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Enquanto cidades buscam carros elétricos, iluminação é 1º passo para a mobilidade na Amazônia

Com patrocínio da Audi, Litro de Luz instala postes abastecidos com energia solar para facilitar dia a dia de comunidades ribeirinhas
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Natália Scarabotto

02 mai 2022

10 minutos de leitura

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Ainda era madrugada, pouco mais de 4h da manhã, quando um pequeno barco com moradores ribeirinhos do Rio Negro, no Amazonas, regressou para casa. “Olha… tem luz!”, gritaram surpresos ao ver um poste feito de cano PVC e led iluminando a entrada da comunidade Nova Jerusalém. É a primeira vez, em meses, que há iluminação para desembarcar em segurança.  

Em tempos de avanço dos carros elétricos, da conectividade e da automação nas grandes cidades, a mobilidade de regiões menos urbanizadas do Brasil ainda esbarra em algo muito mais básico: iluminação – ou a falta dela.

O poste de luz solar que surpreendeu os ribeirinhos tinha sido instalado no dia anterior pela ONG Litro de Luz, que conta com o patrocínio da Audi do Brasil. Durante o feriado prolongado de Tiradentes, em abril, 172 famílias, mais de 670 pessoas, das comunidades Lindo Amanhecer, Nova Canaã do Aruarú e Nova Jerusalém receberam postes e lampiões de energia solar feitos com material sustentável. 

Falta de luz é obstáculo à mobilidade (e a todo o resto)

As comunidades à margem do rio são formadas por casas de madeira suspensas por estruturas do mesmo material, na terra. Como ficam bem afastadas, cada morador pode ter sua horta ou criação de galinhas. Mas isso também torna os deslocamentos na vizinhança uma necessidade grande. Algumas pessoas que moram mais afastadas precisam ir de barco de casa até a igreja da comunidade, por exemplo, uma atividade importante para os ribeirinhos, que são em maioria evangélicos. 

Praticamente sem eletricidade, essas comunidades têm dificuldade de mobilidade, seja para andar em segurança pela comunidade à noite ou navegar de barco – o único meio de transporte na região, que serve para ir para escola, pescar e até como “ambulância” para levar doentes até hospitais em Manaus. A falta de iluminação prejudica ainda a execução de qualquer tarefa simples após o anoitecer, como comer, ler ou lavar roupa.
“É difícil para costurar, lavar roupa e cozinhar, né? Mas o mais difícil é para comer, principalmente, peixe porque tem muita espinha e posso engasgar se não tirar”, contou a pescadora Sara, como gosta de ser chamada dona Maria Joaquina Frazão Queiroz, 51, moradora de Nova Jerusalém.

Todas as madrugadas, ela sai de barco para pescar. “Dá medo de cair no caminho ou encontrar com algum bicho, aqui tem muita cobra, onça… e esse lampião agora vai ajudar até na hora de pescar, né? Vai ajudar muito, minha filha”, disse.

A iluminação precária atrapalha também os estudos. Davi Silva Vieira, 15, tem habilidade e talento para construir maquetes que representam a sua comunidade Lindo Amanhecer. “Não consigo fazer a maquete à noite, nem estudar. Quando chego de barco da escola já está escuro”, contou. “A gente precisa de luz pra tudo… até para pescar.  Um jacaré já tentou pular na minha canoa. Agora, com o lampião, coloco a luz na cara dele para assustar”, disse rindo.

Moradores constroem lampiões e postes solares

O lampião que Davi e Sara vão usar para estudar e pescar é uma solução criada pelo Litro de Luz, inspirada na lâmpada de Moser. Em 2001, o brasileiro Alfredo Moser descobriu ser possível gerar iluminação utilizando apenas garrafa pet com água. Em seu telhado, ele fez um buraco, deixando metade da garrafa com água para fora e a outra metade para dentro. Ao bater sol na parte externa, a luz sofre refração e se espalha pela água, iluminando o ambiente.

O corpo do lampião é feito com dois pedaços de cano de PVC. Por dentro, vai o sistema elétrico, relativamente simples, e a bateria de íon lítio – o mesmo tipo de bateria utilizada em carros elétricos. Por fora, é colada a luz de led no topo, envolvida por um pedaço de garrafa pet que protege a luz de sujeira e água. Os moradores recebem ainda uma pequena placa solar para carregar o lampião.

Cada morador monta o seu próprio, com a ajuda dos voluntários. Ao pegar as peças do lampião, seu Josivaldo Albuquerqui, 48, não estava muito confiante, mas aos poucos conseguiu montar. A parte mais difícil foi o sistema elétrico. “São vários fios para conectar, um pouco complicado, mas consegui fazer sozinho”, disse ele. Ao apertar o botão e ver a luz acender, seu Josivaldo não podia ter ficado mais contente. “Nunca imaginei que poderia construir um negócio desse… montar um lampião assim… isso aqui vai ser uma benção para a gente.”

Iluminação comunitária

Pensando na iluminação coletiva, cada comunidade recebeu também 10 postes de luz solar, instalados em pontos estratégicos: próximo ao rio para o desembarque de pescadores, em caminhos principais, em frente a igrejas ou próximo a casas de moradores mais idosos. Para os locais mais afastados, foi preciso levar parte do poste de barco para finalizar a montagem no local de instalação.

A localização é decidida pelos próprios moradores e validada pelos voluntários, que avaliam as condições técnicas do local para garantir que a placa solar do poste receba a maior quantidade possível de raios de sol durante o dia.

O poste de luz também é montado pelos moradores. O funcionamento é semelhante ao do lampião, sendo os principais materiais o cano de PVC, luz de led e garrafa pet. A placa solar é acoplada na direção mais favorável para receber os raios de sol. A bateria de íon-lítio armazena a energia da solução. Já o sistema elétrico é um pouco mais complexo do que no lampião para garantir o acendimento automático do poste ao anoitecer.

Para ajudar nos cuidados e manutenção, cada comunidade seleciona alguns moradores para serem embaixadores do projeto. Eles continuarão em contato com a ONG.
O Litro de Luz já levou soluções para mais de 20 mil pessoas de locais em situação de vulnerabilidade em todo o Brasil. Segundo a presidente do ONG no Brasil, Laís Higashi, as comunidades do Rio Negro foram escolhidas porque, apesar de contarem com alguma iluminação, é precária.

“Os geradores não funcionam o tempo todo, então, quando estão desligados as pessoas não conseguem fazer as atividades básicas em casa”, explicou. “As comunidades foram muito receptivas, eles parecem estar muito felizes em receber a gente.”

Iluminação improvisada pesa no bolso das famílias

Em praticamente todas as casas, a iluminação mais utilizada é a lanterna de pilha. E cada família improvisa do melhor jeito para atender suas necessidades. “Quando preciso cozinhar a noite, coloco uma lanterna pendurada em um prego acima do fogão”, explicou Maria Geny da Luz, 53.

Um dos problemas, no entanto, é a quantidade de pilhas consumidas. Segundo os ribeirinhos, uma família utiliza, em média, de duas a quatro pilhas por semana. O valor gasto varia bastante. Na casa de Maria Geny são R$ 40 por mês com pilhas, mas a família da pescadora Sara investe o dobro.

Na casa de Marlene da Silva, 37, se usa lamparina a diesel. Por mês, o valor chega a R$ 30. “Antes eu usava a noite toda acesa, por causa das crianças. Mas vi que os meus filhos estavam ficando com o nariz preto… é por causa do diesel, faz mal pra saúde, né.”

O valor com esse tipo de iluminação pesa no bolso. A maioria das famílias vive apenas com os R$ 400 que recebe do Auxílio Brasil, criado em 2021 para substituir o Bolsa Família. Na região, a principal atividade econômica é a produção de espetos de madeira para churrasco que, além de ser um trabalho manual pesado e demorado, paga pouco: R$ 5 por mil unidades.

O descarte incorreto também traz prejuízos. Ao andar pelas comunidades, é comum encontrar pilhas gastas pelo chão, o que pode trazer riscos à saúde dos moradores e contaminação do solo e da água.

Gerador a diesel ajuda, mas oferece riscos

Todas as três comunidades contam com um gerador à diesel que pertence às escolas locais. Por algumas horas de dia e de noite, entre 18h às 21h, os ribeirinhos utilizam o gerador para suas atividades básicas como ligar a geladeira, assistir televisão ou usar o wifi, vendido em pacotes na vizinhança.

O motor é barulhento e solta uma fumaça preta que cheira a queimado. Foi em um desses que o diretor técnico da unidade de saúde de Nova Jerusalém, Valdemir Nascimento, 65, perdeu o dedo anelar esquerdo há alguns anos. “Fui colocar para funcionar e prendi três dedos. Um não teve jeito, tive de amputar.”

Mesmo com o perigo, ele tem um motorzinho próprio em casa. Por mês, utiliza 150 litros de diesel, ao preço de R$ 7 o litro. No total, são mais de R$ 1 mil que pesam no bolso da família. “Agora, com o lampião solar vou usar menos o gerador e vou ter uma luz com mais qualidade, que gasta menos e não oferece risco”, disse Valdemir.

Durante o dia, ele cuida da unidade de saúde, onde chegam, principalmente, casos de picadas de cobras, doenças crônicas e mulheres gestantes. Quando precisam de mais assistência, é ele quem leva os pacientes de barco até o hospital mais próximo, a pelo menos uma hora de viagem. 

Audi? Baterias de lítio para carros elétricos?

Nas comunidades ribeirinhas do Rio Negro nunca se ouviu falar de carros elétricos, nem da Audi, resonsável por patrocinar a instalação dos postes de luz ali. Mas esses nomes populares no setor automotivo aproximaram as comunidades de viver com mais qualidade de vida e segurança por meio da iluminação solar.  

As baterias de íon-lítio utilizadas nas soluções do Litro de Luz são do mesmo tipo encontrado nos carros elétricos, celulares e equipamentos eletrônicos por terem alto desempenho e baixa manutenção.

“A Audi e o Litro de Luz compartilham valores e soluções em comum, como as baterias de íon-lítio, que utilizamos em nossos carros. Elas têm longo ciclo de vida, cerca de 10 anos, e sabemos que continuam sendo boas por até 20 anos de uso”, explicou o diretor de sustentabilidade da montadora do Brasil, Antonio Calcagnotto.

“Depois de utilizadas, precisam ter o descarte correto. Uma das nossas exigências para a ação foi ter um protocolo para resgatar as baterias usadas, dar o destino certo e, se possível, trocá-las.”

Calcagnotto trocou a rotina de reuniões com executivos e o traje social para conhecer de perto o trabalho do Litro de Luz na Amazônia. Ao longo dos dias, ajudou na montagem dos postes e lampiões.

“Me surpreendi quando chegamos e vi que as comunidades têm cabos de energia e gerador, porque esperava que eles vivessem totalmente no escuro”, contou o diretor. “Mas convivendo com os moradores, entendi que essa iluminação não é suficiente, além de ser prejudicial para a saúde deles por causa do dióxido de carbono, por isso o projeto traz mais segurança e qualidade de vida aos ribeirinhos.”

Segundo a presidente do Litro de Luz no Brasil, Laís Higashi, o trabalho precisa desse apoio. “Sempre buscamos parceiros que compartilhem dos nossos valores de melhorar a vida das pessoas por meio de soluções sustentável de luz, seja aqui na Amazônia ou nas comunidades urbanas.”

A logística do trabalho do Litro de Luz é complexa: são quatro dias de viagem em um grande barco que leva mais de 30 voluntários, além de custos com peças e baterias para 160 lampiões e 30 postes, entre outros materiais e suprimentos.

Ainda assim, no final do dia, vale a pena. Os lampiões e postes solares vão melhorar a segurança e a qualidade de vida de centenas de ribeirinhos, como a pescadora Sara. “Fiquei muito feliz em conhecer vocês, de ter essa luz melhor… é uma benção, filha.” E o trabalho seguem um poste por vez.