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Medidas heterodoxas do Banco Central declinaram

As vendas de veículos nos dois primeiros meses de 2011 superaram as expectativas do setor e lançaram dúvidas quanto a eficácia das medidas de contenção de crédito implementadas no último trimestre de 2010 pelo Banco Central. Vista pelo mercado como uma medida heterodoxa para descalibrar a inflação, a restrição das linhas de crédito para o consumo de bens duráveis, como os de veículos automotores, não causaram o impacto desejado pela a autoridade monetária. A leitura econômica deste ambiente desdobra para o remédio amargo de novas altas nas taxas de juros.
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Redação AB

10 mar 2011

3 minutos de leitura

Analisando as variáveis que poderiam auto-explicar o crescimento das vendas no primeiro bimestre de 2011 observaram-se duas que sobrepuseram o crédito: o emprego e a renda. Porém, para entendermos esta nova dinâmica imposta pelo mercado de trabalho, precisamos assumir inicialmente que o aumento das linhas de crédito são definidas pelo mercado bancário (bancos) de acordo com o ambiente atual e futuro do emprego e da renda. Logo, o ponto central a ser compreendido é: o volume de crédito ao consumo na economia aumenta quando a taxa de desemprego diminui e a renda do trabalhador se eleva.

Dessa forma, do ponto de vista econômico vale afirmar que a restrição ao crédito induzida pelo Banco Central não causou nenhum impacto no consumo, justamente por que o mercado de trabalho brasileiro está no melhor momento em relação as quatro décadas anteriores. Para reduzir o consumo, e, portanto os preços, o Banco Central deveria atribuir medidas para arrefecer o mercado de trabalho.

Para ilustrar o cenário abordado, no gráfico pode-se visualizar a redução da taxa de desemprego e a elevação do rendimento médio divulgados pelo IBGE. Mesmo com a crise a renda do trabalhador em média não declinou. Afirma-se, neste caso, que o mercado de trabalho foi um dos principais amortecedores da crise e também uma das variáveis explicativas para a saída rápida do Brasil.

Aliás, as economias centrais estão patinando na pós-crise justamente pela alta taxa de desemprego, nos EUA o desemprego está na casa dos 10%, na Espanha por volta de 20%, por outro lado a taxa de desemprego oficial do Brasil está em aproximadamente 6%.

Diante de um mercado de trabalho robusto e de menores incertezas no longo prazo, os consumidores elevam a sua expectativa de consumo futuro. Estas expectativas favorecem para a maior propensão a consumir, e estimulam as pessoas adquirirem bens com maior valor agregado, como imóveis e carros. Temos, por fim, uma resposta convincente para o recorde de vendas de autoveículos e para a alta dos preços dos imóveis desde o segundo semestre de 2010.

O efeito esperado pelo BC para reduzir a demanda e, por conseguinte, trazer os preços para a sua meta de inflação, não foi atingido. Para arrefecer a inflação e amortecer a sua calibragem, fora da política tradicional dos juros, a alternativa seria elevar a taxa de desemprego para a faixa de 7% e diminuir a velocidade da alta dos salários. São medidas que o governo Rousseff dificilmente usará, principalmente, devido os indicativos de redução acentuada da pobreza em seu plano de governo.

É neste ambiente que a expansão do consumo seguirá como o principal motor do crescimento econômico em 2011, estimulada principalmente pelo mercado de trabalho. Diante disso, as ações no campo monetário deverão ser de choques não gradualistas e a atenção se volta para quais medidas serão adotadas para descomprimir as expectativas de alta dos preços no curto e médio prazo.