
A mais nova versão do Cargo abre a porta de entrada da Ford no segmento de caminhões com motorização acima de 400 cavalos e capacidade até 56 toneladas. O veículo é foi desenvolvido em conjunto pelos centros de engenharia do grupo localizados em Camaçari (BA), no Brasil, e Otosan, na Turquia, já projetado para atender a mercados na Europa, Ásia e América do Sul. “É o primeiro projeto global de caminhões da Ford que fazemos aqui”, informa João Marcos Ramos, chefe de design da Ford Camaçari, um dos oito estúdios da companhia no mundo, onde as linhas do Cargo extrapesado foram desenhadas seguindo os mesmos padrões da atual geração da família lançada em 2011. “Levamos em consideração que os frotistas também querem uma boa imagem para seus veículos”, resume Ramos.
No mercado brasileiro a oferta será de cavalos mecânicos com tração 6×2 e 6×4, as duas configurações que respondem por mais de 60% das vendas de extrapesados no País. “Existem algumas diferenças entre o modelo feito na Turquia e aqui, mas são adaptações de mercado. O conjunto de trem-de-força, chassis e desenho de cabine é o mesmo nos dois países”, disse Oswaldo Jardim, diretor de operações de caminhões da Ford América do Sul. Ele revelou ainda que o novo Cargo extrapesado vai usar motor FPT, diferente dos demais integrantes da linha Cargo, que usam os Cummins feitos em Guarulhos (SP). A FPT é uma divisão da Fiat Industrial de motores diesel que tem fábrica em Sete Lagoas (MG), no mesmo complexo industrial onde funciona a concorrente Iveco, o braço de caminhões do grupo italiano. Ainda não está confirmado, mas o Cursor 13, de 13 litros, usado pela Iveco no Brasil nos Stralis em versões de 400, 440 e 480 cavalos, é o propulsor da FPT mais indicado para o modelo que a Ford pretende introduzir.
Para o Brasil a Ford ainda não revelou o detalhamento técnico nem preços do Cargo extrapesado, pois ele só será vendido aqui no segundo semestre. A empresa fez apenas a apresentação de um protótipo a jornalistas brasileiros, para não ficar atrás da Turquia, onde o modelo foi lançado oficialmente e já começa a ser vendido na mesma quarta-feira, 23. “O caminhão foi desenvolvido em conjunto nos dois países, mas havia mais pressa em lançar na Turquia, para aproveitar o mercado de extrapesados que chega a 40% do total das vendas”, explicou Jardim.
SEGMENTO RENTÁVEL E CRESCENTE
É nesse rentável segmento, único que a Ford não tinha produtos a oferecer, que a fabricante espera estar em breve também no Brasil, onde as vendas de caminhões extrapesados movimentam quase R$ 11 bilhões por ano, ou 40% do faturamento total do mercado de veículos comerciais acima de 3,5 toneladas de peso bruto total (PBT), segundo cálculos apresentados por Jardim. “O segmento é muito importante, porque é garantia de receita e boas margens”, afirma o executivo.
Ele lembra ainda que as vendas de extrapesados vêm crescendo no País, de 20,5 mil unidades em 2009 (20,5% do mercado) para quase 40 mil em 2011 (23%) e 33,7 mil no ano passado (24,6%); mesmo com o tombo sofrido pelo setor com a mudança na legislação de emissões e arrefecimento da economia.
“Estamos entrando no segmento só agora porque o mercado cresceu e oferece escala para justificar os investimentos que teríamos de fazer para oferecer o produto”, diz Jardim. Ele acrescenta que o Cargo extrapesado tem índice de nacionalização acima de 60% e, portanto, poderá ser financiado pelas taxas atrativas do BNDES Finame/PSI, de 3% ao ano agora e 4% a partir do segundo semestre.
“Existem lugares no mundo em que as vendas de extrapesados representam quase 40% do mercado, como na Turquia, mas aqui também o segmento tende a crescer”, aposta Jardim. Ele avalia que o potencial aumenta nos próximos anos, com a esperada retomada da expansão da economia para 3% a 4% ao ano, safras agrícolas de grãos que avançam de 2% a 3% ao ano, além das obras de infraestrutura programadas no PAC, Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas de 2016. Com isso, as projeções da Ford apontam para crescimento do mercado de caminhões na casa dos 7% a 10% nos próximos anos – a estimativa para 2013 é de 150 mil unidades, número 8% maior que o de 2012.
COMPETIÇÃO ACIRRADA
As boas notícias, contudo, não foram ouvidas só pela Ford. Por isso novos competidores estão chegando ao segmento de caminhões extrapesados no Brasil, como a holandesa DAF, as chinesas Sinotruk e Shacman e a alemã MAN. Além disso, existem os fabricantes já tradicionais, como Mercerdes-Benz, Scania e Volvo, quase todas com planos de expansão.
Para entrar nesse mercado com chances de ganhar participação relevante, Jardim aposta em dois fatores: a oferta de um produto com bom custo-benefício – os preços do segmento giram de R$ 350 mil a 400 mil – e o tamanho de sua rede, atualmente de 140 pontos de venda em todo o País. O executivo destaca que a Scania tem 97 concessionárias e a Volvo 88. “Se competidores tão importantes desse segmento têm menos de 100 lojas, nós com mais de 100 podemos manter relacionamento mais próximo dos clientes, o que é um dos fatores mais importantes para compradores de extrapesados”, afirma.
Jardim cita uma pesquisa da Ford com os potenciais clientes de extrapesados, em que dentre os fatores de escolha por uma marca ou outra, a maioria das respostas converge para resistência do veículo (20%), praticidade e potência (19%), relacionamento (14%), design e tecnologia (11%) e tradição e presença (10%). “As qualidades intangíveis são muito importantes nesse segmento, normalmente bastante mimado”, explica.
A Ford ainda não espera que o novo Cargo extrapesado tenha o mesmo bom desempenho de vendas do maior modelo da linha oferecido até agora, o cavalo mecânico C 1933, um caminhão pesado capaz de puxar até 47 toneladas, com participação de mercado em sua faixa de peso que cresceu de 8, 2% em 2010 para 11,5% em 2011 e 18,7% em 2012.