
O Brasil quer ser, de fato, protagonista na transição energética. Justamente por isso, iniciativas como o MBCB são fundamentais para que o país tome às rédeas e dite o ritmo do processo em âmbito global.
O Acordo de Cooperação Mobilidade de Baixo Carbono para o Brasil é uma iniciativa que visa “promover a transição para uma mobilidade de baixo carbono no setor de transportes”. A coalização, composta por 27 empresas, crê que o potencial dos recursos naturais e a expertise local na seara de biocombustíveis são determinantes para uma posição de destaque do país, mas também, evidentemente, não descarta outras soluções.
No entanto, o pioneirismo brasileiro no trabalho com biocombustíveis é um trunfo. Isso principalmente em um momento no qual montadoras, de acordo com estudo conduzido pela consultoria BCG, perdem US$ 6 mil por veículo puramente elétrico nos Estados Unidos.
A reportagem da Automotive Business conversou com Roberto Braun, conselheiro do MBCB e diretor de comunicação da Toyota, presidente da fundação da companhia, e porta-voz da área de ESG da montadora – uma das integrantes da coalizão.
Na entrevista, o executivo comenta acerca da importância da formação de tal grupo em um momento tão importante e também sobre assuntos correlatos. Confira o papo na íntegra.
Para contextualizarmos, primeiro gostaria de saber qual é o objetivo do MBCB?
O MBCB é uma coalizão de 27 entidades e empresas que têm o objetivo de promover a descarbonização, essa transição energética para a mobilidade sustentável, utilizando novas tecnologias e biocombustíveis e, ao mesmo tempo, fomentar o desenvolvimento econômico e social do país.
E qual é a importância de uma coalizão dessas, de um acordo dessa magnitude, na atual conjuntura de transição energética pela qual estamos passando?
É, principalmente, colocar todo mundo que tem essa mesma preocupação, esse mesmo compromisso, juntos para trabalhar esse tema, para deixar claro para todos os stakeholders os caminhos que a gente tem para a descarbonização.
É também ressaltar que não há nenhuma preferência por nenhum caminho para atingir nosso objetivo final, que é a descarbonização, mas olhando para o que o país tem a oferecer e quais são as opções mais viáveis para nós.
Poderia elaborar um pouco mais sobre qual é a visão do MBCB acerca dessas várias rotas de transição energética e, especialmente, o que a gente tem de viável para o país?
Temos a oferecer nossa experiência com biocombustíveis. Desde os anos 1970 que o Brasil já usa biocombustível, começando com o carro a etanol puro. Depois a gente evoluiu, com o flex, e demos outro grande passo com o híbrido flex.
Além disso, dominamos a tecnologia do plantio, da eficiência do plantio e da descarbonização do processo de produção do etanol. Você tem tanto uma preocupação, primeiro, com a redução da emissão de CO2 na produção de etanol e aí, posteriormente, todo o conhecimento na aplicação deste em motores a combustão.
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Conforme disse anteriormente, evoluímos muito rapidamente nesse típico e desenvolvemos toda uma tecnologia para usar o biocombustível em proporções cada vez maiores. Fomos nos aprimorando até atingirmos esse estágio maduro, com adaptação do motor híbrido, que aí já é o motor eletrificado, que combina o motor elétrico, altamente eficiente, com o motor de baixa emissão de CO2, que é o motor flex, abastecido com etanol.
Temos, então, expertise…
Sim. Tanto que o Brasil é referência e a Índia, por exemplo, nos pediu apoio para desenvolver a tecnologia por lá. Temos totais condições de passar o nosso conhecimento para países capazes de encetar um programa como o nosso. Nisso devem ser levados em consideração renda, clima, espaço adequado para o plantio…
Quando falamos do sul global é isso. Países da Ásia, como Tailândia e Índia, nações africanas e países daqui da América do Sul que têm condições parecidas com as nossas para desenvolver esse mesmo projeto que o Brasil desenvolveu e hoje é um sucesso.
Fica claro, então, que o know-how é um dos pontos que podem fazer com que, no futuro, sejamos líderes nesse processo de transição. O que mais pode fazer com que a gente tome o protagonismo, de forma a não depender de diretrizes de União Europeia ou de Estados Unidos nessa questão?
No último encontro do G20, na Índia, além do Brasil, outros 18 países lançaram uma aliança global de biocombustíveis. Os Estados Unidos, a Itália e a Argentina, por exemplo, fazem parte deste grupo. E essa aliança global é justamente uma coalizão de nações que têm interesses de desenvolver novas alternativas de descarbonização dentro de um contexto similar ao nosso.
O Brasil oferece isso, dentro do contexto de diplomacia do etanol, para outros países porque é do nosso interesse que outras nações tenham essa mesma agenda que fortalece a nossa posição como um player que tem algo a oferecer para contribuir nesse processo de posição energética do ramo.
Voltando um pouco, você comentou sobre stakeholders, sobre os integrantes da coalizão do MBCB. Qual é o papel de cada um desses atores?
Bom, as empresas estão ali para somar esforços, dando a sua contribuição no seu conhecimento específico, na sua experiência, na sua tecnologia.
Nesse caminho de combinação de eletrificação com etanol, com biocombustível, lá mesmo tem empresas que trabalham com motores de veículos pesados que trabalham com alternativas como o biodiesel, o biometano, que eles também estão utilizando nas suas empresas como rotas possíveis. Há também o hidrogênio, por exemplo, que é uma outra rota que está hoje em teste e, em alguns territórios, já é realidade.
Então, o mundo está testando várias soluções, não tem uma solução única para a descarbonização. E nós estamos no mesmo caminho, porém com o trunfo dos biocombustíveis. No entanto, é importante dizer que várias soluções irão coexistir no futuro e essa somatória de esforços de cada empresa que está dentro do MBCB só tem a nos beneficiar.
E mais: o importante não são só os produtos que estão sendo projetados e planejados, mas também a própria neoindustrialização. Buscar a produção de baixo carbono nas próprias empresas, nas suas cadeias de fornecimento, os seus fornecedores, os seus distribuidores. Toda a cadeia de valor está imbuída, num esforço de buscar a descarbonização.
E o veículo puramente elétrico também é uma dessas rotas para a descarbonização.
Sem dúvidas. De muita valia no uso urbano, no last mile. Como será no futuro? Ninguém sabe. Pois, hoje, há uma restrição de autonomia e de infraestrutura. Por isso o elétrico, hoje, é mais interessante, como mencionei, no uso urbano.
Já no caso do carro híbrido, no caso do híbrido flex, por exemplo, temos soluções mais práticas que não mudam tanto a rotina do consumidor. Não tem uma quebra na ruptura.
E há ainda uma questão de localização que pode entrar na equação?
No caso do carro híbrido, como o estudo do professor Luciano [Coutinho] evidencia, você pega o motor a combustão e adiciona componentes que, num primeiro momento, são importados e, num segundo momento, com um ganho de escala, que é o que nós [na Toyota] estamos fazendo hoje, nos permite pensar em localização.
Enquanto isso, você tem no carro elétrico uma substituição mais aguda e, portanto, você deixaria de adquirir muitas peças no país. Até porque veja a bateria. Não temos hoje uma perspectiva de produção local plena de baterias, produção plena.
No caso do veículo híbrido se mantém a base de compras de hoje e você adiciona domponentes que, progressivamente, vão ser localizados no Brasil.
Braun, infelizmente nosso tempo está acabando. Deixo um espaço para que você faça algumas considerações finais.
Hoje temos condições de sermos vistos como uma base de produção e exportação de eletrificação e de mobilidade sustentável para toda a nossa região aqui da América Latina. Nós, na Toyota, já estamos exportando 20 mil carros híbridos por ano. São híbridos a gasolina porque nossos vizinhos aqui não têm oferta de etanol, mas isso ainda significa muito. A combinação da produção do mercado local com a exportação é positiva para dar escala, para viabilizar projetos de tecnologia como o nosso [híbrido flex].
Isso também possibilita a localização, pois quanto mais veículos eletrificados produzimos aqui mais temos a localização de componentes eletrificados. Estes, somados com as produções de outras empresas, vão criar uma base de produção aqui bem sólida e interessante para o Brasil poder colaborar com a descarbonização da América Latina e, quiçá, de outros países do mundo.
