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Feliz 2016, porque 2015 já acabou

Expectativas têm o poder de forjar o futuro, infelizmente, quase sempre para pior. Afinal, se o desastre é certo, por que trabalhar pelo melhor? Responda rápido essa pergunta olhando para 2014, que tem muito a ensinar sobre o futuro. O ano começou com as piores previsões possíveis, do tipo “a Copa do Mundo será um desastre” (felizmente, só foi dentro de campo para a seleção brasileira), ou “a reeleição da presidente Dilma jogará o País ao colapso”. Ou seja, o pessimismo foi instalado nas entranhas de todos os agentes econômicos por 12 meses de desesperança. Deu no que deu: um ano de estagnação. Não se trata de defender que tudo teria sido diferente se as expectativas fossem melhores, mas certamente elas foram muito piores do que deveriam e turvaram ainda mais um cenário que já não era favorável. O problema é que o catastrofismo permanece arraigado em variadas espécies de analistas, que já trataram de condenar o próximo ano ao nada. Parece que 2015 acabou antes de sequer ter começado.
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pedro

18 dez 2014

6 minutos de leitura

Faz parte do cenário catastrófico o mercado de veículos no País: onze em cada dez executivos do setor parecem ter decorado o mesmo discurso, todos enxergam um imenso número zero nos 12 meses adiante – e alguns poucos ousam ampliar a opinião entre o nada e alguma coisa como 3% a 5% de expansão, no que entendem ser “uma hipótese boa demais para se crer”. E todos já começaram a tomar providências para que essas previsões sejam concretizadas: as fábricas estão demitindo gente, montadoras e autopeças juntas já desligaram quase 33 mil pessoas em 2014; os investimentos estão sendo atrasados; gastos passam por facões impiedosos. Está tudo certo para que, ao fim de 2015, os videntes da catástrofe digam, orgulhosos: “Viu só, eu bem que avisei, o ano foi muito ruim, acertei!”

O exemplo de 2014 também é válido para o mercado nacional de veículos. A projeção inicial da Anfavea, a associação dos fabricantes de veículos instalados no Brasil, era de que o ano teria crescimento pífio, em torno de 1%. Poucos meses passaram e tudo foi piorando, a expectativa de catástrofe iminente no mês seguinte minou a confiança de consumidores e investidores. Para piorar, a alta da inflação e dos juros aprofundou o desinteresse dos bancos em financiar carros, já que comprar títulos públicos tornou-se fonte de renda mais atraente, quase sem risco em comparação ao mercado de crédito com calotes crescentes e irrecuperáveis.

Sem ter como lutar contra o cenário recessivo instalado, piorado pela restrição de crédito na praça que financia quase 70% dos veículos vendidos no País, no meio do ano a Anfavea revisou sua previsão para baixo, passando a esperar por queda de 5% nas vendas – e admitindo, já perto do fim de 2014, que o porcentual deveria ser um pouco mais elevado. Pois tudo leva a crer que, mesmo com o aquecimento das compras no fim do ano, o resultado aponta para recuo de 8% em relação a 2013. Mas fica a pergunta: e se logo no começo de 2014 a entidade tivesse projetado a retração de 8%, alguém tem dúvida de que o resultado teria sido ainda pior? Basta lembrar que, no meio do ano, alguns analistas chegaram a apostar, com boa dose de arrogância, em declínio de 10% a 12%.

UM POUCO DE HISTÓRIA

Tirando os eventos de Copa do Mundo e eleições, os acontecimentos deste ano no mercado automobilístico brasileiro fazem lembrar a passagem de 2008 para 2009, quando a maior crise financeira internacional de todos os tempos derrubou a economia global. Após um ano de excelente crescimento de 11,4% sobre 2007, as vendas de veículos no País despencaram em novembro e dezembro, fazendo os estoques pularem para além dos 60 dias de vendas. Ou seja, 2009 estava condenado ao colapso.

Preocupado com a tempestade perfeita que se formava no horizonte, ainda em dezembro o então presidente Lula chamou o então presidente da Anfavea, Jackson Schneider, para uma conversa com a equipe econômica do governo à época: Miguel Jorge (Desenvolvimento), Guido Mantega (Fazenda) e Henrique Meirelles (Banco Central). Dessa reunião nasceu a primeira desoneração de IPI e, mais importante, foi reduzido o depósito compulsório dos bancos, o que incentivou as instituições financeiras a irrigar o mercado com crédito.

Em janeiro de 2009, de posse das previsões de catástrofe que apontavam para queda de mercado superior a 20% naquele ano, Schneider e a sua equipe na Anfavea decidiram não apresentar projeção alguma aos jornalistas, contrariando essa tradição da primeira entrevista coletiva do ano. O ex-dirigente da entidade estava convicto de que, se apresentasse números tão ruins, instalaria a crise antes que ela de fato existisse. Pois naquele ano as estimativas da Anfavea só foram divulgadas em abril, quando as medidas surtiram efeito. O resultado foi o expressivo crescimento de quase 12% sobre 2008, fazendo o mercado nacional superar pela primeira vez o marco de 3 milhões de veículos vendidos, abatendo de morte todos os urubus de plantão.

As políticas e condições econômicas já foram bem diferentes (e piores) no País. Mal comparando, crise parecida se instalou na virada de 1997 para 1998, quando, para assegurar sua reeleição, o então governo de Fernando Henrique Cardoso criminosamente segurou congelada a cotação do dólar diante do real, que ruiu em janeiro, logo após a eleição, abrindo um rombo nas contas públicas internas e externas nacionais. O Brasil apelou para o FMI, os juros básicos saltaram além dos 20% ao ano para segurar a inflação que ameaçava explodir, o desemprego pulou acima dos 15%. Para o mercado de automóveis, que pela primeira vez havia esbarrado na marca dos 2 milhões de emplacamentos em um ano, sobrou a retração de 21%, para 1,5 milhão de veículos vendidos em 1998 e 1,2 milhão no ano seguinte. Todos os analistas acertaram suas previsões naquela época, felizes pela catástrofe. Quem não gostou muito foram algumas centenas de milhares de consumidores de boa-fé, que financiaram a compra de carros com por meio de irresponsáveis contratos atrelados à variação do dólar.

E AGORA?

Não é necessário ser nenhum gênio para verificar que a situação econômica do País é melhor do que jamais esteve. A dívida pública brasileira está controlada, as reservas externas são recordes e suficientes para honrar pagamentos, o FMI não dirige mais a economia nacional, o desemprego em torno de 5% é o mais baixo da história.

Além dessas condições macroeconômicas muito melhor resolvidas do que no passado, também há vantagens na comparação entre 2014 e 2015. Para começar, o próximo ano terá cerca de um mês a mais de dias úteis do que 2014, prejudicado especialmente pelas folgas durante a Copa do Mundo. O mercado de veículos também deverá ser irrigado com mais crédito, pois existem incentivos para isso, com redução de depósitos compulsório dos bancos e a aprovação, há um mês, da nova legislação que permite a retomada mais rápida de carros de clientes inadimplentes, que antes podia levar mais de dois anos. As incertezas das eleições também não estão mais no horizonte.

Existem, portanto, condições objetivas para que 2015 seja melhor do que 2014. Contudo, o número zero parece ser um porto-seguro difícil de sair para navegar em águas incertas. O ano que vem não se mostra fácil, são aguardados duros ajustes na economia, mas não parece totalmente perdido como todos parecem acreditar. Resta saber se todas as medidas já tomadas para jogar os próximos 12 meses no lixo surtirão o efeito desejado. Se for esse o caso, então, só restará desejar um feliz 2016.