A resposta não foi bem o que o executivo esperava ou gostaria de ter ouvido. Dissemos a ele: “Você fará com as mais de mil ideias a mesma coisa que faria sem nenhuma: absolutamente nada.”
Um montão de ideias sem um direcionamento estratégico, sequer uma tipologia pré- definida, de nada valem. É preciso deixar claro antes quais serão as formas de reconhecimento e critérios de escolha e priorização de cada ideia. Além disso, seria necessário ter desenhado o processo de como cada uma se transformará em projeto e como mediremos os resultados.
A parte de ter ideias e da qual tanto gostamos é um subsistema importante da gestão da inovação, mas não tem vida sozinha. É mais do que isto. É um erro comum iniciar a estruturação da gestão da inovação por um programa de ideias. Sem uma meta clara de onde se quer chegar com a inovação fica difícil aproveitá-las. É essencial definir previamente que ideias buscamos. Exemplo: melhorias de produtos, de processos, só as que sejam percebidas pelos clientes, radicais, incrementais, entre outras.
Deve ser pré-estabelecida a maneira pela qual as sugestões serão avaliadas (regulamento), quem as avaliará (comissão julgadora), a governança do programa e tem de estar claro o caminho pelo qual as melhores ideias virarão negócios (processo). Sem isso de nada adiantam ter as valiosas ideias.
Ideias são fugazes e frágeis. Quando não encontram um processo estruturado, os canais por onde por onde poderão fluir para se transformarem em negócios, ou morrem no próprio nascedouro gerando apenas frustração, ou pior, são levadas para fora da empresa, para concorrentes e startups.
Inovação para resultados é bem diferente de programas de ideias. Não é certo, tampouco, achar que a inovação se resuma aos chamados insights, momentos de luz, nos quais a imagem da inovação aparece na nossa frente. Este é apenas a etapa mais marcante pela tremenda sensação de realização que proporciona.
A inovação pra valer aconteceu antes e acontecera de verdade depois desses momentos de luz e felicidade. A história que nos contam de que Newton descobriu a lei da gravidade quando uma maçã caiu sobre sua cabeça é mais uma destas verdades distorcidas da inovação.
Newton provavelmente estava estudando fenômenos gravitacionais há anos. Como cientista e inovador que era, seguia uma robusta série de atividades para avançar em inovação. Fazia experimentos, explorações, registrava aprendizados, passo a passo em um processo disciplinado e incansável, provavelmente marcado por erros e fracassos que jamais serão citados. Não se pode resumir inovação ao momento da ideia. O mesmo vale para Arquimedes na banheira e a lei do empuxo e muitos outros inovadores.
Se a empresa quer ser uma inovadora serial, uma “Usina de Inovações” será preciso ter muito mais do que boas ideias. Essa parte é relativamente fácil. Difícil é ter as ideias certas e que façam sentido com a estratégia e gerem reações positivas nos clientes. Que reforcem o significado do que produzimos e que nos coloquem em vantagem competitiva diante de nossos concorrentes. Chamamos isso de Inovação Proposital, muito diferente da ocasional.
Recomendamos que comecem a caminhada para fortalecer a inovação planejada.
Uma espécie de Projeto do Projeto. Lembram-se do PDCA (Sigla em inglês para Planejar – Executar – Verificar – Ajustar)? Aplica-se perfeitamente aqui também. Que gênio era Deming!
Aliás, a própria Norma Brasileira ABNT NBR 16501:2011 – Diretrizes para Sistemas de Gestão da Pesquisa, do Desenvolvimento e da Inovação é a aplicação do PDCA à gestão da inovação, o que reforça esta tese.
Antes que você se sinta frustrado ao ler isso, lembro que as empresas mais inovadoras do mundo vivem de processos de fazer acontecer a inovação, muito mais do que de ideias. Aqui também a tal da “transpiração” ao lado da inspiração, volta a aparecer.
Para terminar: quer inovar? Arregace as mangas.