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Estoque de veículos elétricos muda logística nas concessionárias

Desde que o navio Explorer #1, de propriedade da montadora BYD, atracou no Porto de Suape, em Pernambuco, o mercado automotivo local nunca mais foi o mesmo. Os cinco mil carros embarcados no compartimento de carga, e a possibilidade da chegada de novas remessas, provocaram mudanças e suscitaram dúvidas.
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Bruno de Oliveira

16 set 2024

5 minutos de leitura

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Primeiro, às mudanças. Um volume expressivo de veículos elétricos importados levou distribuidores a modificarem sua rotina. Não se trata de busca por mais pontos de vendas, de adequá-los segundo a cartilha das marcas, nada disso. Tanto automóvel chegando no estoque criou uma demanda importante por espaço físico.


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A reportagem da Automotive Business conversou com fontes em dois grandes distribuidores de veículos BYD em São Paulo, que pediram anonimato. O que eles comentam é que o apetite da montadora no mercado nacional os obrigou a buscar empresas de logística para estocar a cota de veículos que compram da fabricante chinesa.

Em visita a uma loja da marca na capital paulista, a reportagem observou que a busca por esses parceiros de armazenagem é algo imprescindível, uma vez que no ponto de venda já não há espaço para alocar mais carros: um showroom abarrotado de unidades do compacto Dolphin, ao lado de caminhões do tipo plataforma, cheios de carros do lado de fora.

“O volume é grande e a cota que o concessionário compra varia segundo o tamanho da rede e o potencial da região onde está instalado. Contratamos um galpão na Grande São Paulo para poder receber os veículos, que chegam dos armazéns que a montadora tem nos portos, e assim fazer a preparação deles para a operação comercial”, disse um interlocutor.

Logísitica aumentou o custo dos concessionários de veículos

O cenário, relatam os concessionários, os levou a ter um custo adicional que, de certa forma, não era previsto. E também a temer por um eventual descompasso no escoamento desse estoque. No caso desse concessionário entrevistado, os veículos, por ora, saem mais por meio de contratos de assinatura do que por vendas propriamente ditas.

O que significa que eles, em algum momento, vão retornar à rede, reiniciando um ciclo que poderá se tornar mais inchado caso cheguem outras remessas de veículos elétricos oriundas da China – ou caso o mercado interno não consiga absorver a oferta.

De acordo com Ricardo Bastos, presidente da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), será difícil que novos Explorer #1 voltem a atracar no país cheios de modelos de elétricos importados da China, pelo menos ao longo do segundo semestre.

“Tudo indica que não haverá mais remessas como as que vimos no primeiro semestre, salvo lotes de lançamentos que estão programados para ocorrer até dezembro. As montadoras mandaram mais veículos, como vimos, por causa do aumento da alíquota do imposto de importação que ocorreu em julho”, disse Bastos na quinta-feira, 12.

A fé da entidade é mantida na expectativa de vendas de modelos eletrificados que projetou para o ano, por volta de 150 mil unidades. Vale ressaltar que nessa conta também estão incluídos modelos híbridos e aqueles denominados por ela de micro-híbridos, que, inclusive, se mostram mais atrativos ao consumidor.

“É um estoque normal para o projetado para o ano”, continuou o presidente da ABVE.

Anfavea calcula estoque de 81 mil unidades de elétricos

Mas qual é, de fato, o tamanho do estoque de veículos elétricos que existe no país? Conseguir a resposta exata é algo complexo, uma vez que nenhuma montadora abre o jogo a respeito do assunto, alegando questões estratégicas.

Na primeira semana de setembro, a Anfavea, que é a associação que representa as montadoras com produção local, informou que há, no momento, estoque formado por cerca de 81 mil veículos elétricos chineses. Um volume, segundo a entidade, com lastro em cálculos realizados internamente.

Para o consultor David Wong, da Alvarez & Marsal, o Brasil se tornou uma espécie de bola da vez para uma China que enfrenta dificuldades para escoar uma volumosa produção de veículos elétricos em mercados maiores, como Estados Unidos e União Europeia.

“Não apenas o Brasil, o México e toda a América Latina aparecem como opção interessante para escoar a produção que enfrenta barreiras em outras localidades”, contou Wong.

O mercado de carros elétricos no Brasil está praticamente nas mãos da BYD até o momento. No acumulado de vendas de veículos movidos puramente a bateria, de janeiro a agosto, a marca chinesa contabiliza participação de 72%.

Os dados são do Renavam e divulgados pela Fenabrave, a associação das concessionárias. Até agosto, 41 mil unidades de carros elétricos foram licenciadas no mercado.

Locadoras de veículos atentam para custos de manutenção de elétricos

Enquanto a BYD tenta vender mais no país por meio de uma política de preço agressiva, os concessionários entrevistados pela reportagem se mostram otimistas, ainda que apreensivos diante da cesta de incertezas que o negócio proporciona.

Eles consideram como algo preocupante, além do mercado menor do que o esperado, situações como a devolução do lote assinado e/ou alugado em negócios envolvendo frotas, com os modelos voltando à loja já com quilometragem que os habilita para desmobilização – e também para processos de manutenção.

Esse temor, inclusive, é compartilhado por parte das locadoras que compraram modelos elétricos na esteira da novidade.

“Os veículos elétricos nas montadoras ainda representam uma pequena fatia das suas frotas, e o ciclo de vida deles ainda está no começo. De qualquer forma, a desmobilização do ativo é algo que merece uma maior reflexão porque acontecerá nos próximos anos e envolve custos”, avalia Paulo Miguel Junior, vice-presidente da Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis (Abla).

Procurada pela reportagem, a BYD não quis comentar o assunto.