Era algo distante para mim, vivíamos tempos financeiramente desafiadores na família. Mas minha mãe disse que seria possível. Se não tirasse nenhuma nota vermelha, no meu aniversário, a tão sonhada Monareta Black Tiger, preta, com pára-lamas prateados, seria minha.
Não conseguia deixar de pensar na bicicleta, via o anúncio nas revistas e imaginava o que seria tê-la. Nos passeios que fazíamos na Eletroradiobras, visitava a sessão de bicicletas e sentava-me numa para fantasiar como seria quando pudesse usá-la diariamente.
Até hoje lembro-me do cheiro dela, mistura de borracha dos pneus, plástico do banco onde se lia “Monark, a melhor bicicleta do mundo” e da graxa da corrente . Tirar uma nota vermelha era algo que nunca acontecera na minha vida. Claro que tirava umas fininhas, mas era um estudante dedicado, prestava atenção na aula, e era comportado. Tudo indicava que minha monareta chegaria em breve.
A época das provas iniciou-se, no meu querido CEDOM, Colégio Estadual Doutor Otávio Mendes, na rua Voluntários da Pátria, em Santana, um bairro gostoso na zona norte de São Paulo. A matéria era desenho. A professora era dona Maria Botelho, uma senhora mal humorada, de seus sessenta e poucos anos, cabelos tingidos de anil e sapatos de camurça com sola fina de borracha, sempre com lenço de seda no pescoço e brincos de pérolas amareladas.
Surpreendo-me de como me lembro tão bem dela e seu compasso de madeira, onde se acoplava um giz na ponta.
Mas aí o inusitado. Não é que ela resolveu inovar e testar nossas habilidades artísticas? Colocou um vaso e uma maça sobre um banco e nos pediu que desenhássemos a cena. Isso seria a prova. Tudo o que estudei, naquele instante, deixou de ser relevante. O resultado foi um desastre!
Entreguei a prova sem acreditar que aquilo estava acontecendo. Em poucos dias o pesadelo se concretizou. Recebi de volta aquela folha surrada de tanto apagar e refazer, com um esboço de vaso sofrível e uma maça, que hoje ousaria dizer ser impressionista, com a nota em vermelho no canto da folha: 3,5.
Um ponto e meio me separou eternamente do meu sonho. Minha mãe, mulher de palavra, e talvez aliviada por não ter que se preocupar com o perigo que uma bicicleta na rua movimentada representava, manteve o que disse, e ganhei outro presente, que honestamente não me lembro.
Pode ser que Maria Botelho tenha sido um anjo-da-guarda, mas descobri naquele distante 1972, aos 11 anos, que a vida não é justa, que contratempos acontecem, e que não estamos sempre no controle da situação. Comprei minha primeira bicicleta aos 26 anos quando morava no México. Tenho ela até hoje: é uma Regina, de corrida, azul e branca, 15 marchas, mas que nunca possuiu, nem de longe, o encanto da minha Monareta Black Tiger, a melhor bicicleta que quase tive.
Ivan Carlos Witt é sócio-presidente da Steer Recursos Humanos, empresa que fundou em 2002. Ocupava antes o cargo de diretor de compras para a América do Sul da Ford Motor Company, onde trabalhou por 20 anos. Atuou 10 anos no exterior (México, Estados Unidos, Espanha, Inglaterra e Alemanha) em cargos de liderança nas áreas de recursos humanos, manufatura, logística e compras. Engenheiro eletricista, atua hoje como headhunter, conduz treinamentos corporativos e desenvolve o Programa Horizontes de aconselhamento profissional para líderes.
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