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No Brasil, Lewis Hamilton fala o que pensa sobre diversidade na F1 e no setor automotivo

Heptacampeão mundial de Fórmula 1 quebra protocolo e fala sobre diversidade e inclusão, além de sustentabilidade, durante coletiva em SP
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Marcus Celestino

09 nov 2022

4 minutos de leitura

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Lewis Hamilton chegou à casa de eventos reservada para sua entrevista coletiva nesta quarta, 9, em São Paulo, ligeiramente atrasado. No entanto, desarmou os jornalistas presentes com um cálido “boa tarde” em português, e atribuiu a demora ao trânsito da capital. Motivo, como sabemos, justo.

A Mercedes havia pedido aos jornalistas, por meio de e-mail, que focassem suas perguntas no vindouro Grande Prêmio de São Paulo, que ocorre no domingo, 12. Enviou aos repórteres, inclusive, espécie de “guia” com questões direcionadas. Todavia, Hamilton é uma figura que transpõe barreiras desportivas, e mais: é autêntico.

Logo no início da entrevista, ao surgir pergunta cujo tema era como o engajamento da F1 com a sustentabilidade coincidia com as causas sociais do piloto, o mediador da coletiva reforçou novamente o pedido de ênfase na próxima corrida e na atual temporada. Sir Lewis, porém, não se fez de rogado, interpelou o representante e disparou, com muita calma: “Não há problema algum. Me sinto mais do que confortável em responder este tipo de pergunta”.

“Eu acho que o esporte tem dado passos interessantes nos últimos dois anos ao levantar sobre questões relevantes que acontecem ao redor do mundo. Creio que há uma parte do público que ainda não está completamente aberta a isso e diz que esporte e política não devem se misturar, mas a discussão aqui é sobre direitos básicos das pessoas”, enfatizou o heptacampeão mundial de Fórmula 1.

Embora tenha elogiado tais movimentações, Hamilton frisou que as considera insuficientes. No caso do tópico sustentabilidade, tanto no esporte a motor quanto no setor automotivo em geral, ele crê que a caminhada também é um tanto morosa. “As companhias têm se movimentado para levantar essa bandeira, mas vê-se também que ainda não é uma prioridade”, comentou. Hamilton cita, inclusive, o caminho da Fórmula 1 rumo a combustíveis mais limpos, mas destaca que isso é algo incipiente perto dos desafios do futuro.

Lewis Hamilton: liderança enfrentando preconceitos

Como único piloto negro da Fórmula 1 e, por conseguinte, grande liderança no quesito diversidade e inclusão, Lewis Hamilton enfrentou ao longo de sua carreira inúmeros atos indigestos de preconceito e de cerceamento de seu discurso. “É difícil falar sobre causas sociais, navegar sobre todos os tópicos, mas eles têm de ser discutido e eu tenho de aproveitar a plataforma que tenho para debater essas questões”, disparou o heptacampeão.

“Me disseram quando mais jovem que era impossível que eu fosse um novo Ayrton Senna, um piloto de corrida, que não havia pessoas pretas na Fórmula 1. Acreditei em mim e, agora, estou aqui, mesmo depois de muitas dificuldades”, disse, em outro momento da coletiva. 

“Ser o único [piloto negro na Fórmula 1] pode ser muito solitário, mas as experiências pelas quais passei me ajudaram a construir essa força que tenho e a me tornar essa pessoa que fala sem temer represálias”, comentou. Hamilton frisou ainda que estas experiências fizeram com que ele se tornasse um indivíduo mais forte, com capacidade de lutar pelo que acredita por meio de formas distintas de comunicação com as pessoas, a fim de explicar que mudanças são necessárias e que precisam acontecer. Ele reforçou ainda que o suporte dos fãs o ajuda a transmitir suas mensagens contra o racismo e por maior diversidade.

Sebastian Vettel atua como grande apoiador 

Grande apoiador das causas defendidas por Lewis Hamilton é Sebastian Vettel. O tetracampeão mundial já chegou a afirmar que vê com certa hipocrisia a luta da Fórmula 1 para tornar a categoria mais sustentável. Vale lembrar que, embora a F1 pretenda migrar para combustíveis 100% renováveis a partir de 2026, o alemão ressaltou que o transporte de toneladas de equipamentos ao redor do globo deixa pegada de carbono considerável.

Hamilton e Vettel são contemporâneos na Fórmula 1 e disputaram inúmeros duelos nas pistas em busca de um único objetivo: o título mundial de pilotos. No entanto, mesmo assim, nutrem respeito e têm ótima relação.

“É muito difícil cultivar essa amizade [que eu Vettel temos] quando somos competidores, brigamos por campeonatos. Mas sou muito grato por saber que, de todos os pilotos contra os quais competi, Seb foi o primeiro a ficar do meu lado e a me apoiar [em questões sociais]. Além disso, ele defende com paixão suas causas”, comentou Sir Lewis acerca do tetracampeão, que se aposenta da F1 ao fim desta temporada.

“Acredito que não existiram pilotos que usaram a plataforma que têm como eu e Seb, com o objetivo de melhorar o planeta”, destacou Hamilton. “Vamos sempre manter contato. Vamos seguir lutando pelo que acreditamos e pelos nossos objetivos no futuro”, completou.

Por fim, Sir Lewis espera que os futuros pilotos da categoria sejam mais abertos a tratar de assuntos que, mesmo espinhosos para alguns, são de extrema importância para a sociedade e para o planeta. Até mesmo porque, o heptacampeão sabe que seus dias de F1, ao menos no cockpit, estão contados. Mesmo que renove com a Mercedes e tenha novo contrato longo, Hamilton já tem 37 anos. “Tomara que a próxima geração possa ter maior espontaneidade, ser mais franca”, disse.

Tomara que a próxima geração tome Lewis Hamilton como exemplo. Que defenda com afinco pautas relevantes, quebre protocolos e não viva em uma casa pré-fabricada, com um discurso devidamente planejado por outrem. Pilotos não são meros capacetes.


*A reportagem de Automotive Business participou do evento a convite da Petronas