
Para fazer a “pernambucanização” dos componentes a FCA se valeu da experiência da “mineirização” na fábrica da Fiat em Betim (MG), mas em Goiana esse processo ocorre à velocidade ultrassônica em comparação com a planta mineira, onde foram necessários vários anos para atingir o grau atual de localização. Também é veloz e crescente o número de funcionários do parque de fornecedores: já são 2,3 mil e devem chegar a 3,2 mil até o fim deste ano.
Para viabilizar (e agilizar) a vinda dos principais fornecedores e convencê-los a investir para atender um só cliente, a FCA bancou quase metade dos aportes de R$ 2,1 bilhões feitos no Supplier Park. Cerca de R$ 1 bilhão foi aportado para a construção dos prédios e de toda a infraestrutura industrial necessária, incluindo fornecimento de água, energia, ar comprimido, tratamento de efluentes e as ruas internas de acesso.
Outra boa parte do investimento foi feito pela Magneti Marelli, que pertence ao grupo FCA e ocupa mais da metade das instalações do parque, com 130 mil m² e quatro fábricas, duas delas por meio de associações com a Faurecia e a Sole Prima (leia aqui).
“Normalmente se instala a fábrica e depois os fornecedores vão chegando conforme o interesse. Aqui nós invertemos essa ordem e escolhemos os componentes que precisávamos ter bem perto, para acelerar a nacionalização e contornar o problema da logística, pois Goiana fica a mais de 2 mil quilômetros dos principais fornecedores do Sul e Sudeste”, explica Antônio Damião, diretor de gestão de projetos estratégicos da FCA no Brasil. Segundo o executivo, que estruturou o projeto do Supplier Park, esse processo de escolha começou em abril de 2012 com 29 empresas, das quais foram escolhidas 16, após mais de uma centena de reuniões e workshops.
SINERGIA
Damião destaca ainda que todos os fornecedores do parque em Goiana foram completamente integrados à fábrica Jeep, incluindo o uso do mesmo uniforme, nível salarial e adoção dos princípios do World Class Manufacturing (WCM), o sistema de produção implementado em todas as unidades industriais da FCA no mundo, baseado em um acervo de boas práticas para aumentar a eficiência e qualidade. A planta de Pernambuco foi construída com base em 15 mil das melhores práticas adotadas pelo grupo e alguns de seus métodos inovadores também servirão de exemplo para outras fábricas.
“Com alguns dos mais importantes fornecedores ao lado da fábrica, criamos mais sinergias com uma constante comunicação bilateral. Também integramos todo o departamento de recursos humanos como se fosse uma só empresa e dessa forma podemos aproveitar melhor todos os talentos com treinamentos integrados”, afirma Alfredo Fernandes, que desde 2013 trabalhava como gerente geral de manufatura da Chrysler em Detroit, nos Estados Unidos, e há um ano foi transferido a Goiana para ser o diretor do Supplier Park. Ele elenca ainda outras vantagens do arranjo produtivo com as 16 empresas: maior garantia de qualidade dos componentes com controle próximo, redução de custos, entregas rápidas e sem riscos e gestão integrada, com decisões rápidas e pronta reação a qualquer emergência.
Com tamanha integração, todos os componentes são fornecidos exatamente no momento e na sequência (just in time e just in sequence) que precisam ser usados na linha de montagem, onde não existem estoques.
O trabalho de convencimento parece ter sido bem feito, já que os fornecedores investiram pesadamente no projeto, trazendo para Goiana maquinário e processos produtivos tão modernos e eficientes quanto os usados na fábrica de veículos. São vários exemplos: a Denso trouxe injetoras de última geração, com trocas de ferramentas em apenas um minuto para fazer os módulos de climatização e arrefecimento do Renegade; a Lear, que fornece 100% dos bancos para a FCA, fez em Pernambuco o maior investimento da empresa este ano; a Pirelli montou uma linha automatizada para calçar pneus nas rodas; a PMC colocou nada menos que 140 robôs para soldar estruturas de chassi e dos bancos; já a Magneti Marelli se associou à Faurecia na maior fábrica do Supplier Park, 54 mil m², onde as duas dividem suas especialidades, a primeira com grandes peças de plástico injetado como para-choques e painel interno, enquanto a segunda fornece todos os instrumentos eletrônicos.
“Colocamos atenção total a este projeto, que será um exemplo para o bem ou para o mal, mas viemos porque apostamos no alto potencial de fornecimento para a FCA aqui e no mundo”, diz Max Davis Forte, presidente da Brose América do Sul, que monta em Goiana todos os módulos internos de portas e reguladores de vidros. A Brose já conseguiu até atrair um de seus fornecedores, a Sulbras, que está se instalando em Jaboatão dos Guararapes para produzir peças plásticas injetadas e ferramentais. “Além de fazer para nós também intermediamos o contato com a FCA, que vai usar a Sulbras para atender sua ferramentaria”, conta Forte.
Outra vantagem é que boa parte dos fornecedores do parque são complementares, muitos fornecem uns para os outros antes de entregar o conjunto à linha de montagem. A PMC, por exemplo, solda toda a estrutura dos bancos e entrega à Lear, que monta a espuma e costura os revestimentos para então fornecer os acentos prontos à Jeep. Também a PMC faz a travessa de aço que sustenta o painel montado pela joint venture Faurecia Magneti Marelli, que por sua vez recebe da vizinha Denso todo o sistema de climatização para ser incorporado ao painel.
Veja abaixo todos os fornecedores do Supplier Park de Goiana:
Assista abaixo a entrevista exclusiva com Antônio Damião e Alfredo Fernandez para a ABTV: