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Executivo salva-vidas

O mundo corporativo privilegia a ação. Os profissionais são treinados para agirem rapidamente e dar cabo dos problemas que surgem a cada dia. Com o passar do tempo, alguns deles se destacam. Submetidos a grandes desafios, conseguem suportar a pressão, mantêm o cérebro focado e encontram a saída. Executivos são como salva-vidas, precisam estar em forma, treinar muito, e sempre alertas, agir com rapidez e precisão quando for necessário. Ganham bem para acertar muito e fazer um trabalho que a maioria considera extenuante.
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Redação AB

11 fev 2010

4 minutos de leitura

O foco necessário para ser bem sucedido na carreira costuma ser também um grande fator de desarmonia na vida privada desses profissionais. É muito difícil desligar. Parece que vivem em “piloto automático”. Ao chegarem em casa, sem perceber, não conseguem realmente ouvir o cônjuge, os filhos, a televisão. Livros que não sejam ligados aos negócios dificilmente são absorvidos. Muitos jantam como robôs e pedem licença para verificar seu email. Levam seus BlackBerry para cama. Resumindo, perdem a capacidade de desconectar-se do ambiente corporativo.

Também é comum dar ordens aos “colaboradores” de sua casa. Decidem o que precisar, rapidamente , sem se importar com a opinião dos demais. O software corporativo segue funcionando sem que eles percebam. Acham sinceramente que todos deveriam ser gratos pelo sacrifício que estão fazendo em nome da família. E agem como se o dinheiro que recebem fosse solução para todos os problemas do lar.

Por ter uma percepção corporativa da vida, não conseguem entender comportamentos alheios aos seus. Como pode um filho que estuda no melhor colégio, tem as melhores roupas, carro do ano e mesada generosa, ter problemas de depressão? Porque o cônjuge precisa trabalhar, se ele proporciona tudo o que ele precisa?

Pior, sentem-se injustiçados por fazerem tanto e receberem tantas críticas e reclamações em casa. Sentem falta da disciplina corporativa e do peso do cargo. O humor desaparece, a vida pessoal entra em crise, e seus efeitos fatalmente, respingarão na performance corporativa.

Não é fácil! O que deveriam fazer? Jogar tudo para cima? Largar o emprego? Deixar que os familiares sentissem o impacto de ter que viver noutro padrão? Claro que não! Mas é preciso aprender a emergir integro do ambiente corporativo antes de rumar para casa. Criar um ritual de desligamento.

O negócio sempre demandará mais empenho, mais tempo. É preciso dizer não a essa entrega absoluta. É preciso dar espaço ao prazer. Seja ele em forma de esporte, passatempo, namoro, brincadeiras com as crianças.

Outro dia, num bate papo com um cliente do meu programa de aconselhamento profissional, ele me contou que adorava brincar com seu filho pequeno, que era uma poderosa ferramenta anti estresse. Provoquei-o e perguntei porquê. Juntos concluímos que seu ego não estava presente na brincadeira. Era sua essência que permeava a ação. E quando entramos em contato com ela, nos damos conta que somos divertidos, bem humorados, zen, cheios de energia. Essas qualidades, sob a pressão do caldo empresarial tem problemas para virem à tona.

As novas gerações, pelas situações vivenciadas em casa, não se contentarão em ganhar dinheiro. Irão querer gastá-lo com qualidade e alegria. Existem muitos artigos que afirmam que essas gerações conseguirão lidar muito bem com essa complexidade. Trabalho e vida pessoal serão ambos executados com prazer. Não, os problemas não desaparecerão. Mas haverá uma simbiose maior entre a cultura corporativa e a vida pessoal de seus colaboradores. Haverá maior respeito pela necessidade que o ser humano tem em cuidar de sua saúde, suas emoções, seus relacionamentos, sua espiritualidade. Quem é pleno rende mais. E atinge melhor resultados. Em todas as dimensões da vida.

Ivan Carlos Witt é sócio-presidente da Steer Recursos Humanos, empresa que fundou em 2002. Ocupava antes o cargo de diretor de compras para a América do Sul da Ford Motor Company, onde trabalhou por 20 anos. Atuou 10 anos no exterior (México, Estados Unidos, Espanha, Inglaterra e Alemanha) em cargos de liderança nas áreas de recursos humanos, manufatura, logística e compras. Engenheiro eletricista, atua hoje como headhunter, conduz treinamentos corporativos e desenvolve o Programa Horizontes de aconselhamento profissional para líderes.
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