

As transformações provocadas pelos veículos elétricos na mobilidade vão crescer exponencialmente nos próximos anos. Para entender a transformação global e no Brasil, Frank Mühlon, presidente da nova divisão de E-mobilidade da ABB, criada em fevereiro, concedeu entrevista exclusiva a Automotive Business. Antes de assumir a posição, ele desempenhou a função de diretor de Soluções de Infraestrutura de E-mobilidade da ABB entre 2017 e o começo de 2021.
Segundo Mühlon um dos principais desafios para o avanço dos carros elétricos é a necessidade de dobrar a infraestrutura de carregamento. Ele estima que, em 2040, cerca de 290 milhões de pontos de recarga serão implantados, representando cerca de US$ 500 bilhões em investimentos globalmente e a ascensão de um mercado no qual a ABB atua diretamente.
O crescimento da infraestrutura anda em paralelo com o grande salto do mercado dos veículos elétricos. “Olhando para o futuro, esperamos ver um grande aumento na participação de mercado, com participação de 25% a 30% desses modelos nas vendas”, avalia.
No Brasil, Mühlon acredita que a falta de incentivo à tecnologia é um desafio, mas entende que o cenário não é puramente negativo. “Como o país tem dimensões gigantescas, há muitas oportunidades para expandir a adoção da mobilidade eletrificada. Já vemos um aumento muito rápido do interesse por ter frotas corporativas com carros e caminhões elétricos, especialmente para entrega na última milha.”
Na sua visão, qual é o maior desafio da mobilidade elétrica no mundo? E o maior incentivo?
Vamos começar com o incentivo, pois é isso que realmente está impulsionando a rápida eletrificação. De forma objetiva, a motivação da sociedade para uma implantação em larga escala de soluções de mobilidade elétrica é clara: conter as mudanças climáticas.
O relatório Energy Association Tracking Transport 2020, o transporte ainda é responsável por 24% das emissões diretas de CO2 da queima de combustíveis. Embora as soluções de mobilidade elétrica estejam aumentando rapidamente, essa mudança ainda não acontece com a velocidade necessária. No ritmo atual, ficaremos aquém do que precisa ser alcançado para cumprir as metas do Acordo de Paris de limitar o aquecimento global a até 1,5°C. É necessário fazer ainda mais tanto em termos de investimento financeiro, quanto de apoio regulatório e padronização global clara para a adoção de tecnologias.
Quanto aos desafios, são cinco principais áreas que ainda precisam ser abordadas. A primeira é dobrar a infraestrutura de carregamento. Em 2040, cerca de 290 milhões de pontos de carregamento devem ser implantados, representando cerca de US$ 500 bilhões em investimentos globalmente. Nesse cenário, esquemas de investimento público-privado colaborativos são necessários para elevar a infraestrutura de cobrança em locais prioritários.
“Os outros desafios são: focar investimentos em elétricos em segmentos de alto impacto, com grande número de passageiros ou volume de mercadorias; estimular esforços público-privados para criar um mercado sustentável; apoio financeiro e regulatório para viabilizar a transição do motor de combustão interna para os elétricos; e melhorar a sustentabilidade e o potencial de armazenamento das baterias.”
A eletrificação é uma chance de repensar a experiência das pessoas com os carros, pois a condução é diferente, assim como o reabastecimento, por exemplo. Qual você acredita que será a principal transformação?
A principal mudança já está em andamento: a capacidade e o desejo de conduzir de forma sustentável. Em 2010, quem teria pensado que seria possível carregar um caminhão em menos de seis minutos ou dirigir mais de 320 quilômetros com uma carga na bateria ou percorrer uma cidade inteira em uma rede de ônibus elétricos?
Há dez anos, o conceito de direção autônoma e frotas de veículos elétricos completos era uma visão. Agora, é uma realidade e, na ABB, queremos liderar o desenvolvimento de novas tecnologias e soluções integradas que continuarão a conduzir nosso futuro.
Há mudança marcante nas percepções do consumidor, com a preocupação com sustentabilidade ganhando uma importância que jamais teve. As pessoas querem viver em um ambiente mais limpo, menos barulhento e menos poluído e estão dispostas a tomar medidas para que isso aconteça. É um movimento continuará a impulsionar a demanda por carros elétricos em comparação com os motores de combustão tradicionais. Com isso, o futuro do setor parece positivo.
Com a evolução e inovação contínuas em todo o setor, veremos uma mudança marcante para um cenário em que tudo está conectado e a mobilidade compartilhada, ao lado da gestão da frota elétrica, se tornará a norma. Olhando para o futuro, esperamos ver um grande aumento na participação de mercado, com os veículos elétricos respondendo por 25% e 30% das vendas. Alguns especialistas da indústria preveem que isso pode chegar a 50% nos próximos anos.
O Brasil enfrenta diversos obstáculos à eletrificação, como a falta de incentivos. Nesse caso, qual você acredita ser o papel do país nessa evolução? Vamos ficar para trás?
“A falta de incentivos é um desafio, mas não é uma barreira. O Brasil é um ator importante no cenário latino-americano há vários anos, com um número crescente de pontos de recarga rápida nas rodovias. Como tem dimensões gigantescas, ainda há muitas oportunidades para expandir a adoção da mobilidade elétrica. Já vemos um aumento muito rápido do interesse por incluir carros e caminhões elétricos nas frotas corporativas, especialmente para entrega na última milha.”
Como a ABB no Brasil ajuda a criar soluções para incentivar a mobilidade elétrica? E quais serão os próximos passos?
Desde 2019, estamos envolvidos no projeto da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) que usa fundos de pesquisa e desenvolvimento para promover a mobilidade elétrica, incluindo infraestrutura de carregamento. A iniciativa tem alguns marcos importantes ao longo de 2021 e no próximo ano.
Há também o nosso apoio no desenvolvimento da regulamentação, por exemplo na cidade de São Paulo, onde uma lei torna obrigatório que novos edifícios comerciais tenham um percentual de vagas destinadas a veículos elétricos, entre outros incentivos.
A ABB tem investido em novas soluções de recarga. Nos próximos anos, os equipamentos de reabastecimento rápido devem substituir os carregadores tradicionais, que demoram mais tempo? Como isso afeta a experiência dos consumidores e a mobilidade urbana?
A escolha é realmente determinada pelo tipo de instalação. Por exemplo, se você está carregando durante a noite em casa pode demorar mais. Em uma instalação rodoviária, a tendência é por carregamento rápido e de alta potência.
Dito isso, já estamos vendo uma boa tração para a caixa de embutir DC (recarga rápida) em todos os mercados. A Wallbox é a solução ideal em destinos onde o carro ficará estacionado de 1 a 3 horas, seja em casa, escritórios ou estacionamentos em geral. Também é adequado para garagens de ônibus e pode atender todos os automóveis e veículos comerciais do mercado, o que significa que é uma solução interessante para gestores de frotas.
A ABB entrou no mercado de mobilidade elétrica em 2010 e hoje já vendeu mais de 400 mil carregadores em 85 mercados.
O automobilismo é um grande laboratório de desenvolvimento de tecnologias e soluções. Qual tem sido a experiência da ABB em fornecer soluções para a Fórmula E?
Uma das principais atrações para a ABB ao se tornar o principal patrocinador da competicação, em 2018, foi a oportunidade de usar, provar e desenvolver nossas próprias tecnologias no competitivo ambiente do automobilismo.
A partir da 9ª temporada, que está programada para começar no final de 2022, a ABB se tornará o fornecedor oficial de carregadores do campeonato. Isso é muito empolgante para nós, pois pela primeira vez nossa tecnologia será usada para carregar os carros elétricos mais rápidos e poderosos do planeta, em uma arena onde qualquer fraqueza ou falha é imediatamente exposta. Portanto, este é um grande desafio e oportunidade – especialmente porque as paradas de carregamento rápido estão planejadas para se tornarem parte do formato de corrida a partir dessa temporada.
E quais são os desafios em fazer parte do automobilismo?
A natureza competitiva do automobilismo traz um elemento extra de desafio para qualquer parceiro de tecnologia. Por exemplo, você precisa garantir que seus produtos funcionem em uma infinidade de condições diferentes, com abrigo limitado e em condições extremas.
Então, a natureza exigente do automobilismo significa que as soluções devem ser 100% robustas e confiáveis. Não é bom para equipes e fabricantes estarem em uma corrida para desenvolver os veículos mais rápidos e eficientes se o seu fornecedor de carregamento não puder entregar um produto que funcionará sempre, seja o que for exigido deles.
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