
A Ford está empenhada em garantir que seus motoristas mantenham as mãos longe do volante pelo maior tempo possível. A empresa anuncia o lançamento do BlueCruise 1.3, meses após a chegada do 1.2, que adicionou detalhes como mudanças de faixa automáticas.
Na versão 1.3, o BlueCruise é capaz de fazer curvas mais fechadas do que antes e também consegue posicionar o veículo com mais precisão dentro de faixa de rodagem estreitas. Não se trata de mudanças radicais na forma como o disositivo funciona e também não vai revolucionar a vida das pessoas que pagam até US$ 800 pelo item.
A ideia, segundo a Ford, é oferecer respostas mais rápidas e precisas. Há um ano, quando Sammy Omari ingressou na Ford, as equipes lançavam versões internas de software a cada três meses.
“Agora, temos um trabalho semanal”, garante. Omari é diretor executivo de tecnologias avançadas de assistência ao motorista da Ford e CEO da nova subsidiária de autonomia da Ford, a Latitude AI. Saiu da Motional, joint venture entre Aptiv e Hyundai avaliada em US$ 4 bilhões.
“Passar de lançamentos trimestrais para semanais inclui obviamente a implantação de um monte de recursos e também muitas mudanças de mentalidade”, disse Omari. Hoje, o foco da montadora está menos direcionado na coleta de requisitos e mais em abordar a percepção do cliente.
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Segundo Omari, esse retorno dado pelo consumidor vem em grande parte de forma espontânea: “Se você optar por participar, compartilhará dados todas as vezes. Por exemplo, usando o viva-voz, você assumirá e controlará o veículo sozinho, ou ouvirá o carro ordenando que você assuma o controle novamente.”
Ford faz análise diárias de autônomos
A equipe de Omari analisa essas intervenções diariamente, agrupadas por fatores como localização geográfica, veículo e tipo de estrada. A partir disso, os engenheiros da Ford expandiram a operação de seu Sistema Avançado de Assistência ao Condutor (Adas), permitindo que mais motoristas passem mais tempo sem as mãos no volante.
De acordo com a empresa, melhorias como esta fazem parte da estratégia da Ford de se tornar também uma companhia voltada à prestação de serviços, não apenas uma montadora.
“Assim como a Netflix fornece novos conteúdos constantemente, temos de agir da mesma forma. Se alguém estiver utilizando o BlueCruise, receberá atualizações contínuas da mesma maneira”, garante Omari.
Inspiração na Apple
Não é apenas a Netflix que inspira a maneira de agir da Ford. Talvez em um aceno a Doug Field, diretor de tecnologia e desenvolvimento de produtos avançados da Ford, contratado da Apple em 2022, Omari diz que a Ford também está procurando inspiração em Cupertino, cidade do Vale do Silício e por isso próxima a várias empresas de tecnologia.
“Estamos falando Adas, mas isso é também muito mais do que Adas. Lidamos com a capacidade da Ford de ter uma base instalada de hardware em muitos de nossos veículos”, disse Omari. “Da mesma forma que a Apple tem iPhones, independentemente do modelo 10, 11, até o 14, e eles podem lançar atualizações do iOS regularmente. Pensamos sobre isso exatamente da mesma maneira.”
Levando isso em conta, pode-se deduzir que as mudanças aplicadas em diferentes anos-modelos de cada carro estão se tornando menos relevantes.
Embora Omari tenha se recusado a listar especificamente quais são os próximos recursos e funções do BlueCruise, ele não descartou que a tecnologia, sem intervenção da Ford, seja capaz de conduzir os motoristas para fora das rodovias protegidas, áreas urbanas ou rurais.
“Queremos basicamente entender onde nossos clientes estão usando os veículos e, em seguida, expandir a atuação nessas áreas”, disse ele. No entanto, há uma fronteira onde o BlueCruise, pelo menos em sua forma atual, não irá: dirigir sem olhar.
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A chamada direção de nível 3, em que o carro pode cuidar de si mesmo em algumas situações, mas pode devolver o controle ao motorista, não é possível no hardware atual encontrado no Mach-E ou na F-150 Lightning.
“Precisamos de um novo hardware e a razão para isso em grande parte é a redundância”, disse Omari. Isso inclui redundância de detecção, da forma como vários sensores cobrem o veículo em 360 graus e também a redundância quando se trata de recursos de controle, como na direção.
Essa redundância de hardware não é algo que pode ser adicionado a partir de uma atualização remota à linha atual. Em vez disso, a verdadeira assistência ao motorista, do tipo que a Mercedes recebeu recentemente aprovação para vender, só virá na próxima geração de veículos elétricos da Ford, prevista para 2025.
Essa funcionalidade não exigirá apenas novos níveis de hardware para habilitar, mas também novos softwares mais refinados. No momento, parte da “percepção” do BlueCruise, que é o primeiro nível de processamento de informações dos vários sensores do carro, é manipulada por um software licenciado da Mobileye.
Isso pode mudar na próxima geração: “Não conversamos especificamente sobre até que ponto continuaremos a usar a Mobileye no futuro. Mas acabamos de trazer a equipe Latitude no início deste ano, que tem um número grande de engenheiros muito experientes”, diz Omari.
Migração entre as empresas
Muitos dos trabalhadores deslocados do projeto Argo AI têm novos empregos e um novo propósito. Omari diz que cerca de 550 colaboradores, em grande parte ex-funcionários da Argo, agora estão trabalhando com a Latitude, nova divisão de direção autônoma da Ford que, de várias maneiras, está “juntando pedaços” resultantes do encerramento abrupto do projeto Argo AI, ocorrido em outubro de 2022.
É um movimento confuso criar uma nova divisão de autonomia tão rápido, após eliminar a anterior, mas Omari diz que o objetivo é muito diferente. “A Argo era focada em robotáxis de nível quatro de autonomia (…) que, em termos de viabilidade técnica e comercial, ainda têm um longo caminho a percorrer”, ressalta o executivo.
“Ao mesmo tempo, com o L3, temos um produto que sabemos que nossos clientes adoram e temos um caminho muito claro para construí-lo do ponto de vista tecnológico.” Omari acrescenta que o caminho para a viabilidade comercial é muito mais curto: “O momento em que for possível tirar os olhos da estrada será é uma grande virada de jogo. As pessoas estão dispostas a pagar alto por isso.”
O objetivo da Latitude, assim, não é criar veículos para passageiros totalmente autônomos sem motorista do tipo que a Waymo e a Cruise vêm desenvolvendo há anos. Em vez disso, a mudança está de volta às tecnologias que podem ser implantadas para levar pessoas com mais rapidez e lucratividade.
O pacote de sensores Argo AI, montado no teto de seus veículos de teste, custa mais do que os próprios carros. Para um pacote de opções em um veículo de linha da Ford em curto prazo, a acessibilidade será a chave.
Ainda não se sabe como é exatamente esse sistema futuro da Latitude e quanto custará. Por enquanto, porém, a versão 1.3 do BlueCruise chegará a todos os SUVs Ford Mustang Mach-E ainda este ano. Os proprietários da F-150 Lightning com BlueCruise terão que esperar um pouco mais, mas Omari promete antes da virada para 2024.