
Por isso a Ford remodelou completamente a fábrica de Horizonte e seu único produto, o fora-de-estrada T4, com investimento de R$ 215 milhões – algo como três meses de isenções de IPI nos produtos feitos em Camaçari. Os recursos vêm do mesmo pacote de R$ 2,8 bilhões que a Ford investiu em suas operações no Nordeste.
Durante uma cerimônia em Horizonte que marcou o início da produção do novo T4 na fábrica totalmente modernizada, na quinta-feira, 17, o governador do Ceará, Cid Ferreira Gomes, destacou o empreendedorismo dos fundadores da Troller ainda no fim dos anos 1990, quando fabricavam buggys. E lembrou que “foi fundamental a integração com o governo federal para tornar possível o negócio com a Ford”. Logo após o Natal de 2006, o governo federal publicou decreto em que autorizava a compradora a “herdar” os benefícios fiscais para todas as suas operações na mesma região, desde que a fábrica comprada fosse mantida funcionando com o mesmo nível de emprego e atividade. “Na época a Ford prometeu investir e hoje cumpriu essa promessa com o investimento de R$ 215 milhões. Espero em breve ver a produção dobrar de 1,2 mil para 2.640 por ano. Não tenho dúvida que há mercado no Brasil para isso, com novas aplicações para o T4 feito aqui”, disse o governador.
“O investimento feito aqui faz parte de nossa estratégia de competitividade. É para que o negócio seja sustentável. Quando compramos a Troller dissemos que iriamos levar o T4 para o próximo nível. Muita gente estava cética na época, mas é isso que estamos fazendo agora”, justificou Rogelio Golfarb, vice-presidente de assuntos institucionais da Ford América do Sul. Segundo ele, a completa remodelação do T4 deverá abrir novas oportunidades de mercado para o jipe fora do uso meramente recreativo, como frotas de segurança, polícia e mineração. “Esta é a grande porta que se abre para a Troller”, disse.
Para Golfarb, o Troller T4 é agora “um produto nacional com padrão mundial”. Ainda assim, não existem planos de exportar o modelo no momento. É certo que, por causa de seu método construtivo, com fibra de vidro aplicada sobre estrutura tubular, o carro tem cabine frágil e não passaria em testes de segurança mais rigorosos. Por ser destinado a encarar trilhas fora-de-estrada, nem sequer tem airbags frontais – a legislação brasileira permite essa isenção para veículos off-road, sob alegação de que ao encarar trilhas as bolsas de ar poderiam se abrir acidentalmente. Nada que uma chave não resolva, mas os fabricantes temem que o motorista esqueça de ligar o equipamento novamente na estrada e, em caso de acidente, venha a culpar a montadora pelo airbag não ter funcionado.
FÁBRICA NOVA
A unidade de produção do T4 também precisou passar por completa remodelação para fazer o novo carro. No terreno de 95 mil metros quadrados foram instaladas pistas de testes e a área construída da fábrica foi ampliada de 16 mil para 21 mil metros quadrados.
A principal mudança está na produção das 43 peças de fibra de vidro que compõem a carroceria do T4. Antes moldadas à mão em camadas, agora as partes são prensadas a quente, no processo conhecido como Sheet Moulding Compound (SMC), o mesmo usado para fabricar carrocerias de carros esportivos como o Mustang GT. Mas o maquinário usado em Horizonte, segundo a Ford, foi comprado de empresa brasileira.
Depois de estampadas, as partes de fibra são coladas por três robôs. A carroceria completa é aplicada sobre uma estrutura tubular de aço, com três colunas. Após pintadas e polidas, as cabines passam pela montagem final e são encaixadas sobre um chassi especialmente desenhado para o T4, mas que abriga o mesmo trem-de-força da picape Ford Ranger: motor 3.2 turbodiesel de 200 cavalos com câmbio manual der seis marchas Getrag – fabricante alemão de transmissões controlado pela Ford. No caso do T4, é usado o câmbio feito pela Getrag Jiangxi Transmission, da China.
Com todas as melhorias recebidas, a cadência de produção deu um salto. Antes a fábrica de Horizonte podia produzir seis unidades por dia em um turno de produção. Agora, com os mesmos 400 funcionários no mesmo turno, o ritmo pode subir para 10/dia e chegar até 12. “Nossa expectativa é mais que dobrar as vendas com o novo T4. Já é possível atender essa demanda apenas com a modernização da planta. Mas se precisarmos poderemos, no futuro, adotar mais um turno”, explica Wilson Vasconcellos Filho, gerente de vendas, marketing e serviços da Troller.