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Indústria: Mover precisa se mover

Durante #ABX24 programa setorial é visto com olhar favorável de especialistas, mas morosidade na definição de metas vira entrave
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Eduardo Pincigher

03 out 2024

4 minutos de leitura

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Em um dos painéis mais concorridos no Automotive Business Experience – #ABX24, o programa Mover foi dissecado por executivos do setor e da indústria. Mediado pelo repórter Bruno de Oliveira, teve a participação de Henry Joseph Jr, diretor de sustentabilidade e de parcerias estratégicas e institucionais da Anfavea, Paulo Cardamone, CEO da Bright Consulting, e João Irineu Medeiros, vice-presidente de assuntos regulatórios da Stellantis.

O pacote de medidas que regulará o setor automotivo a partir de 2027 está embutido no Projeto de Lei nº 914/2024, sancionado pelo presidente Lula no fim de junho. Para os especialistas, o Mover representa uma importante iniciativa brasileira para o setor automotivo e a indústria, pois promove a inovação tecnológica, o que verdadeiramente pode se transformar em um novo impulso para a engenharia automotiva no país ao criar veículos mais verdes e eficientes. 


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– Por IPI menor, montadoras estudam reciclagem de veículos usados


Mas há lacunas a serem preenchidas, conforme apontou o CEO da Bright Consulting, Paulo Cardamone. “O Mover precisa se mover. Faltam várias definições de itens importantes, como metas e política fiscal”, advertiu.

De fato: a política tributária brasileira é um tema central para qualquer empresa do país, em especial para as que estarão na linha de frente das inovações pretendidas pelo programa, como sistemistas e montadoras.

Indústria cobra definição de metas do Mover

Medeiros, da Stellantis, ratificou a preocupação com a falta de definição das metas, como as taxações do chamado IPI Verde, que deverá calibrar a tributação de acordo com a capacidade de cada novo veículo em emitir menos ou mais CO2. Ou a definição de como será tecnicamente a medição de emissões. E destacou as oportunidades virtuosas trazidas pelo programa.

“Já temos aprovação de compensações com investimentos feitos em pesquisa e desenvolvimento, o que foi ótimo, bem como a oportunidade que teremos de investir na economia circular com os princípios apontados pela reciclabilidade prevista no programa. Mas, no nosso segmento, o princípio da previsibilidade é básico”, lembrou.

Já o executivo da Anfavea trouxe ao painel um dado alvissareiro. “O Mover poderá trazer uma redução direta de 8% na emissão de poluentes de toda a frota circulante do país após 15 anos de implantação, somente com a introdução dos novos carros produzidos sob as regras do novo programa”, anunciou, ressaltando a relevância dessa queda quando lembramos da alta idade média da frota nacional. 

Vendas com ligeira elevação, custos mais altos

Como o setor automotivo brasileiro já sofre por ter que lidar com alta carga tributária, vivendo um período de vendas bem inferiores ao que já teve – os últimos anos têm sido com volumes ao redor de 2 a 2,5 milhões de veículos, bem distante dos quase 4 milhões de unidades de 2012 –, a adição de novas tecnologias que têm a missão de reduzir a emissão de poluentes é vista como uma preocupação real. Como equacionar vendas com baixa economia de escala e pressão de elevação dos custos?

Cardamone discutiu essa questão. “As montadoras têm sido proativas para cumprir metas, mas como equilibrar o aumento da eficiência energética, que eleva custos de produção, com vendas em um patamar tão restrito? Hoje, somente 22% dos domicílios classes A e B1 compram carro zero km. Esse percentual foi de 40% anos atrás”, questionou.

Essa alta tributação impacta diretamente a competitividade das empresas nacionais em comparação com as estrangeiras e espremem a margem de lucro das montadoras que optam por desenvolver suas atividades no país. A progressividade na redução de alíquotas de IPI para carros menos poluentes, previstas no Mover, pode atenuar essa questão dos custos na indústria, visto que entra em vigor já no início de 2025.

Economia circular e reindustrialização

Tema rico, o Mover ainda trouxe outras abordagens interessantes durante o #ABX24. O executivo da Stellantis mencionou a reciclabilidade prevista no programa setorial, o que cria a cultura da economia circular no país e incentiva a renovação de frota.

“Podemos mitigar 10% da emissão de toda a cadeia quando tivermos equacionado a reciclagem de aço, ferro, alumínio e plásticos. Esses ingredientes voltam para as linhas de montagem de carros novos como materiais reciclados e novos insumos deixam de ser produzidos”, disse.

O representante da Anfavea, por sua vez, lembrou que a política industrial de vários países prevê uma série de incentivos para sedimentar a Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) com o objetivo de criar novas tecnologias.

“Exatamente como faz o Mover. Isso é muito comum. E é um divisor de águas para o setor, visto que podemos pensar em um processo de reindustrialização do Brasil, através da geração de novas tecnologias que vão surgir dessa política de incentivos tributários”, argumentou.

Cardamone acrescentou. “O Mover vai escalonar novas tecnologias de acordo com o perfil da indústria automotiva do país”, disse, referindo-se ao parque da indústria de autopeças e à provável continuidade da produção de modelos movidos a combustão, com uma ação mais progressiva da eletrificação da frota.