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NTU vê recuperação difícil e teme colapso do transporte público

Na abertura da Lat.Bus, entidade alerta sobre perda de passageiros, empresas endividadas, falta de investimento e elevação de idade da frota de ônibus
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Pedro Kutney

20 set 2021

7 minutos de leitura

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A pandemia feriu de quase morte o transporte público com as medidas para conter a proliferação do coronavírus. Pode-se dizer que o setor tinha comormidades, já agonizava com queda constante da demanda de passageiros, de mais de 50% em 25 anos até 2019, que se aprofundou de maneira aguda em 2020 com a Covid-19, reduzindo de 70% a 80% o volume de passageiros transportados em abril e maio. A recuperação nos meses seguintes até agora está em níveis ainda abaixo dos registrados no período pré-pandemia, que já não eram considerados bons. 

A Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), alerta que o quadro atual é grave, pois inviabiliza o modelo de negócio adotado até agora, o que poderá provocar colapso no sistema. Na abertura da Lat.Bus Transpúblico – Feira Latino-Americana de Transporte 2021 (em formato on-line de 21 a 23 de setembro), Otávio Cunha, presidente da NTU, destacou que o setor entrou na pandemia com muitos problemas e está saindo deste período ainda pior. 

“Recuperamos parte das perdas, mas ainda estamos muito longe dos níveis pré-pandemia e com resultados que não garantem a sustentabilidade das empresas, que já acumulam prejuízos de R$ 16,7 bilhões”, afirma Otávio Cunha. 


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Segundo o presidente da NTU, atualmente o setor de transporte coletivo urbano opera no País com média de 80% na oferta do serviço para atender apenas 60% da demanda de passageiros que tinha antes da pandemia. Em São Paulo e Brasília, onde o poder público subsidia a tarifa (sem reajustes há três anos) sendo responsável por pagar diretamente às empresas uma parte de suas receitas, a oferta do serviço já é de 100% e a demanda de 80%. 

Faltam subsídios e investimentos

O dirigente afirma que a entidade defende mudanças para tornar o sistema viável, propondo um novo marco legal para o setor que será apresentado em breve ao Senado Federal. Para Cunha, os número comprovam que é necessário replicar o modelo de subsídio da tarifa de São Paulo e Brasília em todo o País. “Transporte público é um direito social e precisa entrar no orçamento público para ser remunerado adequadamente. É a única forma de assegurar mobilidade de qualidade para a camada de menor renda da população, principal usuária do serviço”, aponta. 

Com a baixa oferta de subsídios e linhas de financiamento especiais, Cunha afirma que as empresas estão endividadas e sem poder de investimento. Por isso, ele destaca, a idade média da frota nacional de ônibus, que era de 4,5 anos antes da pandemia, já subiu para 5,8 anos, com veículos de mais de 11 anos circulando por algumas cidades. “Algumas empresas ainda investem, mas muito abaixo do necessário. O setor precisa de um programa de renovação de frota”, defende. 

Segundo Cunha, as empresas do setor vêm perdendo produtividade na operação há mais de duas décadas, com redução de ocupação e da velocidade média. Nos anos 1990, ele lembra, cada ônibus transportava em média 631 passageiros por dia e atualmente esse índice caiu 76%, para 167 pessoas transportadas por dia em cada veículo. Ao mesmo tempo, apesar de tarifas muito mais caras do que naquela época, a rentabilidade foi trocada por prejuízo. “O diesel representa hoje 25% do custo de operação, contra 9% na década de 1990”, destaca. “Isso torna o modelo atual insustentável.”

“O transporte coletivo é a solução ideal para a mobilidade urbana, fazendo baixar poluição e acidentes. São questões que não se resolvem com modalidades de transporte individual. Precisamos copiar o modelo de países civilizados, onde pessoas que têm carros usam transporte público para se locomover nas cidades. Para isso temos de ter tarifas acessíveis e remuneração adequada para que as empresas possam ser sustentáveis e garantam serviço de qualidade”, afirma Otávio Cunha.

Segmento rodoviário espera forte recuperação

Enquanto os operadores de transporte coletivo urbano têm dificuldades para tornar o negócio sustentável, o segmento rodoviário foi ainda mais atingido no pico da pandemia, em abril e maio, com paralisações quase totais de algumas rotas e desaparecimento dos passageiros. No entanto, o avanço da vacinação no País está renovando as expectativas de uma forte recuperação das atividades já a partir do fim de 2021, que deve se estender para 2022.

“O brasileiro quer voltar a viajar e o transporte rodoviário deve ter forte participação na recuperação do turismo nacional, com elevação de 35% para 45% da participação dos passageiros em viagens de turismo nos ônibus”, afirma Eduardo Tudi de Melo, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros, a Abrati. Segundo ele, a esperada expansão deve confirmar investimentos do setor de R$ 3 bilhões nos próximos anos. 

“O mercado de ônibus caiu tanto no que só dá para melhorar. Esse salto vai acontecer agora, por isso fizemos este ano o lançamento dos novos chassis rodoviários B450R+ e do B420R+”, afirma Fabiano Todeschini, presidente da Volvo Bus Latin America. Também falando na Lat.Bus, o presidente da Volvo Financial Services no Brasil, Valter Viapiana, confirma a forte recuperação do segmento rodoviário: “Estamos em franca recuperação. O mercado passou por momento difíceis no ano passado e este ano. Apoiamos nossos cliente com refinanciamento, alongamento de contratos etc., mas isso está superado, os pagamentos estão se normalizando e os clientes já estão voltando a comprar, a solicitar crédito”, endossa.

Queda nas fábricas ainda é forte

O segmento de ônibus foi o mais atingido pela pandemia e também o que mais demora a se recuperar de seus efeitos adversos. Os fabricantes de chassis e carrocerias registraram retrações abissais nas vendas domésticas e exportações. 

“De 2011 a 2014 esse mercado já foi de 30 mil ônibus/ano em média, caiu para 11 mil a 12 mil na crise de 2015 a 2016 e voltou a quase 21 mil em 2019, mas a pandemia derrubou para menos de 14 mil chassis em 2020 (queda de 33%, a maior entre todos os segmentos). Esperamos este ano algo entre 15 mil e 16 mil unidades negociadas e discreta recuperação das exportações”, avaliou Luiz Carlos Moraes, presidente da Anfavea, que reúne os fabricantes de veículos, durante sua participação na abertura da Lat.Bus. 

André Oliveira, gerente de marketing e vendas de ônibus da Scania na América Latina em e marketing, projeta um período de recuperação nos próximos meses: “O segmento de ônibus, principalmente o urbano, foi um dos mais afetados ao longo da pandemia em termos de vendas. Por outro lado, estamos vivendo o momento da retomada com o avanço da vacinação no País, possibilidade de maior fluxo de passageiros e consequente renovação de frota.”

Os encarroçadores também sofreram grandes perdas, segundo a Fabus, que reúne as empresas do setor. A produção de carrocerias caiu 26,5% em 2020, para pouco mais de 16 mil unidades. Nos primeiros meses de 2021, a retração continuou e a perda acumulada no primeiro semestre chega a 38%, segundo Ruben Bisi, presidente da entidade. Os fabricantes esperam fechar o ano com aumento de 17% nas vendas domésticas e crescimento de 22% nas exportações.

“As empresas do setor de transportes ainda estão muito debilitadas, precisam de financiamento, mas têm restrições”, afirma Ruben Bisi, presidente da Fabus. Ele avalia que o crescimento da economia tende a aumentar a demanda por transporte e pelos ônibus, com retomada do turismo e novos pregões do programa federal Caminho da Escola. Contudo, pondera que jogam contra a recuperação a alta do custo das matérias-primas como aço e plástico, a falta de semicondutores e aceleração do preço dos combustíveis. 

Para Bisi, o setor deve focar suas demandas junto ao governo federal para manter a desoneração da folha de salários, aprovação do marco regulatório do transporte de passageiros, introdução de um programa de renovação da frota e disponibilidade de linhas de financiamento do BNDES para operadores domésticos de ônibus e crédito à exportação. 

* Com colaboração de Bruno de Oliveira e Victor Bianchin