A reação foi imediata. A França é um país com tradição diesel e centro de excelência na aplicação de tecnologias avançadas. O CCFA, que é o Comitê Francês de Montadoras de Automóveis, e, portanto, representante de todos os tipos de veículos, condenou a posição da Sra. Hidalgo e cobrou da executiva ações baseadas em critérios mais objetivos. Indicou ainda que a renovação da frota da cidade traria benefícios consistentes para a qualidade do ar. Ou seja, ao não se distinguir o novo veículo do velho, atacando simplesmente o diesel, desprezando-se todas as conquistas recentes para a redução nas emissões, o que a presidente da câmara parisiense estava fazendo era jogar no lixo o plano de redução de emissões do país, que vem baixando gradativamente os limites de emissões para os veículos. Se todos vêm cumprindo, por que restringir a circulação apenas dos diesel?
A crítica surtiu efeito. Quando, afinal, o plano foi divulgado no início de fevereiro, viu-se que os carros a gasolina também passaram a ser objeto de atenção. Na verdade, os veículos velhos a combustão serão os que passarão a ter problemas para circular em algumas áreas de Paris. A restrição começa com ônibus e caminhões já em 2015; em 2016 atingirá os carros de passeio (todos) que foram produzidos antes de 1997. O carro diesel moderno, com filtro de partículas, não terá qualquer restrição de circulação, inclusive a partir de 2020, quando as regras serão mais rigorosas.
O novo anúncio (e oficial) foi recebido de maneira positiva pelo CCFA, que elogiou a nova posição para a cidade, uma vez que adotou as principais linhas sugeridas em sua manifestação: restrição aos veículos velhos e reconhecimento de que os avanços tecnológicos, notadamente os filtros de partículas, “limparam” o motor diesel. Seus efeitos ainda não estavam se fazendo sentir na cidade, pois foram implementados apenas em 2011. Trata-se, portanto, de um plano com chances reais de êxito por se fundamentar em fatos conhecidos e aproveitamento das mais recentes conquistas tecnológicas.
Situações como essa remetem à fábula de Esopo: o lobo (para justificar o sacrifício da ovelha para saciar a sua fome) disse que a ovelha poluía o rio onde ele bebia água. “Mas como, se estou abaixo de você?” retrucou a ovelha. “Bem, se não foi você, foi seu pai, sua mãe ou seu avô.” E devorou a ovelha. O diesel goza de evidente má reputação entre os políticos e se torna alvo fácil para as autoridades: “a cidade está poluída? Precisamos restringir o diesel!”.
O que está faltando falar para esses tomadores de decisão é que o diesel poluidor (para as exigências ambientais de hoje) pode ter sido o pai, a mãe ou o avô dos motores modernos, mas, definitivamente, não são os atuais. E há evidências disso.
No mês de janeiro, nos Estados Unidos, o HEI (Health Effects Institute), instituto de grande reputação científica, divulgou o trabalho Advanced Collaborative Emissions Study (ACES), que avaliou os efeitos dos gases provenientes dos modernos veículos diesel (comerciais) sobre a saúde, sobretudo seu potencial carcinogênico. O trabalho foi conduzido ao longo de anos com ratos de laboratório, que ficaram expostos 80 horas/semana, durante trinta meses, às emissões de um moderno caminhão leve a diesel. Ao final, não foram encontradas evidências de que a exposição às emissões gasosas dos modernos motores a diesel traga aumento no risco de desenvolvimento de câncer no pulmão ou alterações importantes na saúde. Essa conclusão se opõe à posição da OMS, que classifica o diesel como cancerígeno, graças a estudo realizado sob condições extremas de exposição (confinamento em minas), utilizando tecnologias, há muito, ultrapassadas. Este novo trabalho retrata melhor a condição que se pode ter utilizando um veículo diesel.
Uma outra situação, que ao leigo pode soar surpreendente, é a apresentada no site da PSA Peugeot Citröen, onde é mostrada a eficácia do filtro de partículas. Amostras de ar foram tomadas antes e depois de adentrarem o motor. Resultado: a quantidade de partículas presente naturalmente no ar é superior à quantidade que sai do motor diesel. Não é um gás a ser respirado, óbvio, pois o oxigênio é consumido na queima do combustível. Entretanto, o filtro remove as partículas com tamanha eficiência que os gases saem com menos partículas do que o ar ambiente. E mais: o filtro, diferentemente de catalisadores, que têm uma temperatura ótima de operação, funciona com plena capacidade independentemente de temperatura. E se regeneram em uso.
Tais fatos não fazem parte do senso comum, tanto no velho mundo como no Brasil. As pessoas ainda associam o veículo diesel a um inimigo do ar das cidades. Essa sensação não corresponde à realidade e, pior, contamina nossos representantes. Os modernos motores diesel, ao contrário do que se pensa, contribuem com a melhoria da qualidade do ar, sobretudo ao substituírem os veículos incompatíveis com a vida urbana (velhos). Ainda mais em um país onde a oferta de energia elétrica é um fator limitante à entrada dos veículos elétricos e, ao contrário do que seria o desejável para a cidade, o cidadão é incentivado a manter um veículo velho, ao ter o seu IPVA reduzido ano a ano, até a isenção.
Voltando a Esopo, estamos atacando a causa da qualidade do ar que respiramos ao sacrificar o diesel?