
Hoje, dando sequência aos painéis e debates do evento #ABX 21, aconteceu o painel Carro elétrico: sonho ou realidade. Participaram da mesa Airton Cousseau, presidente da Nissan, e Regis Nieto, managing director and partner da BCG.
A mediadora Giovanna Riato, editora executiva de Automotive Business, abriu o debate perguntando como os participantes avaliavam o momento da eletrificação no Brasil. “Nossa função neste momento é desmistificar a utilização do elétrico”, resumiu Cousseau. “As pessoas perguntam ‘ah mas ele sobe montanha?’, esse tipo de coisa. Estamos mostrando que não precisa ter preocupação com potência, velocidade, etc., embora ainda haja empecilhos”, disse.
A Nissan foi a primeira empresa a vender um carro elétrico no Brasil, quando lançou o Nissan Leaf por aqui em 2019. Cousseau informou que, em 2021, foram comercializados 220 Leafs no país e que a expectativa para o próximo ano é de, no mínimo, dobrar esse número. A frota do modelo no Brasil é de cerca de 400 unidades atualmente. “Quando a gente começou em 2019, a gente tinha só 7 distribuidoras, agora temos 44, mas a ideia é que, em breve, toda a rede seja autorizada a comercializar o veículo”, comentou Cousseau.
Lembrando que os elétricos só devem corresponder a entre 2% e 3% das vendas deste ano, segundo projeções, Nieto definiu o momento como um começo. “O Brasil está num momento incipiente. Na Europa, em 2030, a gente acredita que os eletrificados vão ser 90% do total vendido. Na China, 95%, EUA um pouco menos. A gente vai chegar ao mesmo lugar, mas com muitos anos de atraso. A tendência é a mesma, mas a velocidade vai ser diferente”, diagnosticou ele.
Nieto fez a conexão do assunto com o tema do etanol. “O Brasil é talvez o único país do mundo que tem uma frota que é 95% flex”, disse ele. “Isso permite a opção de migrar para uma matriz energética de etanol. Resolveria o problema das emissões? Não. O elétrico com a matriz de energia limpa é o que resolve o problema. Mas os 15% de emissões que o etanol tem em relação à gasolina não são pouco. Até a frota inteira virar elétrica, vai demorar muito tempo, vai 2050. Se a gente quiser ir limpando no caminho, o etanol é uma opção interessante e que está na mão dos brasileiros”, defendeu o executivo.
Os dois participantes concordaram que um carro elétrico gasta cerca de cinco vezes menos que um a combustão. “No meu trajeto subindo a serra de Campos do Jordão, eu gasto 250 reais de gasolina numa viagem”, explanou Nieto. “Mesmo trajeto com elétrico, eu gasto algo como 60 kW, com o preço do kw a 80 centavos, quer dizer que eu gasto 48 reais. Esse é, talvez, o maior atrativo do carro elétrico hoje”, disse.
Um mercado em transformação
Mas não é só o baixo custo de uso que é um atrativo interessante para os elétricos. Os participantes também citaram que a manutenção é bem mais barata, algo possibilitado porque os elétricos têm menos partes móveis.
Nieto citou três pontos que acredita serem vantagens cruciais para a disseminação dos elétricos no mundo. O primeiro é a autonomia dos veículos. “Os elétricos começaram com 100, 150 km e isso avançou muito rápido. Hoje já tem carro de 600 km. Talvez não resolva em 100% a ansiedade da autonomia, mas ajuda bastante”, disse ele.
O segundo ponto é a infraestrutura de recarregamento. “No Brasil, isso está muito no começo. A gente enxerga que, para os próximos 10, 15 anos, tem que ter um investimento de 15 bilhões de reais em infraestrutura de carregamento. É muito dinheiro? É, mas colocar um carregador é muito mais fácil que montar um posto. Então eu não acho que vai ser uma grande barreira”, opinou ele.
Por fim, a questão de que o carro pode ser “abastecido” em casa. “Se você tiver um carregador na sua casa, você nunca vai precisar ir a um posto”, disse Nieto. “É muito cômodo. A dificuldade é, a partir do momento em que todo mundo passe a ter, como é que você pensa na infraestrutura elétrica de um prédio? Se você tem um condomínio com 100 pessoas, cada uma consumindo 10 kw à noite, é muita coisa. Então essa infraestrutura domiciliar vai precisar ser toda repensada. Mas toda a energia que a gente vai precisar em 2035 para carros elétricos é 3% da energia que a gente produziu em 2019”, explicou ele.
A tecnologia fuel-cell
Giovanna lembrou que a Nissan desenvolve no Brasil, já há vários anos, uma tecnologia de célula combustível (fuel cell). Um veículo elétrico que utiliza esse tipo de célula tem a energia fornecida não por uma bateria, mas sim por um combustível tradicional.
“Você coloca meio tanque de etanol e, pelo protótipo que estamos desenvolvendo, consegue andar 600 km”, afirmou Cousseau. “O etanol tem muito mais hidrogênio que a água e esse hidrogênio, dentro do fuel-cell, vira energia. É uma tecnologia que pode ser usada com etanol e também gás natural, então você vê China e Rússia usando bastante. Estamos bastante avançados para termos um veículo elétrico que não tem nenhum tipo de carga pela tomada, só pela célula de combustível”, disse o executivo da Nissan.
E quando veremos essa tecnologia nas ruas? “Vamos ter o primeiro protótipo, com um drone, em 2025 e a expectativa é de que, antes de 2030, a gente já tenha isso aplicado nos veículos”, projetou Cousseau. “Não é um sonho. Para nós, já é uma realidade e eu espero que o fuel-cell se transforme num ícone da eletrificação. A emissão é tão baixa que a gente consegue recuperar isso na plantação da cana, ou seja, é totalmente neutro”, afirmou ele. Será que, em dez anos, estaremos pilotando carros elétricos que nunca serão ligados na tomada?