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Falta de semicondutores é mais um bonde perdido pelo Brasil


Placa wafer de silício onde são gravados microcircuitos: 65% da produção mundial concentrados em um só fornecedor em Taiwan
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pedro

11 jun 2021

7 minutos de leitura

A falta de semicondutores – matéria-prima para produção de componentes eletrônicos e módulos de controle – que vem abalando a produtividade da indústria automotiva no mundo todos é resultado da falta de visão estratégica de vários países, que ao privilegiar custos deixou o mundo dependente de meia dúzia de fornecedores localizados na Ásia, que hoje não conseguem atender a demanda mundial e deixaram os fabricantes de veículos na mão. Essa situação realça as vulnerabilidades logísticas e tecnológicas do Brasil nessa área, que há décadas perdeu mais esse bonde da história, deixando passar a oportunidade de desenvolver um setor que hoje é a locomotiva que puxa a evolução tecnológica da humanidade no rumo da digitalização, em um mercado global que este ano deve girar US$ 488 bilhões com a venda de 1,14 trilhão de peças para diversos setores.

As crises trazem problemas à tona na mesma medida em que abrem oportunidades de investimento para resolvê-los. Nesse aspecto, embora boa parte dos países desenvolvidos tenha cometido o erro estratégico de se tornar dependente de uma só fonte de insumos essenciais à produção de semicondutores, todos estão tomando medidas, mesmo que atrasadas, para corrigir o rumo com a destinação de dezenas de bilhões de euros e dólares em incentivos à construção de fábricas regionais, para suprir ao menos uma parte da demanda.

É o que está fazendo o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, que esta semana aprovou no Senado americano um pacote de US$ 250 bilhões para promover pesquisa e desenvolvimento de tecnologia da cadeia produtiva do país, incluindo aí US$ 52 bilhões destinados a incentivar a produção de semicondutores e assim reduzir a dependência de matéria-prima importada. Boa parte dos recursos será destinada a universidades.

Ao ver diversas fábricas de veículos paradas na Alemanha por falta de semicondutores, a chanceler alemã Angela Merkel segue a mesma estratégia de incentivar o setor: “Não me sinto confortável pelo fato de um grande bloco econômico como a União Europeia não estar em posição de produzir microchips. Se este é um país famoso por sua indústria automotiva, não é muito bom se não conseguimos produzir um componente principal nos carros hoje”, arrematou a dirigente em discurso durante a inauguração esta semana de uma fábrica de microchips da Bosch em Dresden, onde a empresa investiu € 1 bilhão e o Ministério da Economia da Alemanha concedeu cerca de € 140 milhões em incentivos. A União Europeia estabeleceu meta de produzir pelo menos 20% dos chips usados mundialmente até o fim desta década.

E NO BRASIL… NADA

A incorporação de tecnologias modernas ao tecido social costuma espelhar com nitidez o grau de desenvolvimento das nações. O Brasil automotivo não foge a essa regra, espelha a própria evolução nacional. Em um país onde a maioria da população ainda não pode pagar por muitas das sofisticações tecnológicas, é natural que o conteúdo dos veículos produzidos aqui seja menor, mas cresceu muito na última década com empurrões da legislação que obrigou a incorporação de diversos sistemas eletrônicos de segurança como airbags, freios ABS e controle eletrônico de estabilidade (ESC) e tração, mas também por exigência do público consumidor que passou a valorizar mais as tecnologias de conectividade e infoentretenimento a bordo.

Por isso o Brasil também tem várias fábricas paradas por falta de semicondutores – o caso mais grave é o da GM que paralisou desde março sua fábrica de Gravataí (RS) onde é produzida a família Onix, que no fim de 2019 passou por reformulação e incorporou mais eletrônica, e agora sofre com o departamento global de compras da companha que está direcionando o fluxo escasso de eletrônicos para unidades que produzem veículos mais rentáveis para a companhia.

Atualmente o setor automotivo no Brasil importa cerca de US$ 1 bilhão por ano em componentes eletrônicos, segundo calculam alguns dos principais fornecedores. Quase todos semicondutores usados pelas fabricantes de veículos são importados, no máximo são montados localmente em placas. A situação não é nova e vem se agravando ano-a-ano, conforme aumenta o conteúdo tecnológico nos veículos e diminui o interesse de governos neoliberais brasileiros em desenvolver políticas industriais que de fato conduzam o País a desenvolver tecnologia.

Por outro lado, também há pouco ou nenhum interesse de multinacionais do setor automotivo instaladas no Brasil em desenvolver aqui seus mais sofisticados sistemas, para um mercado subdesenvolvido, de baixo potencial de crescimento, com renda concentrada em elites que valorizam bens importados, e que segue caindo no ranking mundial de maiores mercados.

PEQUENAS PEÇAS, GRANDES PROBLEMAS

Associação que reúne os fabricantes de veículos no País, a Anfavea alertou que a falta de semicondutores tende a se agravar nos próximos meses e deverá continuar a paralisar fábricas por aqui. Durante a divulgação de resultados do setor no início deste mês, o presidente da entidade, Luiz Carlos Moraes, avaliou que o problema deverá persistir pelo menos até o começo de 2022, limitando a recuperação que a indústria automotiva previa ter após o impacto da pandemia de coronavírus no ano passado.

Moraes prevê que a situação poderá mudar o pensamento vigente na cadeia global de suprimentos do setor: “Essa vulnerabilidade deixa mais evidente o quanto pode ser perigoso buscar custo menor sem avaliar o risco. Esse é um tema que deverá ser revisitado e repensado. Também é uma questão geopolítica, os países não podem ficar dependentes de um só fornecedor no mundo”, pondera. Para se ter ideia de quanto, 65% da produção global de wafers (discos de silício fundido ultrafinos sobre os quais são gravados os microcircuitos dos microchips) estão concentrados em um único fabricante em Taiwan.

O presidente da Anfavea aproveitou o tema para destacar que esta poderia ser uma nova chance para o Brasil investir na produção de semicondutores. É um setor que requer investimentos bilionários em pesquisa acadêmica, desenvolvimento científico e industrial, fábricas altamente sofisticadas que operam em ambientes que têm ar 100 vezes mais puro do que em uma sala cirúrgica hospitalar. Mas o futuro certamente paga essa conta, pois no mundo todo o consumo de bens eletrônicos só tende a crescer em progressão geométrica, inclusive e especialmente para veículos que estão se transformando em computadores sobre rodas, alguns já com mais de 50 centrais eletrônicas, cada uma com 100 a 200 semicondutores – ou seja, um carro com médio grau de sofisticação tecnológica produzido no Brasil consome hoje de 5 mil a 10 mil componentes eletrônicos e esse número não para de crescer ano-a-ano. Portanto, não falta mercado, o que falta é investimento.

Moraes reconhece que não vê qualquer sinalização de Brasília em aproveitar esta oportunidade. “Acho difícil, porque não há no governo ninguém preocupado com a indústria. Muito pelo contrário, muitas vezes são contra a indústria”, admite. “Se eu estivesse sentado no governo certamente daria prioridade aos semicondutores, porque isso seria pensar no futuro do País, em usar um setor industrial moderno para puxar o desenvolvimento nacional, como está acontecendo na Europa e nos Estados Unidos”, defende.

É um discurso que, embora bem-intencionado, só aparece em momentos de crise e volta ao esquecimento assim que o fornecimento asiático de peças importadas se normaliza. Outro presidente da Anfavea, Cledorvino Belini, há exatos 10 anos e logo após problemas de abastecimento causados pelo tsunami no Japão e enchentes na Tailândia, dizia não ver problema na falta de capacidade do País em produzir semicondutores, justamente quando a tendência já apontava para uso cada vez maior nos veículos: “Não vejo necessidade de fazer pecinhas aqui, o importante é agregar valor, montar aqui os circuitos e sistemas eletrônicos”, afirmava o então também presidente do Grupo Fiat na América Latina. É justo dizer que não só ele, mas muitos líderes da indústria pensam ou pensavam da mesma forma.

E assim história prova mais uma vez que pequenas peças podem causar grandes prejuízos.