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GWM busca parceiros para fazer caminhões a hidrogênio no Brasil

Empresa não descarta acordos com montadoras locais para acelerar desenvolvimento da tecnologia
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Vitor Matsubara

19 ago 2024

5 minutos de leitura

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A GWM é uma das várias marcas chinesas que investem no desenvolvimento de biocombustíveis.

Além da eletrificação de sua frota de automóveis de passeio, a empresa aposta no sucesso da FTXT, subsidiária especializada na tecnologia de célula combustível, para fazer caminhões movidos a hidrogênio – inclusive no Brasil.

A vinda da empresa para cá seria facilitada por parcerias firmadas com empresas locais – e é por isso que a GWM está disposta a conversar com companhias estabelecidas no país.


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“Nós temos interesse (em financiar um projeto) e estamos abertos a conversas com qualquer parceiro interessado em se juntar ao projeto. É por isso que, inclusive, queremos nos aproximar das montadoras presentes no país porque elas conhecem muito bem o mercado brasileiro”, revelou Bea Xiao, gerente de planejamento de produto da divisão Overseas da FTXT Energy Technology.

FTXT enaltece parceria com universidades brasileiras

Até a data da realização da entrevista, a montadora chinesa havia visitado universidades como a USP (Universidade de São Paulo) e a Unifei (Universidade Federal de Itajubá), que investem recursos no uso de hidrogênio como combustível alternativo para automóveis de passeio e veículos pesados.


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Xiao elogiou o trabalho realizado pelas instituições e disse que a proximidade com eles pode ser importante para acelerar a chegada das tecnologias de hidrogênio desenvolvidas pela FTXT, que conta com o apoio financeiro do governo chinês para desenvolver projetos relacionados à descarbonização.

“O governo chinês concede incentivos muito altos para a descarbonização da frota. Além desse apoio, nós contamos com uma estrutura muito forte de TI formada por mais de oito mil funcionários, sendo que mais de 150 são do mais alto nível de pesquisa e desenvolvimento”, declarou Bea.

Empresa surgiu em 2000 e se especializou em pesados

A FTXT nasceu nos corredores da Universidade de Xangai e se tornou uma empresa própria em 2000. Desde então, a empresa já desenvolveu várias tecnologias de descarbonização com foco na célula combustível movida a hidrogênio.

Embora esteja aberta a trabalhar com qualquer montadora de veículos, a FTXT atua de forma mais próxima com a IF (como “if”, ou “se”, em inglês), marca de caminhões da GWM que já lançou 527 veículos comerciais no mercado chinês.

Segundo a FTXT, os pesados foram testados em mais de 15 milhões de quilômetros por toda a China.

“Vários caminhões rodaram e ainda rodam pela China para coletar informações relacionadas a desempenho e funcionamento. Isso nos fornece uma quantidade substancial de informações para serem analisadas e aplicadas em diversos mercados, inclusive no Brasil”, disse a executiva.

Caminhão virá ao país para demonstrações

A FTXT, aliás, vai trazer, nos próximos meses, um de seus caminhões para participar de testes no Brasil. A ideia é utilizá-lo em demonstrações para potenciais interessados em participar do desenvolvimento da tecnologia.

“Nós acreditamos que seria importante realizar demonstrações da nossa tecnologia, e por isso vamos trazer um dos nossos caminhões para cá ainda neste ano. Estamos conversando com parceiros locais, inclusive universidades como a USP, para mostrar as diferentes possibilidades de rodagem e aplicações”, afirmou.

Trata-se de um veículo extrapesado de 49 toneladas cuja autonomia varia, mas ele tem oito tanques de armazenamento, sendo que cada um deles comporta 210 litros, ou 5 kg de hidrogênio. Juntos, eles resultariam em 40 kg de hidrogênio que seriam suficientes para rodar aproximadamente 400 km.

“Nossa ideia é verificar como o veículo se comportaria no Brasil para, a partir daí, pensar nas fases seguintes do nosso projeto”, complementou Bea.

FTXT não vai financiar infraestrutura

Xiao sabe que a falta de infraestrutura no Brasil é um dos maiores empecilhos para o uso do hidrogênio como combustível em escala comercial, e que a situação em seu país de origem é bem diferente da daqui.

“Na China a rede de recarga é mais madura em relação a outros países, uma vez que o governo patrocinou a construção de 420 estações pelo país, sendo que 128 delas já estão em uso na China. Além disso, as plataformas utilizadas pelos caminhões são subsidiadas pelo governo chinês e os caminhões podem ser alugados por meio de leasing para qualquer empresa”, disse.

Mesmo assim, a FTXT não pretende financiar a construção de pontos de abastecimento de hidrogênio, mas que tem planos de parcerias também neste sentido. 

“Não há como fazer um veículo rodar sem estações de recarga. Falamos com a USP sobre o desenvolvimento de estações, e uma delas estará pronta para funcionar ainda neste ano. Também conhecemos a Unifei e ficamos impressionados com o projeto deles. Eles construíram um tipo de estação de recarga muito sólida e avançada que podemos adaptar para nosso projeto. Nós não desenvolvemos estações de recarga, mas estamos trabalhando com um parceiro no Brasil chamado Hytron, que é muito bom na construção e integração das estações de recarga”, afirmou Bea.

Parcerias podem acelerar oferta do hidrogênio no Brasil

Perguntada sobre o uso do etanol na estratégia de descarbonização, a executiva da FTXT reconheceu a importância do combustível derivado da cana-de-açúcar, porém acredita que o hidrogênio pode ser a melhor saída para os pesados.

“Sabemos que o etanol é a chave para a descarbonização da indústria automotiva, mas acreditamos que o hidrogênio surge com muito potencial no setor de veículos comerciais, especialmente no caso dos caminhões”.

Caso encontre parceiros locais, a FTXT acredita que estará mais perto de oferecer sua tecnologia no Brasil.

“Precisamos nos certificar de que vamos entregar o produto apropriado para o mercado e poderíamos até localizar os processos de engenharia e manufatura no país, e por isso estamos abertos a conversas e negócios”, concluiu Bea.