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Não basta ser barata, gasolina tem de ter qualidade

Estudo feito pela Consultoria UHY Moreira comparando os preços dos combustíveis no Brasil com outros países foi objeto de muita polêmica entre leitores e especialistas após a publicação no site www.autoinforme.com.br na terça-feira, 17.
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Redação AB

19 jun 2014

4 minutos de leitura

Para Ronaldo Ribas, engenheiro mecânico especialista em desenvolvimento de motores, o estudo é inadequado e equivocado, pois o combustível vendido no Brasil não pode ser comparado ao vendido na Europa. “Que os preços na Europa são maiores que os do Brasil (e também o dos Estados Unidos, Canadá, México, Argentina, Chile, Venezuela, Colômbia e Bolívia), não é novidade. A octanagem, a qualidade e o baixo teor de resíduos indesejáveis, em países como Alemanha, França, Reino Unido e outros do bloco europeu, no entanto, são muito superiores à nossa gasolina”, diz o especialista.

Ele explica que o teor de enxofre na Europa é S10 (10 partes por milhão de litros), tanto na gasolina quanto no diesel, enquanto nossa gasolina tipo C possui teores que variam de S50 a S800. “O diesel vendido no Brasil passou recentemente a ter um teor S-10 e já custa 25% mais caro do que o S-500”, disse, lembrando também que o nosso diesel tem 5% de biodiesel na mistura e vai chegar a 7% até o fim do ano.

No caso da gasolina é muito pior, avalia Ronaldo Ribas, por causa da adição de álcool na gasolina (25%), o que reduz o poder calorífico e, consequentemente, a autonomia dos motores a combustão. Segundo o especialista, o erro do estudo feito pela UHY foi comparar combustíveis sem levar em conta o poder calorífico.

Eric Waidergon, da HHY e responsável pela pesquisa, diz que a qualidade do combustível não foi o foco do estudo, por isso não poderia levar em consideração as diferenças técnicas da gasolina existente em cada país.

Já Jailson Arcelino Pimentel – engenheiro mecânico em formação e projetista no setor de indústrias pesadas – questionou os dados referentes à carga tributária citadas no estudo da UHY, de 35,6% para a gasolina. Ele diz que outras fontes indicam impostos de 53% nesse combustível.

Eric Waidergon explicou que a pesquisa foi feita objetivando a rede de distribuição de combustível em todo o mundo e, para isso, foi estabelecido um padrão, que foi o valor do imposto na bomba, o que, segundo ele, acabou provocando essa distorção. O economista concorda, portanto, que, para o consumidor final, a carga tributária é muito maior: “Chega quase a 60%”, reconheceu.

“O problema – disse Eric Waidergon – é que a tributação dos bens no Brasil é muito complexa; a substituição tributária acaba provocando distorções e o consumidor nunca sabe exatamente quando está pagando de imposto. Essa complexidade existe também em outros países e por isso resolvemos padronizar, levando em consideração apenas o imposto sobrado na nota fiscal no posto.”

De acordo com o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), a carga tributária total da gasolina é de 53%.

No comunicado onde a UHY divulgou o resultado da pesquisa, assim como a carga tributária de cada país, não havia essa explicação, o que acabou provocando o erro: o título da matéria foi substituído, na edição da terça-feira, 17, para recompor a verdade: “O Brasil é um dos (e não é o) países com combustíveis mais baratos”.

A consultoria usou como comparação o tanque da uma van Transit, da Ford. Encher o tanque da Transit com gasolina no Brasil custa US$ 102,73, quase a metade do preço na Dinamarca. Se o combustível for o diesel, o custo de encher o tanque da Transit no Brasil é de US$ 89,60, ou menos de metade do custo no Reino Unido, país onde o preço do diesel é o mais elevado do mundo.

O estudo divulgado pela UHY diz que o Brasil tem um dos menores preços na bomba, tanto na gasolina quanto no diesel. Reino Unido, França e Alemanha cobram impostos mais altos do que o Brasil. Para os analistas da UHY, o grande volume de petróleo produzido no Brasil ajuda a manter os preços do combustível baixos.

Em muitos países os altos impostos são usados para estimular o uso de combustíveis alternativos, que podem ser uma opção comercial ao petróleo e também uma forma de reduzir as emissões de poluentes.

Segundo o estudo, a maioria das economias emergentes tem níveis consideravelmente mais baixos de tributação sobre o combustível do que as economias desenvolvidas. “As economias emergentes são muito mais focadas no crescimento e em prestar assistência às empresas, através de redução de impostos e subsídios, onde se faz necessário”, explicou Eric Waidergorn, diretor da UHY Moreira.

Este artigo foi publicado originalmente na Agência Autoinforme