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Montadoras precisam aprender com as crises

A crise atual do setor automotivo não é a primeira e nem será a última e, contrariando Armando Monteiro, Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, há de fato uma recessão. Segundo Letícia Costa, diretora da Prada Assessoria, a indústria e as empresas não aprenderam com crises anteriores para se fortalecer agora, em palestra com o tema “Os novos cenários para a indústria automobilística”, promovida por Automotive Business durante o VI Fórum da Indústria Automobilística, na segunda-feira, 6.
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victor

06 abr 2015

4 minutos de leitura

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O momento atual é mais grave do que a recessão vivida em 2008 e 2009. “Essa crise pode sim definir o futuro da indústria no País”, afirmou Costa, que contesta a posição tomada pelas empresas e pela Anfavea: “Nos últimos dez anos o Brasil se preocupou mais em fazer crescer o consumo e as vendas internas do que em entrar efetivamente no mercado global. Não temos mais dez anos a perder”, criticou.

A ociosidade da indústria é outro problema latente e causa de prejuízos, já que na América do Sul as montadoras atualmente usam, em média, apenas 50% da capacidade instalada e, de acordo com a consultora Letícia Costa, a indústria do setor tem possibilidade para atuar com 75%. “O nível da capacidade ociosa vai prejudicar a margem de lucro das montadoras, que vão ter de diminuir seus ganhos”, afirmou.

Segundo Letícia, o Brasil tem sim uma grande penetração no mercado automotivo, porém, na contramão da fala de Luiz Moan, presidente da Anfavea, “o potencial do país ainda é difícil de avaliar”. A especialista se justifica questionando a suposta possibilidade de crescimento no Nordeste, onde o índice de motorização ainda é muito baixo, mas a renda média per capita da região é um terço da do Sudeste. “Não é só o potencial que deve ser avaliado, mas também os preços e a renda”, pontuou.

Para que a indústria consiga superar antigos traumas e voltar a se desenvolver é necessário um crescimento sustentável da demanda, apoiado em três pilares: aumento de renda; preços relativos e financiamento. Leticia Costa acredita que, apesar de a crise de confiança do consumidor e do empresariado abalar o setor, o País não deve proteger as empresas e blindar o mercado, mas focar no aumento da competitividade, já que no Brasil não há nenhuma empresa genuinamente brasileira.

Apenas cinco dos 20 carros mais vendidos no País são projetos globais, dado que, segundo a consultora, comprova que o veículo produzido aqui é feito para atender às especificidades do mercado local, pouco servinvo às exportações. Outros fatores como baixa qualidade e pouca tecnologia tornam o produto quase impossível de ser vendidos em mercados de grande demanda da Europa e Ásia. “Atualmente, nossas exportações são para países de mercados peculiares e de baixa demanda, como Argentina e países da África”, lembrou a consultora. Ela também apontou que não há infraestrutura para tornar a exportação competitiva e, na contenção atual, é inevitável que toda a cadeia faça uma redução de investimentos.

A reestruturação do setor de autopeças é urgente e muitas empresas não resistiram à contração do mercado, que causa endividamento e recuperações judiciais principalmente de empresas de médio porte, com faturamento entre R$ 200 milhões e R$ 500 milhões.

REDE DE CONCESSIONÁRIAS

“Não vale a pena ser concessionário hoje no Brasil.” Com essa frase, Letícia Costa sintetiza as dificuldades atuais da rede de distribuição que existe atualmente no País. A consultora diz que o alto investimento do negócio não tem retorno e um concessionário quebrado, além de afetar toda a rede, dá altos prejuízos para as montadoras. O modelo de concessionária deve ser repensado, já que com a existência da arcaica Lei Ferrari, o lojista tem diversos artifícios para se manter, mesmo com dificuldades e, com isso, as fabricantes têm grandes dificuldades de retirar um revendedor do mercado. “Além da não pagar imposto, há uma série de medidas que ele [concessionário] pode tomar para estender a sua sobrevivência”, relatou.

Para Letícia, um concessionário em dificuldades não vai dar importância para a satisfação do cliente, o que abaixa significativamente a qualidade no atendimento e afeta as vendas da marca que representa como um todo. Para a especialista não adiantam todas as mudanças no setor se o contato direto com o cliente apresenta problemas e não atende ao princípio da satisfação total.

AFTERMARKET

O subestimado e escondido mercado de reposição apresentou em 2014 um alto faturamento, acima dos R$ 100 bilhões, porém ainda é deixado de escanteio pelas fabricantes. “O fato é que o mercado de reposição é muito mais rentável do que o original e pouco explorado pelas montadoras, que têm participação de apenas 8,5%”, conclui.

INOVAR-AUTO

Essencial para que se desenrolem os nós do setor é que haja, por parte do governo, uma desburocratização em todo o processo na cadeia produtora. A especialista acredita que o fato de não haver uma visão oficial de cadeia é mais um fator prejudicial.

O programa Inovar-Auto foi criticado pela especialista, que acredita que trouxe e traz ainda diversas distorções de interpretação. “No momento, porém, é fundamental que não sejam alteradas as regras do programa”, alerta.
A pergunta feita por Letícia Costa, por enquanto sem resposta, é se a indústria quer continuar tendo um grande e protegido mercado interno ou se vai, finalmente, ser um relevante player no cenário global.