
Os veículos elétricos chineses estocados nos pátios de alguns portos do país continuam gerando polêmica. Na segunda-feira, 7, a Anfavea, a associação que representa as montadoras no Brasil, informou que esse estoque tem impactado a importação de componentes para as linhas de produção locais.
Segundo cálculos da entidade, as cerca de 86,2 mil unidades de veículos elétricos importados estão saturando o sistema logístico do país, a ponto de limitar as opções de transporte marítimo para a importação de peças. A alternativa que resta é o frete aéreo, significativamente mais caro.
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“Produzir veículos ficou mais caro”, afirmou o presidente da Anfavea, Márcio de Lima Leite, acrescentando mais um desafio às montadoras, relacionado ao estoque de veículos importados da China. Inicialmente, o problema era o volume, considerado prejudicial à produção nacional, e agora a questão logística.
A entidade não esclareceu completamente a relação entre pátios cheios e a necessidade de frete aéreo por parte das montadoras. Afinal, se há um gargalo logístico, ele provavelmente está mais relacionado a um déficit de infraestrutura portuária do que ao tipo de produto armazenado nas áreas de escoamento.
De qualquer forma, as montadoras, representadas pela Anfavea, vêm demonstrando há algum tempo certo desconforto com a quantidade de veículos elétricos importados pelas marcas chinesas. Somar o fator logístico à lista de impactos negativos dessas importações apenas intensifica a pressão sobre o tema.
Isso oferece às fabricantes mais um argumento nas discussões em Brasília (DF) sobre o aumento da tributação para a importação desses veículos. O aumento gradual de impostos, acordado anteriormente com o governo, já deixou de ser visto como uma solução eficaz. Atualmente, o pleito das montadoras é a antecipação da alíquota máxima o quanto antes.
Embora a questão dos pátios cheios tenha sido apresentada como um problema preocupante, a Anfavea acredita que esse alegado gargalo não será suficiente para interromper a produção de suas associadas. No entanto, a entidade deixou claro que produzir no Brasil ficou mais caro por causa dessa situação.
O estoque de veículos chineses armazenado em diversos portos e galpões provocou uma série de mudanças no esquema logístico das concessionárias, conforme relatado por Automotive Business em setembro.
Navio da BYD mudou a rotina das concessionárias
Desde que o navio Explorer #1, de propriedade da montadora BYD, atracou no Porto de Suape, em Pernambuco, os distribuidores de veículos alteraram sua rotina. A falta de espaço físico para armazenar os modelos importados levou as empresas a contratar parceiros logísticos.
Além desse custo adicional gerado pelas importações, há também um certo clima de apreensão entre os concessionários quanto à possibilidade de uma guerra de preços, caso as marcas chinesas realizem promoções de queima de estoque.
Um interlocutor do setor de distribuição contou à reportagem que uma queda agressiva nos preços desses veículos estocados poderia causar um impacto no mercado, afetando as vendas de modelos produzidos localmente. A lógica é simples: se o preço do elétrico cai, o preço de seu concorrente com motor de combustão também tende a cair.
Ainda não se sabe até que ponto uma eventual guerra de preços afetaria a operação das montadoras locais, com possíveis medidas de redução de margens de lucro para garantir participação de mercado frente às rivais.
No entanto, é inegável que há um certo clima de tensão na indústria. O cenário atual pode se tornar ainda mais dramático caso as marcas chinesas decidam antecipar remessas ao país antes do aumento da alíquota do imposto de importação, previsto para janeiro.
