
A principal surpresa no momento é que, ao contrário do esperado, Belini, 66 anos e desde 1973 no Grupo Fiat, não irá se aposentar. Também em 1º de novembro, o executivo será nomeado presidente de desenvolvimento da FCA América Latina, cargo até agora inexistente na empresa. Segundo comunicado do grupo, Belini terá a responsabilidade de representar a FCA em suas relações institucionais, incluindo governos e instituições financeiras na região latino-americana. Assim como já ocorre hoje, ele não terá nenhum chefe local, nem Ketter, pois se reportará diretamente a Sergio Marchionne, CEO mundial da FCA.
O processo de sucessão no comando do grupo no Brasil e toda a América Latina já vinha sendo desenhado desde 2013, quando Ketter transferiu seu escritório para Pernambuco, onde liderou pessoalmente a construção e instalação do Polo Automotivo Jeep, em Goiana, a mais moderna fábrica de automóveis da FCA no mundo, inaugurada em 28 de abril deste ano.
Apesar do nome alemão e de ter construído a maior parte de sua carreira na Europa e nos Estados Unidos, Ketter também é brasileiro, nasceu em São Paulo, fala português fluente. Junto com Belini, ele forma a dupla de nacionalidade brasileira com assentos do comitê executivo do grupo. Com essas credenciais e a confiança de Marchionne para fazer profundas alterações no sistema de manufatura da companhia em todo o mundo, Ketter sempre pareceu ser a escolha natural para substituir Belini.
O NEGOCIADOR CONTINUA
Mas Belini não será substituído totalmente. Como presidente de desenvolvimento da FCA na América Latina, ele vai continuar a fazer muito do que vinha fazendo. O executivo segue cuidando das relações institucionais da companhia, o que no Brasil significa negociações importantes com o governo em torno de políticas industriais que afetam diretamente as atividades e os resultados da empresa – exemplo disso é o próprio Inovar-Auto que Belini ajudou a escrever quando ocupou a presidência da associação brasileira dos fabricantes, a Anfavea, entre abril de 2010 e março de 2013.
Ao que parece, Marchionne quis manter toda a experiência de Belini nessa função, que trouxe ótimos resultados para o grupo no País – incluindo a negociação de generosos incentivos fiscais federais e estaduais, além de financiamento com juros camaradas do BNDES e outros órgãos de fomento, que viabilizaram a construção da fábrica de Goiana em Pernambuco com o mínimo de desembolso de recursos próprios da companhia.
Nascido em 3 de maio de 1949 e formado em Administração de Empresas pelo Mackenzie, com pós-graduação em Finanças no curso de mestrado na USP e MBA pela FDC/Insead, Belini começou a trabalhar no Grupo Fiat em 1973, onde entre diversas posições foi diretor de compras da montadora de 1987 a 1993, quando idealizou a formação do cinturão de fornecedores no entorno da fábrica de Betim (MG), com o suprimento de peças just in time. Em 2004, foi o primeiro brasileiro e não-engenheiro a assumir a presidência executiva da Fiat Automóveis – que somente em um ano de sua gestão (2005) não foi a líder de vendas de veículos no País. Em 2005, assumiu também a presidência do Grupo Fiat no Brasil e América Latina e desde 2009 é membro do conselho executivo da companhia. Com a aquisição do controle acionário da Chrysler pela Fiat, Belini passou a comandar as atividades da FCA na região.
PROFISSIONAL DE MANUFATURA
Profissional que construiu sua carreira sempre ligada às áreas de engenharia e manufatura industrial automotiva, Ketter é 10 anos mais jovem do que seu antecessor e pode ter em Belini um importante conselheiro para armar a estratégia comercial da empresa, algo que nunca fez antes.
Ketter nasceu em São Paulo, em 31 de julho de 1959, e concluiu seus estudos na Europa. Graduou-se em Engenharia Mecânica na Technical University of Munich, Alemanha, e especializou-se em gestão empresarial pelo Insead da França. A trajetória na indústria automotiva teve início em 1986, na BMW, e 10 anos depois entrou na Audi. Em 1997, foi nomeado diretor de qualidade do Grupo Volkswagen na América do Sul, com responsabilidade de colocar para funcionar a fábrica de São José dos Pinhais, no Paraná, em 1998.
Sua história na Fiat SpA começou em 2004, quando foi trazido da Volkswagen nos Estados Unidos para a empresa na Itália como diretor de qualidade por seu ex-chefe no Brasil, Herbert Demel, que então era o CEO da companhia italiana. Demel se foi no mesmo ano, mas Ketter ficou e conquistou a confiança de Marchionne, que em 2005 o transformou em chefe de manufatura, com responsabilidade pelo projeto, construção e instalação de fábricas do grupo em todo o mundo. A partir de 2006, Ketter começou a implementação de um novo sistema de produção, o World Class Manufacturing (WCM), que resultou em ganhos expressivos e produtividade e qualidade nas plantas do grupo. Desde 2008 o executivo tornou vice-presidente mundial de manufatura e membro do conselho executivo global da empresa.
Depois de colocar em funcionamento a fábrica de Goiana, que já nasceu com o uma das mais modernas e eficientes do mundo, agora Ketter terá de dividir suas atribuições globais com o comando da operação toda no Brasil e América Latina. A agenda ficará bem apertada.