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Pedro Kutney, AB
Foi aberto na manhã desta segunda-feira, 6, em São Paulo, o Ethanol Summit 2011, que nesta sua terceira edição atraiu quase 1,5 mil pessoas para assistir a mais de 120 palestras até o fim do evento, na terça-feira. O interesse do público reflete a crescente importância do etanol como combustível renovável inserido na matriz energética não só do Brasil, mas do mundo todo.
Marcos Jank, presidente da União da Indústria de Cana de Açúcar, a Unica, lembrou em seu discurso na abertura do evento que a internacionalização do consumo de álcool combustível está em curso, mais de 15 países já têm programas de mistura à gasolina e outro tanto discute a sua adoção, mas “ainda é preciso derrubar as barreiras contra o etanol brasileiro”, até agora o mais eficiente do ponto de vista produtivo e ambiental.
“Não é possível que derivados de petróleo sejam comercializados livres de impostos enquanto o etanol sofre pesada taxação em diversos países do mundo”, disse Edison Lobão, ministro de Minas e Energia. “Devemos lutar para derrubar as restrições ao biocombustível”, garantiu.
Aumento da produção
Mas todos os especialistas presentes ao evento acreditam que o aumento da produção de etanol no Brasil e a expansão das exportações deverá ser uma questão de pouco tempo. Não por acaso, o setor de produção de açúcar e álcool atrai cada vez mais capital estrangeiro ao País, hoje na proporção de 22% das empresas sucroalcooleiras, contra apenas 7% há poucos anos, lembrou Haroldo Lima, presidente da ANP, a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis.
Lima destacou que há apenas alguns meses o etanol passou a fazer parte do âmbito da regulação da ANP. “Agora é necessário criar um marco regulatório para o etanol, para aprimorar sua qualidade e o seu mercado”, disse o presidente da agência.
Para dar conta da demanda futura, mercado interno e prováveis exportações, até 2020 o País terá de, no mínimo, dobrar sua capacidade atual de produção de etanol, para cerca de 60 bilhões de litros por ano. Em 2010 o consumo de álcool combustível no Brasil foi de 22,2 bilhões de litros, com participação de 45% no consumo total da frota ciclo Otto. Caso seja mantida essa proporção, o consumo nacional deverá atingir 47,8 bilhões de litros em 2020. Se essa proporção subir para 50%, serão necessários 54,5 bilhões de litros, ou 68 bilhões de litros se o porcentual aumentar para 60%.
O aumento da produção de etanol no País acontecerá, conforme destacou o presidente da Unica, sem derrubada de florestas ou comprometimento da produção de alimentos. “A cana de açúcar ocupa menos de 3% da área agriculturável do Brasil e a produtividade está crescendo, portanto não será necessário expandir muito as plantações”, explicou.
Jank lembrou que hoje a produtividade da cultura de cana já é o dobro do que acontecia nos anos 70: saltou de 3 mil litros de etanol por hectare para 7,5 mil litros, com possibilidade de atingir 13 mil l/h nos próximos anos.
O ministro Lobão destacou os benefícios que o etanol já trouxe ao País. Com o uso do agrocombustível, o Brasil economizou o equivalente a 1,5 bilhão de barris de petróleo e 950 milhões de toneladas de CO2 deixaram de ser emitidos na atmosfera. Ao que Jank acrescentou: “Se o flex e o etanol não existissem, nos últimos seis anos os consumidores teriam gasto R$ 20 bilhões a mais para abastecer os seus carros só com gasolina, pois o etanol manteve-se competitivo sobre gasolina na maior parte do mercado.”
Investimentos
Mas nem tudo são campos verdes no mundo do álcool. A recente escassez do produto e a escalada nos preços no País demonstrou a fragilidade do aumento do consumo sem a equivalente ampliação da produção com criação de estoques reguladores, o que Lobão prometeu para breve. “O setor precisa de um marco regulatório estruturante”, defendeu.
Também presente à abertura do Ethanol Summit, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, lembrou que o setor está apenas saindo da crise de 2008/2009, que freou os investimentos necessários de expansão da produção que estavam em curso e só puderam ser retomados no ano passado. De fato, o quadro de crescimento na produção de etanol, que era de 10% ao ano em média desde 2003, quando foi lançado o automóvel flex, caiu para apenas um terço disso nos últimos dois anos, o que impactou o fornecimento, principalmente no período da entressafra.
“O setor passou por teste importante na crise de 2008 e 2009, que retardou o processo de investimento na expansão da capacidade. Precisamos expandir as plantações de cana e ampliar sua produtividade para dobrar a capacidade atual até 2020”, disse Coutinho. “Temos todas as condições de liderar o processo de produção do etanol de segunda geração (a partir de celulose, incluindo o próprio bagaço da cana) e empregar a cana em novas fronteiras, na produção de biomateriais e bioenergia”, acrescentou.
Coutinho ressaltou que os investimentos nesse sentido já estão acontecendo, lembrando que o BNDES liberou no ano passado o recorde de R$ 7,6 bilhões para o setor de etanol e açúcar. A maior parcela dos recursos foi empregada em mecanização, via Programa de Sustentação do Investimento (PSI), para aumentar a produtividade.
Pelo que se viu na abertura da terceira edição do Ethanol Summit, o etanol já está consolidado como principal biocombustível do mundo – mas falta aumentar sua produção. Interesse parece não faltar, a julgar pelos milhares de participantes que o evento atraiu e também pelo número de patrocinadores, dez no total, incluindo três montadoras (Scania, Peugeot e Honda), um banco de investimento (Itaú BBA) e três petroleiras (Petrobras, Total e BP). Todos estão interessados no etanol.