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Híbrido flex será o novo básico do Brasil?

Painel sobre descarbonização no #ABX24 discute tendências energéticas dos futuros modelos produzidos no país com boa notícia: o etanol estará entre elas
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Eduardo Pincigher

09 out 2024

6 minutos de leitura

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Desde a chegada dos primeiros modelos eletrificados ao mercado nacional, em 2019, as discussões sobre as matrizes energéticas que irão encabeçar o futuro dos automóveis no mercado brasileiro são constantes nos corredores de associações de classe e das próprias marcas que comercializam veículos no país.

Ninguém quer errar. Há aqueles que apostam diretamente em modelos 100% elétricos a curto ou médio prazo. Outro grupo é mais prudente e mantém investimentos nos carros a combustão, criando uma ou outra alternativa com zero emissões em seu line-up.


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E há até quem invista tudo nos híbridos, e com as mais variadas tecnologias que eles permitem (micro-híbrido, híbrido leve, plug-in etc). A esse último grupo, destaca-se a expectativa de aproveitar um patrimônio da engenharia automotiva brasileira, que é o etanol.

É cedo para dizer se algum dos grupos descritos vai errar lá na frente. Mas já é possível garantir que a turma dos “híbridos a etanol” vai acertar em cheio. Não se sabe quais serão as soluções para daqui a 10 ou 20 anos. Mas que essa categoria estará entre elas, ninguém duvida.

A relevância do etanol e do híbrido flex para o Brasil

Durante o Automotive Business Experience – #ABX24, realizado na São Paulo Expo no último dia 30, um dos painéis fazia exatamente essa provocação: “Carro híbrido flex será o novo básico no Brasil?”.

Coordenado pelo consultor Fernando Trujillo, da S&P Global, o debate reuniu três especialistas no tema: Janayna Bhering, coordenadora da Plataforma Nacional de Mobilidade Elétrica (PNME), Fábio Ferreira, diretor de produtos Powertrain Solutions da Bosch, e André Ferrarese, coordenador do comitê técnico de pesados da MBCB.

Trujillo iniciou o painel questionando a relevância do etanol nesse cenário que se avizinha no futuro da mobilidade do país. As opiniões foram unânimes. Janayna Bhering, da PNME, reiterou que o primeiro valor a ser considerado no futuro da mobilidade brasileira é a descarbonização.

“Essa é a bola da vez. E a nossa matriz energética, quando lembramos do etanol, nos favorece. Há uma grande oportunidade de sermos protagonistas visto que é uma tecnologia que já dominamos e o etanol pode nos ajudar nesse período de transição energética”, garantiu.

Fábio Ferreira lembrou que foi a Bosch que desenvolveu o primeiro sistema flex fuel no país, no início da década de 1990.

“O etanol não só é menos poluente como combustível. Temos que destacar o quanto sua cadeia de produção reduz a emissão de CO2”, destacou, lembrando de todo o processo de crescimento dos pés de cana-de-açúcar, que retira dióxido de carbono da atmosfera.

Pesados híbridos a etanol em desenvolvimento

Já André Ferrarese destacou as aptidões do etanol na hibridização de veículo comerciais, notadamente os de last mile, com aplicação urbana.

“O híbrido possui menos baterias, o que o aproxima em preço dos veículos a combustão”, lembrou. E trouxe uma novidade: “Novas tecnologias voltadas à hibridização, envolvendo diesel e etanol, estão sendo desenvolvidas para modelos ultra pesados, em especial da Caterpillar e da Komatsu”, adiantou.

O executivo da Bosch, na deixa do colega, lembrou que os sistemas flex já estão presentes desde os motores pequenos de motocicletas, passando por automóveis e, agora, chegam aos pesados. E fez um apanhado histórico.

“Temos de lembrar que tudo isso foi iniciado nos anos 90 com o Proconve e ganhou corpo com o Inovar-Auto e o Rota 2030. Com o Mover vamos adicionar na agenda a questão da origem da matriz energética”, disse Ferreira, ratificando a virtuosidade do etanol.

O executivo foi além: “É fácil mostrar que a melhor solução que temos como país é manter o sucesso do flex, manter o etanol e introduzir a eletrificação em conjunto”.

Etanol faz parte da cultura automotiva

Janayna Bhering destacou o capital intelectual no desenvolvimento do etanol que existe na cultura automotiva do país. “Temos uma grande oportunidade de desenvolver isso nacionalmente. Já somos exportadores de talentos e essa é uma oportunidade de assumir os próximos passos dessa inovação dentro do país”, lembrou.

A coordenadora do PNME mencionou que o grande desafio é estabelecer uma política interministerial de médio e longo prazo que possa nortear as áreas de Pesquisa & Desenvolvimento das próprias montadoras. “Tem que ser uma política de Estado, não só de Governo”, salientou.

Ferrarese trouxe à discussão o desenvolvimento de combustíveis sintéticos como uma das alternativas tecnológicas planejadas na Europa. Ele esclareceu que a matriz desses estudos é o metanol.

“Não ficamos distantes de criar uma plataforma de exportação no futuro com uma tecnologia multicombustível que utilize metanol e etanol. Vejo isso como uma grande oportunidade para a Engenharia nacional”, sugeriu. “Esse será um diferencial competitivo importante”.

Nesse ponto, o executivo da Bosch destacou que é necessário a continuidade no desenvolvimento de motores de combustão, e citou alternativas de biocombustíveis com baixa emissão de carbono como argumento.

“Não é que a solução está dada com a eletrificação e nós não vamos mais mexer nos motores a combustão. Não. Nesse ponto, temos o biometano, os combustíveis sintéticos, os modelos a hidrogênio e a discussão do que vai ocorrer com o próprio diesel”, disse Fábio Ferreira. 

Na opinião dele, a diminuição de produção em volume dos motores de combustão em outros centros já começa a favorecer a indústria brasileira, visto que diversas empresas têm tradição e capacidade instalada no país para assumir o futuro no desenvolvimento desses motores.

“Vai haver uma imigração dessa engenharia para o Brasil e o Mover tem um papel importante nesse investimento, à medida que ele tira um pouco do peso nesse processo”, explicou, referindo-se aos incentivos tributários previstos no programa para quem investir em novas tecnologias com foco em sustentabilidade. “As estratégias estão ficando cada vez mais descentralizadas”.

Janayna complementou lembrando que empresas concorrentes já têm se associado para a criação compartilhada de novas tecnologias.

Brasil precisa buscar mercados afins ao híbrido flex

Como mediador, Trujillo questionou a possibilidade de haver mercado fora do Brasil para os “híbridos flex”. O coordenador do MBCB sugeriu que o Brasil precisaria buscar países de layouts semelhantes nesta demanda por biocombustíveis, como Estados Unidos e Índia.

“Forma-se um núcleo de estudos para se chegar mais rapidamente às soluções. A Índia, por exemplo, está caminhando rápido para aprovar a adição de 20% de etanol na gasolina até chegar a 95% como caminho para a descarbonização. Como é um país acostumado à produção de açúcar, eles podem rapidamente converter sua indústria para a produção de etanol”, disse.

“Se nos associarmos a países que possuem esse tipo de solução, a plataforma de exportação dessa tecnologia estará bem pavimentada”, concluiu.

Fábio Ferreira citou que a Bosch já comunizou sua tecnologia flex com vários países. “Já há mais de 30 países que adicionam cerca de 5%, 10, até 20% de etanol na gasolina”, esclareceu.

Janayna Bhering lembrou que as companhias instaladas no Brasil que detêm essa tecnologia são empresas globais, o que deve facilitar o compartilhamento da tecnologia flex com os demais países. “O objetivo é a descarbonização. O tipo de solução tecnológica é apenas o ‘como’”, destacou.