
O executivo enumerou no evento uma série de novas tecnologias que estão sendo agregadas aos carros de todos os segmentos em que a marca atua, como a direção elétrica, o sistema de partida a frio que elimina o tanquinho de gasolina e itens como o Bluetooth, que equipa desde a versão mais básica do New Fiesta que entrou em produção na fábrica de São Bernardo do Campo (SP). Golfarb garante que a estratégia da Ford é agregar conteúdo sem grande impacto no preço.
Dessa forma, a companhia pretende atender as maiores exigências desde seus carros mais básicos. “O consumidor tem demandas que independem do poder aquisitivo. Todos querem, por exemplo, sincronizar o celular com o carro. Pesquisas mostram que o consumidor jovem é ainda mais exigente do que o da minha geração”, conta. O executivo explica que esses novos clientes querem ter dentro do carro a mesma sensação de conectividade que têm ao usar um tablet.
A evolução tecnológica dos automóveis da fabricante esbarra, no entanto, na ausência de fornecedores locais de componentes eletrônicos. Golfarb não revela quanto a Ford precisa importar atualmente para conseguir incluir essas inovações em seus carros. Segundo ele, grande parte desses componentes chega nas linhas de montagem da companhia por meio de conjuntos e sistemas produzidos por seus fornecedores.
A falta de fabricantes locais dessas autopeças vai na contramão da exigência do Inovar-Auto de aumento do conteúdo regional. Como parte do novo regime automotivo, o governo rastreará a origem de 85% dos componentes que compõem um carro. Segundo o executivo, a demanda por mais tecnologia será impulsionada, principalmente, pelas metas de redução de consumo de combustível e de emissões de poluentes impostas pelo programa. “A eletrônica, muito mais do que a mecânica, é o que torna o carro mais eficiente”, determina.
O vice-presidente entende que a indústria de autopeças eletrônicas nunca se formou nacionalmente por falta de demanda. “Essas empresas necessitam de uma escala muito grande para se tornarem viáveis. Hoje já temos esse volume, mas precisamos de incentivos para que a cadeia se forme”, aponta. Golfarb espera que as medidas do Inovar-Peças, que pretendem estimular a cadeia de suprimentos, desatem esse nó. “Espero que essa política fomente a criação de fornecedores locais.”
A VISÃO DO GOVERNO
A postura da companhia está desencontrada com a expectativa do governo. Em conversa com jornalistas no mesmo evento, Heloísa Menezes, secretária de Desenvolvimento da Produção do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), avisou que o incentivo ao surgimento de fornecedores de componentes eletrônicos é responsabilidade das montadoras (leia aqui). “Essa é uma das contrapartidas das empresas para o Inovar-Auto. Eles devem investir nos sistemas necessários”, esclarece. Segundo ela, a iniciativa se adequa às exigências de desenvolvimento de fornecedores e de investimento em inovação.
AUMENTAR PRODUTIVIDADE PARA REDUZIR PREÇO
O vice-presidente da Ford alertou também sobre a necessidade de aumentar a produtividade na indústria local. “É esse aspecto que permite que eu agregue mais tecnologia sem grandes escaladas de preços”, explica. Para Golfarb, o ganho de produtividade é essencial para que os fabricantes instalados no Brasil ampliem suas exportações seguindo a meta da Anfavea, que pretende vender 1 milhão de veículos brasileiros no mercado internacional em 2017.
“A entrada de players como China e Coreia no mercado global mudou os parâmetros de preço e conteúdo”, acredita. Segundo ele, a corrida pelo aumento da produtividade afeta também os países com economias maduras, que tiveram de sair da zona de conforto para não perder negócios. Golfarb avalia que, além de uma indústria bem estabelecida, o Brasil precisa de políticas industriais de longo prazo para ganhar competitividade.
HÍBRIDO É ALTERNATIVA PARA O BRASIL
Para Golfarb, apesar de o Inovar-Auto não trazer medidas para carros híbridos e elétricos, o programa foi um importante primeiro passo, que abriu a perspectiva de medidas posteriores. Heloísa Menezes, do MDIC, garantiu que o governo está ciente da necessidade de desenvolver uma política para modelos com a tecnologia. “Estamos negociando isso com a Fazenda”, garante, sem estipular prazos.
O executivo da Ford endossa que “é essencial criar esse segmento no Brasil”, falando não apenas da necessidade de desenvolver uma tributação específica, mas de incentivar a formação desse mercado. “Não temos preços de revenda ou de seguros para esse tipo de carro, por exemplo.”
Para a companhia, os modelos híbridos, que combinam a propulsão a combustão e a elétrica, são alternativa interessante para o mercado nacional. Golfarb estima que, com eles, seria possível aproveitar a ampla oferta de combustíveis do Brasil, criando carros a etanol, biodiesel e gás natural. Apesar da boa perspectiva, hoje o único modelo da Ford com a tecnologia a venda no Brasil é o Fusion Hybrid. Sem uma política específica para carros mais ecológicos, o automóvel é mais uma ferramenta de marketing do que uma fonte de receitas para a marca no País.
O executivo prevê que a eletrificação veicular virá em etapas. A primeira delas, já para o curto prazo, é a propagação do uso de sistemas eletrônicos, como dispositivos de conectividade e gerenciamento do motor, por exemplo. Em seguida, no médio prazo, ele projeta o avanço dos carros com propulsão híbrida. A terceira etapa, apenas no longo prazo, é a proliferação dos carros elétricos e de tecnologias como célula de combustível.
