
Para Lukaszewicz, para que o carro autônomo se torne uma realidade nas ruas, os sistemas que independem das montadoras, como gerenciamento de tráfego ou o big data na nuvem devem evoluir na mesma proporção ou pelo menos apontar para a mesma direção. “Um carro 100% autônomo depende das condições externas. Acredito que o adequado seja um ambiente controlado, com mapas em alta definição e alta precisão, além de outras condições que estejam sob controle, como estradas onde não há incidência de pedestres. Neste contexto, a Ford poderá fornecer carros autônomos nível 4 em até cinco anos”, revela, considerando que veículos nível 5, segundo a tabela de especificações da SAE, se refere a um veículo 100% autônomo enquanto o nível zero refere-se a um veículo sem assistência nenhuma.
O engenheiro aponta que grande parte do que a montadora produz e desenvolve atualmente está intimamente ligada à evolução da direção autônoma aliada a conectividade, principal característica das inovações da marca. Segundo ele, a conectividade dos veículos, já presente em toda a linha da Ford no mundo, será a chave para os sistemas avançados de assistência ao motorista do futuro, fornecendo alertas sobre situações fora do seu campo de visão. Neste âmbito, a montadora trabalha com duas vertentes: a comunicação veículo-a-veículo (V2V) e veículo-a-infraestrutura (V2I), usando a tecnologia W-LAN e rede de celular, com coleta e processamento de dados no veículo pelo sistema Sync.
“A infraestrutura de comunicação veículo-a-veículo vai trazer maior segurança nas pistas, aumento da eficiência e melhoria no fluxo de tráfego, além de possibilitar informações sobre clima e tráfego em tempo real”, disse. “Além disso, os veículos podem ser usados como sensores para melhorar o fluxo de tráfego, como por exemplo, nos semáforos.”
É cada vez mais evidente a inclusão maciça de diferentes softwares para a realização de funções mais automatizadas, processo que ele denomina como blocos construtivos: “São inovações que buscam aumentar a automação até atingir totalmente a direção autônoma”. Outro dado abordado por ele é a oportunidade de soluções e serviços que podem surgir para carros conectados a partir da análise e compreensão dos dados que surgirão na nuvem a partir do aumento da automação, seja dos veículos, seja da infraestrutura. “Tal análise poderá contribuir também na indústria, como por exemplo, para reduzir o tempo de produção desde a entrada do pedido até a chegada do veículo ao cliente.”
SEGURANÇA COMO PRIMÓRDIO
O maior desafio quanto à chegada do carro autônomo nas ruas está exatamente na manutenção da segurança, primícia para o desenvolvimento de tecnologias deste tipo. Dúvidas relacionadas à capacidade totalmente independente do veículo em prever situações e evitar colisões ou mesmo atropelamentos ainda circundam as mesas de planejamento das engenharias. “Existem alguns tipos de recursos que ainda precisam da intervenção do motorista”, diz Lukaszewicz. “Todos os sensores atuais têm vantagens, mas também têm limitações. Exemplo: onde há incidência de neve, como garantir que o veículo continuará andando entre as faixas? Para um carro 100% autônomo, o ambiente precisa ser controlado.”
As novidades que despontam em veículos novos da marca dizem respeito especialmente à segurança, seja ativa, como sistemas de frenagem autônoma, seja passiva, como cintos de segurança infláveis, que reduzem em até cinco vezes o impacto no tórax em caso de colisão.
Uma pesquisa global conduzida pela montadora aponta que segurança contra acidentes aparece como o principal item de decisão de compra dos veículos da marca, citado por 95,7% dos clientes, à frente de preferências como garantia (95,2%), economia de combustível (94,7%) ou ainda relação custo versus benefício (94,2%).
“O que está mudando hoje é a relação de consumo e a evolução dos produtos, apontando para novas tendências de desenvolvimento”, afirma João Filho, diretor de engenharia da Ford para a América do Sul.
A partir deste contexto, a montadora procura aumentar os esforços para introduzir em sua gama de produtos novas tecnologias a fim assegurar a segurança. No Brasil, a marca dispõe de alguns desses itens a partir dos lançamentos de veículos realizados recentemente, caso do New Fiesta, primeiro compacto no mercado nacional com sete airbags.
“Nosso objetivo é oferecer os veículos mais seguros em todos os segmentos do mercado com os equipamentos mais avançados de segurança e isso inclui ter todos os nossos modelos avaliados pelo Latin NCAP até o fim deste ano, com a obtenção da classificação de cinco ou no mínimo quatro estrelas de segurança”, enfatiza Filho.
Embora mercados mais maduros como os da Europa e os Estados Unidos estejam anos luz à frente do Brasil quando o assunto é tecnologia em segurança, Filho lembra da evolução que o País viveu ao longo dos últimos 30 anos: “O primeiro item de segurança no Brasil foi o cinto de segurança, que chegou em 1970, mas só foi regulamentado em 1997 em âmbito nacional, seguindo o exemplo de São Paulo, que tornou o uso obrigatório em 1994”.
Ele cita que com a abertura dos portos para a importação de veículos no início da década de 1990 iniciou a cobrança por veículos nacionais mais seguros, processo que tem a lentidão como característica, uma vez que as fábricas existentes aqui e outras interessadas em produzir localmente precisavam adaptar os modelos e investir nessas novas tecnologias. Por outro lado, a regulamentação desses itens também é um processo tradicionalmente demorado, esbarrando na burocracia ou na falta de tempo da indústria para adaptação.
Passados 10 anos, portanto, desde o ano 2000, o consumidor brasileiro começou a contar com modelos que aos poucos introduziram itens no mercado como sistema antifurto, freio a disco, airbag, freios ABS, Isofix, entre outros. Produtos mais sofisticados, como piloto automático, frenagem autônoma, controle eletrônico de estabilidade (ESC), assistente de partida em rampas, monitoramento de ponto cego, assistente de emergências e até assistência de frenagem emergencial são exemplos de itens que a montadora começa a trazer para seus veículos vendidos no Brasil a partir da estratégia de atuar somente com plataformas globais.