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No final de 2008 a indústria automobilística mexicana tremia. O peso perdia valor, as vendas caíam velozmente e ninguém sabia como pisar no freio para deter uma queda que poderia ser tão desastrosa quanto a de 1995, quando as vendas despencaram 70%.
Apesar do começo de 2009 não ter sido tão ruim, em maio chegou a gripe A H1N1, que parecia uma pá de cal sobre os restos de uma economia debilitada. Mas o segundo semestre foi melhor e, no final, a queda de 26,7% nas vendas de veículos foi um número muito menos dramático do que se esperava. Ainda assim, não havia exatamente otimismo com relação a 2010.
Alguns executivos, como Thomas Karig, vice-presidente de relações corporativas e estratégia da Volkswagen do México, diziam não haver motivo de otimismo para o final de 2009 ou 2010. Já Eduardo Serrano, presidente da Ford mexicana, projetou vendas de 850 mil unidades este ano – uma evolução próxima dos 10%. Para sorte dos mexicanos, a Ford está mais perto de ter razão do que a Volkswagen.
Particularidade
A proximidade dos Estados Unidos produz distorções difíceis de entender para quem não conhece o México e sua forma de ser. A importância do vizinho é tão grande que a segunda maior fonte de recursos do país são as remessas feitas por um contingente próximo de 27 milhões de mexicanos que vivem, legalmente ou não, no lado norte de uma fronteira de contrastes absolutos.
A convivência com os americanos inclina o gosto do mexicano para os carros grandes, com motores enormes, que não combinam com a geografia complicada por montanhas e vulcões, rodeados por estradas estreitas e geralmente com má conservação. Há ruas ainda mais estreitas, cheias de buracos e lombadas, e uma população de baixo poder aquisitivo.
Carros europeus e asiáticos se encaixam melhor no cenário local, mas há um problema: a altitude da maioria das grandes cidades. O ar rarefeito tira potência dos motores, uma desculpa perfeita para seguir comprando carros americanos e um freio para exportadores como o Brasil.
Para um consumidor acostumado a andar em carrões com motores de seis ou oito cilindros, um carrinho com motor de um litro não é exatamente agradável. Os carros brasileiros que seguem para o México têm motor 1.6 ou 1.8, o que os torna mais caros. Some-se a isso o problema cambial para completar uma receita perfeita no esfriamento das exportações brasileiras ao país asteca, que já representaram quase 30% do mercado mexicano.
Dependência
As vendas nos primeiros cinco meses de 2010 sugerem a volta paulatina do crescimento. O volume acumulado de janeiro a maio foi 3,6% superior ao período equivalente de 2009.
A produção avançou 74,1% nos primeiros cinco meses do ano, acompanhada de um crescimento de 79,9% nas exportações atribuído à recuperação do mercado norte-americano, que evoluiu 17,3% de janeiro a maio.
Nos primeiros cinco meses do ano 69,5% das exportações mexicanas de veículos tiveram os Estados Unidos como destino, vindo a seguir o Canadá (9,2%) e a América Latina, incluindo o Brasil, com 8,6%.
Incentivos
Fica claro que o problema é o mercado interno. Em um país com perto de 100 milhões de habitantes a demanda de 760 mil veículos registrada em 2009 chega quase ao ridículo. O Programa para el Desarrollo de las Industrias de Alta Tecnología, que pretendia renovar a idade média de 16 anos da frota mexicana de automóveis, foi criado em agosto de 2009 para estimular a venda de 30 mil automóveis novos.
Pouco ambiciosa e com inúmeras exigências, a iniciativa oferecia tão poucas vantagens que até março só atingiu 77% da meta inicial de 15 mil veículos.
Autopeças
O setor de autopeças também foi duramente golpeado pela crise. O volume de vendas em 2009 caiu 29% em comparação com 2008. No ano passado perderam-se 131.668 empregos, o equivalente a 23% da força de trabalho no setor, de acordo com a INA, a Industria Nacional de Autopartes.
A entidade calculava uma recuperação da produção de 28% para 2010, mas o bom primeiro trimestre trouxe alento no setor, que agora espera repetir os resultados de 2008.
Projetos
Sem dinheiro para comprar carros importados, a esperança dos mexicanos recai nos projetos que chegam ao país. O primeiro à vista é o novo Ford Fiesta, que fez a estréia na segunda quinzena de junho. O carro fabricado em Cuautitlán, perto da capital mexicana, será exportado para o Brasil. A Ford investiu perto de US$3 bilhões para adequar a fábrica, que montava camionetas F-150.
O Nissan March, conhecido como Micra em alguns mercados, será produzido na fábrica de Aguascalientes a partir do início de 2011 e também chegará ao Brasil. A mesma unidade montará um carro da Renault em 2012, ainda não revelado, possivelmente compartilhando a plataforma do March.
A Nissan pretende vender o elétrico Leaf no México a partir de 2011, graças a um acordo com o governo da Cidade do México, que instalará centros de recarga rápida para baterias.
A única certeza sobre o mercado mexicano para o restante do ano é que será melhor do que 2009. Ainda assim, é uma certeza que muito poucos se animam a expressar. Gato escaldado, sabemos, tem medo de água fria.
Foto: Estrada que dá acesso à cidade de Guadalajara.