logo

Nova fábrica da Ford gera otimismo e apreensão nos EUA

Planta de carros elétricos mudará vida em cidade com menos de 500 habitantes no Tennessee
Author image

Vitor Matsubara

18 nov 2022

5 minutos de leitura

Imagem de Destaque

A construção de uma fábrica da Ford está mudando a rotina de uma pequenina cidade nos Estados Unidos. Conforme destaca reportagem da agência Automotive News, a unidade de carros elétricos em Stanton, no Tennessee (EUA), será inaugurada em três anos para fabricar a F-150 Lightning e baterias para outros modelos da gama. Enquanto isso não acontece, as obras transformaram a vida dos 452 habitantes, sobretudo no comércio.

“Não sei o que mais posso fazer”, afirmou Lesa ‘Suga’ Tard, proprietária do Suga Diner, o único restaurante de Stanton. A empresária, que também comanda a cozinha do local, está à procura por novos empregados após ter ampliado o número de horas de trabalho, acrescentado um dia de expediente na semana e encomendado a construção de um novo food truck para atender à demanda de clientes.

“As pessoas estão empolgadas (com a abertura da nova fábrica), mas muitas delas se aposentaram aqui em busca de uma vida mais tranquila no interior e livre da criminalidade. Existe a preocupação de que tudo pode mudar”, ressaltou Tard.

Meta é bater a Tesla

Fato é que a vida realmente mudará em Stanton, cidade localizada a 72 quilômetros de Memphis. O complexo conhecido como BlueOval City é fruto de um investimento de US$ 5,6 bilhões (aproximadamente R$ 30,5 bilhões) e deve contar com seis mil funcionários, que devem produzir até 350 mil veículos por ano.

A Automotive News ressalta que a fábrica será a primeira inteiramente nova construída pela Ford em mais de 50 anos. É também peça-chave no plano de eletrificação da marca feito pelo atual CEO da montadora, Jim Farley. A unidade faz parte de um investimento de US$ 50 bilhões (mais de R$ 270 bilhões) para chegar ao volume de produção de 2 milhões de baterias por ano no fim de 2026.

A Ford confia na possibilidade de ultrapassar a Tesla no mercado de carros elétricos. E grande parte deste otimismo passa pela construção da fábrica de Stanton.

Entretanto, a reportagem aponta que parte dos executivos da Ford (cuja sede fica em Michigan, na região nordeste dos EUA) teme que a empresa pode se deixar seduzir pelos custos atrativos da região sul do país.

De acordo com um levantamento feito pela Bloomberg, a zona rural do Tennessee reúne alguns atrativos, como a abundância de terrenos disponíveis, custos de mão-de-obra mais baixos e incentivos governamentais na casa de US$ 2,4 bilhões.

É importante ressaltar que a Ford pretende erguer outras duas fábricas de baterias em conjunto com a sul-coreana SK, ambas no estado de Kentucky, além de um centro de pesquisa e desenvolvimento em Atlanta. No total, a empresa estima gerar 11 mil empregos com a inauguração das três plantas.

Espaço para crescer

Construída em uma área de 14,5 km2, o novo complexo no Tennessee é três vezes maior do que a gigantesca fábrica de Rouge. Situada nos arredores de Detroit, ela foi erguida para a produção do Model A e hoje é responsável por fabricar as F-150 movidas a gasolina e eletricidade.

Farley acredita que existirá uma forte demanda pelos carros elétricos nos Estados Unidos. Embora hoje esse volume seja inferior a 10%, o CEO da Ford acredita que a proporção pode chegar a 90% por ano a partir de 2026. 

“Nós queríamos escolher um lugar que pode crescer conosco. Se existe algo que aprendemos até agora sobre a estratégia de eletrificação é que precisamos ter certeza de que existirá espaço para ampliar nossa produção”, disse Lisa Drake, vice-presidente da área responsável pela industrialização dos veículos elétricos da Ford.

Expectativa e apreensão

O misto de otimismo e incerteza também atinge os moradores das cidades vizinhas. Em Brownsville, uma cidade com 9.788 habitantes famosa por ter sido o lar de Tina Turner durante sua infância, não faltam placas e outras manifestações de boas-vindas à fabricante.

John Ashworth, um ex-funcionário de companhia aérea, espera que a chegada da Ford à Stanton promova maior integração entre brancos e negros, inclusive em sua cidade. Assim como em várias partes dos Estados Unidos, o racismo ainda é um dos maiores problemas sociais.

“A Ford Motor Company não vai apenas fazer com que brancos e negros interajam mais, como também vai trazer outras pessoas de várias partes do mundo para cá. Será bom para todos”, opina.

A fabricante, por sua vez, afirmou que pretende montar um quadro de funcionários bastante diverso. Pensando nisso, a Ford pediu para que Kel Kearns, responsável pela futura fábrica, fosse até a cidade para conversar com grupos da comunidade e tirar eventuais dúvidas a respeito do complexo. Nascido na Austrália, o executivo inaugurou e administrou plantas da Ford na Índia, Tailândia e China, e é visto como o nome certo para cuidar da fábrica no Tennessee.

“Contratei pessoas de vilarejos na Índia que nunca haviam trabalhado em uma fábrica antes ou sequer tinham carros. Mas toda a planta funcionava como uma equipe”, disse à Automotive News.

Só que nem todos os moradores estão felizes com a notícia. Marcia Watson, de 53 anos, afirmou que a iminente chegada da fabricante já causou aumentos nos preços de vários produtos no comércio e influenciou até no trânsito da região. “Os fazendeiros estão preocupados sobre o que vão fazer com as terras, com o solo e com o meio-ambiente”, disse.

O discurso é endossado por seu esposo, Danny. “Somos todos de cidades pequenas. Não queremos que a cidade cresça tanto, ainda mais tão rapidamente”, resume.