
A Argentina é o principal importador de autopeças feitas no Brasil. Justamente por isso, as fabricantes nacionais têm de dar atenção aos vizinhos mesmo nos momentos difíceis, quando estão sem sal ou açúcar.
Tanto é que as fabricantes de autopeças do Brasil (bem como o Sindipeças, que as representa) jamais deixaram de bater à porta de parceiro tão importante. Tocava a campainha até nos períodos em que teve de enfrentar problemas na relação.
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Já faz algum tempo que as companhias nacionais pedem que os argentinos sejam mais céleres nos pagamentos das importações. E, mais grave, que honrem seus compromissos.
No entanto, a última edição da Automechanika Buenos Aires, que começou no dia 10 e termina no sábado, 13, deixa claro que a esperança voltou. As empresas brasileiras admitem que o novo governo argentino tem muito a fazer, mas, ao mesmo tempo, estão empolgadas com o futuro do país vizinho.
Recorde de fabricantes de autopeças brasileiras
Em decorrência disso, o evento organizado pela Messe Frankfurt Argentina conta com presença recorde de fabricantes brasileiras. A maioria delas instaladas no pavilhão dedicado exclusivamente ao nosso país — iniciativa do Brasil Auto Parts, programa desenvolvido em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil).
“Na edição de 2022 tivemos 34 empresas aqui na Automechanika Buenos Aires. Agora temos 52”, diz Fernanda Garavello, coordenadora da área de fomento e exportação do Sindipeças. “Isso se dá pelas expectativas com o novo governo. Com a nova administração e suas medidas austeras, os problemas não serão resolvidos da noite para o dia, mas já há, felizmente, uma previsibilidade de recebimento”, completa.
Vale destacar que o governo flexibilizou os pagamentos. Estipulou que fossem feitos entre 30, 60, 90 e 120 dias. Além disso, o presidente Javier Milei, ainda à época das eleições, prometeu que a inflação seria cortada de 18 a 24 meses.
“Existe uma boa vontade do governo com o comércio exterior e questões ideológicas não interferem nisso. Por isso os empresários brasileiros estão muito empolgados com a mudança”, salienta Fernanda.
ApexBrasil mantém apoio às empresas nacionais
O projeto da ApexBrasil ajuda a subsidiar a participação de associados da entidade em inúmeros eventos do calibre da Automechanika Buenos Aires. Inclusive, bom frisar, na edição da feira realizada em Frankfurt — que ocorre em setembro e é o maior palco para as fabricantes do segmento no mundo.
O investimento feito pelo projeto para que as companhias brasileiras é renovado a cada biênio. No período 2023-2024 houve aporte de R$ 7,5 milhões, com contrapartida de R$ 6 milhões do Sindipeças.
No biênio 21-22 o investimento foi de R$ 5,92 milhões. A contrapartida do Sindipeças foi de R$ 4,003 milhões. Os montantes ficaram mais, digamos, robustos pelo seguinte motivo:
“Houve uma solicitação da Apex de aumento da contrapartida justamente pela maior necessidade de apoio às empresas [nacionais], para que abarque os interesses de todos”, salienta Fernanda Garavello.
Importante dizer ainda que, segundo a coordenadora da área de fomento e exportação do Sindipeças, já foi encetado o processo para definição do que será investido pelo projeto no biênio 25-26. Em maio vamos ter eleições de mercados-alvo, de países que iremos trabalhar no período. A partir daí chegaremos a um consenso. Temos muito interesse em crescer, com mais empresas interessadas em participar”, destaca.
Investimento das fabricantes brasileiras de autopeças

Para estarem na Automechanika Buenos Aires, feira de suma importância para o nosso segmento, as fabricantes brasileiras têm de investir. Para estar no pavilhão viabilizado pelo projeto, as companhias gastaram de R$ 10 mil a R$ 15 mil reais. O montante depende do porte da empresa.
O pavilhão verde e amarelo tem área de 482 metros quadrados. Destes, a embaixada da Argentina no Brasil custeou 80 metros quadrados. O m2 saiu por US$ 320 mais 19% de IVA.
O investimento, segundo os viabilizadores, tem dado resultado. De acordo com interlocutores, o pavilhão brasileiro recebe visitantes de Equador, Uruguai, Bolívia, Argentina e de outros países das Américas.
Os pontos positivos servem para que estreantes no espaço, como a thyssenkrupp Springs & Stabilizers, retornem à Automechanika Buenos Aires. A divisão pretende ampliar a exportação de seu portfólio, composto por molas, barras estabilizadoras e amortecedores, para clientes da região.
Participação brasileira vai além do pavilhão
O pavilhão nacional é uma excepcional iniciativa, digna de elogios. No entanto, não é apenas por lá que se encontram empresas brasileiras ou que fabricam no país.
A Frasle Mobility, por exemplo, tem estande próprio na Automechanika Buenos Aires, em local de destaque. Isso porque a empresa, que faz parte da Randoncorp, tem presença sólida no mercado argentino.
“Temos uma história de muito sucesso por aqui. Em 2017 fizemos a aquisição da Armetal e nos tornamos um dos principais players de aftermarket. Para nós, embora tenhamos tido dificuldades, o ambiente na Argentina sempre foi bom”, comenta Anderson Pontalti, COO da Frasle Mobility.
A empresa é dona ainda de marcas de estirpe em toda a região, como Fremax, Nakata e Controil. Todas estão representadas na Automechanika Buenos Aires. Assim como a Plasbestos, que apresenta linha de pastilhas de freio.
“Embora tenhamos produção na Argentina, aqui nos posicionamos como um master distributor. Estamos vendo a feira de modo positivo, com um ambiente político-econômico renovado”, destaca o executivo. “Aqui se tem um potencial gigantesco. A Frasle Mobility quer ser líder na América Latina e, evidentemente, esse é um país fundamental para a nossa estratégia” completa Pontalti.
Além de Frasle Mobility, comitivas brasileiras de multinacionais como Bosch e ZF também pavimentam terreno na Automechanika Buenos Aires. Tal qual a SKF, outra companhia que dá as caras e evidencia produtos feitos em território nacional.
“As feiras regionais são muito importantes, especialmente para termos esse contato com o público e com os nossos clientes”, explica Elias Euphrasio, coordenador de produto da SKF para o Mercosul. “Além das importações, temos uma unidade aqui no país. Portanto, essa ponte comercial ajuda bastante”, destaca.
A SKF tem, segundo Euphrasio, seis mil itens em portfólio na Argentina. No Brasil são cinco mil. Tal demonstra a relevância dos mercados para a companhia e a necessidade de que os dois países tenham boas relações e, por conseguinte, situações econômicas favoráveis.
“Estamos esperançosos com as políticas na Argentina que buscam a queda da inflação. É um ponto muito importante para a nossa área. Esperamos que nossos clientes, na ponta, voltem a ter capacidade de compra” comenta o coordenador.
A SKF, vale ainda dizer, é fornecedora oficial de rolamentos para a Stock Car. Na Argentina, a empresa já encetou namoro com a TC2000, a categoria principal de turismo no país, de forma a ampliar a parceria.
“Já atuamos como patrocinadores da TC2000. No entanto, já conversamos sobre fornecimento de produtos. Isso seria fantástico, pois, assim como a Stock Car, é uma categoria que nos aproxima dos nossos clientes. É uma estratégia distinta da que adotamos na Automechanika, e todas, claro, são muito válidas e importantes em nossa estratégia”, diz Euphrasio.
Companhias brasileiras estarão em mais feiras em 2024
A Automechanika Buenos Aires é só mais um dos grandes eventos que as companhias do segmento participarão este ano. 30 fabricantes se reunirão, em missão comercial, com importadores e distribuidores chilenos.
Além disso, em junho, o projeto da ApexBrasil levará pela primeira vez companhias do país ao Latin Auto Parts Expo. O evento, que ocorre no Panamá, servirá para aproximar nossas fabricantes de clientes de América Central e Caribe.
Para fechar, 48 companhias participarão da Automechanika Frankfurt, em setembro. Esta, vale frisar, é a principal feira do segmento no mundo. A grande vedete.
Ainda haverá presença brasileira em outros eventos. Um deles é a AAPEX, que ocorre em Las Vegas, nos Estados Unidos. Em 2023, a feira reuniu mais de 45 mil visitantes de 131 países. Oportunidade excepcional para fomentar negócios.
