliana Zimermann, gerente de vendas nacional e de marketing global da ZM.

Reconhecida por sua fabricação de motores de arranque, solenoides, polias, cruzetas, alternadores e outros componentes, a empresa mantém produção na China com os mesmos padrões de qualidade do Brasil. Atualmente, o faturamento da ZM no mercado externo se restringe a 30% e o restante, 70%, advém do nosso país. 

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Estande da ZM na Automechanika 2024 – Foto: Marcus Celestino/AB

Essa proporção, segundo Zimermman, já esteve em 50-50 no passado. Todavia, por conta de um processo de fortalecimento de marca no mercado nacional, com linhas novas sendo incorporadas, isso mudou.

“Logicamente, também temos expressão em outros territórios, mas estamo fortalecendo cada vez mais a nossa presença no Brasil. O que é, claro, muito bom, por se tratar da nossa casa”, conta a executiva. Importante, contudo, citar que a ZM tem participação em 75 países com distribuição direta ou indireta. Além disso, a companhia tem clientes expressivos na Europa e, por isso, dá atenção especial à Automechanika Frankfurt.

Quem faz o mesmo é a Gauss, que também opera na China e está em 60 países. A empresa de Curitiba (PR) participa da Automechanika Frankfurt há mais de 20 anos e é conhecida por seus componentes elétricos.

A companhia mantém escritório na Alemanha, mas levou seu centro de distribuição na Europa para a Polônia. “Mudamos por uma questão operacional. Encontramos operador que atendia nossas necessidades, de fazer uma entrega em pequenas quantidades e mais rápida. Isso melhorou bastante o serviço”, explica Claudio Doerzbacher Junior, diretor executivo da Gauss.

A empresa pretende, na Automechanika, enfatizar seu perfil multinacional e estabelecer relações com clientes europeus e de outras regiões. A Gauss é outra companhia que entende que ter os chineses como competidores na feira, e também no mercado externo, é um desafio. No entanto, tem cartas na manga para se sobressair ante aos concorrentes.

“O movimento de procurar por um fornecedor chinês é muito direcionado pelas questões das empresas que querem ter sua produção a custo mais baixo. Nesse ponto eles são bastante competitivos. Nós, inclusive, competimos com eles nesse nicho de fornecimento de private label da China”, frisa o executivo.

“Mas a nossa proposta é um pouco diferente. Temos bastante sucesso porque fazemos uma espécie de one-stop-shop. Obviamente, a gente não consegue fornecer exatamente tudo o que o cliente precisa no nosso segmento, mas cobrimos muita coisa na área de eletrônica automotiva”, completa.

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Com operações na Europa, Gauss já participa da Automechanika há mais de 20 anos – Foto: Marcus Celestino/AB

Para 2024, a Gauss tem previsão de crescimento de 15%. A projeção até 2028 é de que a companhia siga na mesma toada, evoluindo entre 15% e 20% anualmente. 

Planos ambiciosos a médio prazo também para a Zen. Assim como a supracitada ZM, a empresa fica sediada em Brusque (SC). É comandada atualmente por Wilson Bricio. O executivo, que fez parte do Grupo ZF por quase duas décadas, está à frente da companhia há pouco mais de um mês e já tem desafios interessantes para os próximos anos.

A empresa lançou novos produtos recentemente. Todos são testados e especificados pela Zen e sua equipe de engenharia a fim de garantir maior durabilidade e, por conseguinte, qualidade. A companhia fez aporte de R$ 100 milhões justamente para aumentar a sua competitividade em determinadas linhas e caminha para ter faturamento recorde em 2030.

A Zen se faz presente em 60 países e utiliza a Automechanika Frankfurt para dialogar com clientes e também com fornecedores. “Aqui temos uma oportunidade de trocar experiências a fim de buscar novas possibilidades”, ressalta Bricio. Atualmente, segundo o executivo, 40% do faturamento da companhia advém do aftermarket. “O objetivo é crescer ainda mais no segmento e, portanto, a Automechanika é o ambiente propício para isso”, frisa. 

A empresa também, no entanto, pretende crescer na seara de equipamentos originais. Os R$ 100 milhões investidos serviram para aumentar a capacidade produtiva, que utiliza a localização como pilar estratégico. “Por meio da nossa comercialização desenvolveremos novos produtos que serão localizados”, explica Bricio.

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Zen se diz pronta para concorrer com os chineses – Foto: Marcus Celestino/AB

Sobre a presença chinesa na Automechanika, o executivo afirma que a Zen está preparada para competir com pares asiáticos. Afinal de contas, trata-se de movimento inerente às dinâmicas do mercado. Tanto é que, com o objetivo de se tornar ainda mais robusta, a companhia já estuda encetar produção na América do Norte.

Para completar, outra das figurinhas carimbadas do Brasil com estande próprio na Automechanika Frankfurt é a MTE-Thomson. A empresa, focada na produção de sondas lambda e produtos para injeção eletrônica, realizou uma reestruturação de suas unidades em nosso país.

São Bernardo do Campo (SP) passa a atender como sede administrativa, enquanto São Carlos (SP) e Jaguariúna (SP) focam na produção. Esta última herda ainda toda a parte logística, em novas instalações. 50% do que é feito em cada uma das duas fábricas ruma para o mercado exterior.

Com a reestruturação, e por meio de boas práticas, a MTE-Thomson deve crescer dois dígitos este ano. E, no futuro, já olha para novos investimentos. Isso caso bons ventos continuem a soprar no mercado.

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MTE-Thomson também esteve em Frankfurt e exporta para 70 países – Foto: Marcus Celestino/AB

A empresa tem ponto de distribuição em Miami, nos Estados Unidos, e na Alemanha, na cidade de Bremen. O warehouse europeu provém apoio logístico, comercial e técnico para a clientela na região. As peças da empresa são exportadas para 70 países, com maior enfoque no México. Neste país, a organização passará a ter como fortes concorrentes, claro, chinesas.

“O retorno da China [à Automechanika e ao cenário internacional] nesse pós-pandemia é importante e, para nós, algo absolutamente normal. De certo modo nos deixa, até, mais atentos, de forma com que tenhamos de manter nossa qualidade e, claro, competitividade”, garante Alfredo Bastos Junior, diretor de marketing da MTE-Thomson.

No Brasil, empresas pedem por equilíbrio

Se a competição com as empresas chinesas no mercado externo é vista como natural, no Brasil a coisa muda um pouco de figura. Para 2024, o Sindipeças espera que as exportações cheguem a US$ 8,1 bilhões, queda de 10% se compararmos com 2023. Já as importações deverão bater na casa de US$ 20,1 bilhões, o que representa alta de 7%. E aí entram as chinesas no bolo.

“Se você quiser vir para o Brasil, fabricar no Brasil, é muito bem-vindo. Agora, se quiser atuar apenas por meio de exportação é necessária uma análise detalhada para verificar se as condições especiais que estas empresas têm na China causam concorrência desleal. Temos que ter isonomia. As nossas empresas têm que se proteger. Os Estados Unidos já tomou decisões drásticas e a União Europeia também tomou decisões assertivas em relação à China. Quem não se preparar será invadido”, dispara George Rugitsky.

“Precisamos tomar cuidado. Temos uma indústria automobilística bastante complexa e não podemos colocar isso em risco. Se identificada concorrência desleal os órgãos do governo devem ser acionados de forma com que essa prática seja barrada”, completa o diretor do Sindipeças.

Executivos do ramo presentes na Automechanika, entrevistados por Automotive Business, fazem coro. “É fundamental que todo mundo cozinhe com a mesma água. As companhias chinesas não podem ser favorecidas no Brasil de forma a criar uma competição desigual”, diz um. Temos que aprender a jogar esse jogo, mas ele tem de ser justo. Precisamos de igualdade”, alerta outro.

As observações, de certo modo fazem sentido. Caso contrário, assim como a Automechanika Frankfurt, teremos praticamente todos os nossos “pavilhões” invadidos pelas companhias chinesas do segmento.