
Oliver Blume, anunciado na última semana como o novo CEO da Volkswagen, acumulará o cargo de presidente-executivo da Porsche AG. A informação foi confirmada pela própria VW e causou certa irritação nos investidores do Grupo.
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O nervosismo ocorre por causa do IPO da Porsche, um dos ativos mais valiosos da Volkswagen. Embora a abertura de capital esteja sujeita à aprovação do conselho de administração, tudo já estava praticamente encaminhado com os principais acionistas do Grupo. Ou estava.
Pesquisa conduzida pela Bernstein Research aponta que quase 75% dos investidores desaprovam a jornada dupla de Oliver Blume. Para eles, a manutenção do executivo à frente da Porsche oblitera a independência que a marca de luxo teria após a abertura de capital.
Dos 58 investidores ouvidos pela Bernstein, 42% são contrários ao IPO da Porsche. Briga acirrada, pois 41% acreditam que, mesmo com Blume nas duas frentes, a abertura de capital deve seguir adiante. A operação, vale frisar, levantaria cerca de € 20 bilhões.
IPO da Porsche: problemas de governança são entrave
Para os acionistas do Grupo Volkswagen, a listagem da Porsche nos moldes atuais seria afetada por problemas de governança corporativa. À agência Reuters, representante da Deka Investment, uma das maiores investidoras da VW, foi enfático ao dizer que Oliver Blume “não pode cuidar de tudo”. O executivo foi além e comentou que tal movimento é fruto de “má gestão em Wolfsburg” e é um “veneno” para o IPO da marca de luxo.
“Um mandato duplo só é capaz de existir temporariamente, em uma situação de emergência. Não funcionará a longo prazo”, afirmou à Reuters Ulrich Hocker, membro da associação que representa investidores do varejo.
“Nós confiamos em Blume na gestão do grupo, mas é difícil imaginar que ele será capaz de cumprir o duplo papel de gerenciar os interesses como presidente-executivo da Porsche e do grupo a longo prazo”, acrescentou Hendrik Schmidt, especialista em governança corporativa na gestora de ativos DWS.
Mesmo assim, ninguém acredita num adiamento do IPO da Porsche — previsto para o quarto trimestre. Justamente por isso, muitos especulam que o Grupo Volkswagen substitua Blume por Lutz Meschke, atualmente encarregado pelo setor financeiro da marca de veículos esportivos. Meschke atua na Porsche desde 2009 e, no início de 2022, renovou seu contrato com a empresa por mais cinco anos.
Saída de Diess
A demissão de Herbert Diess do cargo de CEO do Grupo também é vista com maus olhos pelos investidores da Volkswagen. Para 63% dos entrevistados pela Bernstein Research, a saída do executivo terá impacto negativo nas ações da empresa.
Considerado um outsider, advindo da BMW, Diess encarou ambiente disfuncional desde sua chegada ao Grupo Volkswagen. Não à toa, após perder apoio da família Porsche-Piëch, peça-chave do comitê da companhia, o combativo CEO recebeu o infame convite para se retirar.
Fundamental no processo de eletrificação da Volkswagen, Diess conduziu a organização em período crítico, logo após o Dieselgate, escândalo causado pela fraude da companhia no controle de emissões de milhões de carros vendidos globalmente. O executivo tem contrato com a VW até 2025. De acordo com fonte ouvida pela Reuters, ele seguirá no Grupo em caráter consultivo. Algo como uma Rainha Elizabeth de Wolfsburg.